Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.04.2014 15.04.2014

Copa do Mundo estimula lançamento de antologias de futebol

Por André Bernardo
 
A profissão de técnico é uma das mais ingratas do futebol. Se o time ganha, o mérito é dos jogadores. Foram eles que souberam aproveitar as chances de gol e chutar a bola para o fundo da rede.
Se o time perde, a culpa é toda do treinador. Foi ele que não soube armar um esquema tático eficiente para ganhar a partida. Organizar uma antologia de futebol é como escalar uma seleção brasileira. A única diferença é que, em vez de jogadores, o “treinador” escala escritores.
No caso de Um Time de Primeira, o técnico em questão é Daniel Louzada. Gerente de literatura de interesse geral da Saraiva, Daniel se apressa em dizer que não convocou os 11 craques do livro sozinho. Para cumprir tão importante missão, teve ajuda da “comissão técnica” da Nova Fronteira.
A seleção montada por Louzada faz jus ao título da antologia. O “time de primeira” entrou em campo com João Cabral de Melo Neto no gol; Mário Filho, João do Rio, Antônio de Alcântara Machado e Rubem Fonseca na defesa; Coelho Neto, Luís Fernando Veríssimo, Lima Barreto e Nelson Rodrigues no meio-campo; e Vinícius de Moraes e Mário de Andrade no ataque.
“Minha escalação priorizou escritores que são referência no assunto”, justifica Louzada. “Além disso, procurei ser o mais democrático possível. Na antologia, há ‘atletas’ que jogam pelos mais diferentes clubes, como Fluminense, Vasco e Internacional”, exemplifica, referindo-se a Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca e Luís Fernando Veríssimo, respectivamente.
Dos 11 atletas que integram Um Time de Primeira, apenas dois ainda estão “em atividade”: o mineiro Rubem Fonseca e o gaúcho Luís Fernando Veríssimo. Com sete Mundiais no currículo, Veríssimo é um dos recordistas em coberturas de Copa do Mundo. Desde 1986, quando cobriu a do México pela Playboy, não perdeu uma.
De lá para cá, produziu crônicas memoráveis, como “Recapitulando”, que relembra os momentos mais emocionantes de cada uma das sete Copas que cobriu, ao vivo e a cores, pelo mundo afora, e “Prefiro Terremoto”, que fala dos apuros que viveu em Tóquio, no Japão, em 2002, quando o hotel onde estava foi sacudido por um tremor de terra. A propósito, as duas crônicas fazem parte de Um Time de Primeira.
 
GOL DE PLACA
Muito antes de Louzada, Flávio Moreira da Costa já teve seus dias de Luiz Felipe Scolari. Em 1977, ele teve a ideia de lançar uma antologia intitulada 22 Contistas em Campo.
Na ocasião, chegou a convocar alguns autores para escrever sobre futebol. Uns pisaram na bola e declinaram do convite. Outros mataram no peito e fizeram um golaço. A convite de Flávio, Hilda Hilst, Duílio Gomes e Carlos Eduardo Novaes escreveram os contos “Aguenta Coração”, “Lucrécia” e “O Rei da Superstição”.
Com os originais em mãos, Flávio saiu à caça de editora. Em vão. Ouviu de algumas que “livro sobre futebol não vende”. A antiga Editora Francisco Alves topou, mas impôs uma condição: em vez de 22, Flávio teria que convocar “apenas” 11.
E assim foi publicada, em 1986, a primeira edição de Onze em Campo. Doze anos depois, às vésperas do Mundial de 1998, a Relume Dumará lançou Onze em Campo e Um Banco de Primeira, com um total de 16 escritores.
Passados oito anos, uma nova edição: 22 Contistas em Campo, pouco antes da Copa da Alemanha, em 2006, pela Ediouro. “Fiz dois ‘gols de placa’ ao convocar ‘jogadores’ de outros países, como o inglês Patrick Kennedy e o uruguaio Horácio Quiroga”, admite o ‘treinador’. “Se Patrick escreveu o primeiro conto de futebol publicado no mundo, Quiroga escreveu o primeiro conto de futebol publicado na América Latina”, justifica, em alusão a “Os Fantasmas e o Jogo de Futebol” e “Juan Polti, half-back”, respectivamente.
 
Três coletâneas reúnem o que de melhor já foi produzido no conto, na crônica e na poesia nacional sobre uma das maiores paixões do brasileiro
 
ESCRETE FEMININO
Quando se imaginava que todos os grandes nomes da literatura brasileira já tinham entrado em campo, Luiz Ruffato surpreendeu a torcida com o lançamento de Entre as Quatro Linhas.
Em vez de convocar os craques do passado, Ruffato resolveu dar oportunidade a “jogadores” da nova geração, como Fernando Bonassi, Flávio Carneiro e Cristovão Tezza. Como geralmente faz, sempre que é convidado para organizar antologias, procurou convocar autores dos mais diferentes rincões do país.
Seguindo esse critério, temos desde o cearense Ronaldo Correia de Brito até o curitibano Mário Araújo, passando pelo goiano André de Leones. “Sempre que posso, gosto de fugir do eixo Rio-São Paulo e convidar autores de outros estados”, diz. 
Outra obsessão do autor, na hora de organizar uma antologia, é equilibrar o número de homens e mulheres. Dos 15 autores de Entre as Quatro Linhas, seis são do time feminino: Eliane Brum, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro e Carola Saavedra.
“Essa história de que mulher não entende de futebol não passa de mais um preconceito machista. A questão não é entender de futebol,t e sim gostar dele. Futebol é um tema que está impregnado no imaginário brasileiro”, rebate Ruffato, que já teve seus dias de lateral esquerdo em campos de várzea. “Não era o craque do time, mas até que jogava razoavelmente bem”, avalia, modesto.
 
 
 
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