Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 08.05.2013 08.05.2013

Companhias teatrais solo: por que os atores optam por interpretar esses espetáculos?

Por Daniela Guedes
 
As artes cênicas suscitam encontros, confrontos e provocações de estéticas e de ideias, o que estimula o surgimento de novas narrativas e reforça a troca intercultural das companhias de teatro com o público.
Entre tantas técnicas, o espetáculo solo, uma forma cênica representada por um único ator, que em certas ocasiões assume também os papéis de dramaturgo e diretor, nos convida a mergulhar na estética, produção e formação desses espetáculos.
Ainda costuma-se confundir solo com monólogo, que, apesar de serem parecidos, na verdade são dois formatos diferentes. Mesmo assim, esse fato não é suficiente para que, em certas ocasiões, ambos os termos sejam usados como se fossem uma coisa só.
Alguns grupos de teatro aqui no Brasil buscam, através de caminhos estéticos e formas de produção diferenciados, elevar o solo ao patamar de produção específica, em nada inferior ou de forma alguma situada em um território menor do teatro.
“A partir do ano 2000, foi iniciada uma produção teatral artesanal solo, da qual sou o encenador, o ator-performer e o produtor das resultantes cênicas, responsabilizando-me pelos âmbitos técnicos, artísticos e burocráticos desse fazer”, diz Fabio Vidal, ator e diretor do grupo baiano Território Sirius Teatro.
 
O ator Fabio Vidal, da Território Sirius, no espetáculo Eterno Retorno – ERê
Devido às mais diversas causas, os atores tomam a decisão de trabalhar sozinhos e em solos. Elas vão desde uma crise grupal até necessidades de ordens econômica e técnica.
“Na verdade não é uma preferência, é mais uma consequência. Entre elas o fato de que foi com um ‘quase’ solo, ‘Pois é, Vizinha…’, que comecei efetivamente a me sustentar com teatro”, confirma Deborah Finocchiaro, atriz, diretora e roteirista da Companhia de Solos & Bem Acompanhados, do Rio Grande do Sul.
Opinião compartilhada também pelo ator e diretor Max Reinert, da Téspis Cia. De Teatro, de Santa Catarina, que em determinado momento da trajetória do grupo decidiu trabalhar com a atriz Denise da Luz para que pudessem desenvolver alguns aspectos técnicos e aprofundar uma pesquisa de linguagem através de intercâmbios com a Periplo Compañia Teatral, de Buenos Aires.
PESQUISA E METODOLOGIA
O espetáculo solo traz em si a característica de também ser contraditório – basta pensar que o solo é interpretado por apenas um ator. Mas muitas vezes, nessa interpretação, podemos notar vários personagens.
Cada grupo tem sua metodologia, uma maneira própria de formatar um espetáculo. O certo é que, da concepção à estreia, basicamente entram, segundo Fabio Vidal, desejos, vontades e necessidades do atuante.
“O processo criativo para desenvolvimento de nossas encenações percorre, de um modo abrangente, três etapas: o estudo temático, a criação e maturação criativa e a efetivação cênica”, explica Fabio.
 
                                                                               Crédito/Fabiano Riffatti
Deborah Finocchiaro, em solo Pois é, Vizinha.. da Cia Solos & Bem Acompanhados
Para o ator Max Reinert, da Téspis, cada espetáculo da Cia. tem uma história diferente. Mas a real busca é por uma dramaturgia autoral, baseada em uma pesquisa sobre teatro contemporâneo.
“A matéria prima varia de clássicos (Medeia), passando por dramaturgos contemporâneos (A Ingênua), utilizando-se de materiais literários (Lili Reinventa Quintana), até chegar às composições próprias (Pequeno Inventário de Impropriedades)”, cita Max.
Deborah Finocchiaro não aponta uma fórmula definida. Para ela, toda a concepção, o fazer, depende do projeto. “Pra mim, durante o processo criativo, cada espetáculo requer uma busca distinta, e ele próprio vai apontando seus caminhos, necessidades e metodologia”, diz.
E continua: “Posso citar o caso de Sobre Anjos & Grilos – O Universo de Mario Quintana. Ele foi ganhando forma a partir da escolha dos textos de Mario Quintana, como se cada um daqueles textos e poemas pedisse uma imagem, um jeito de serem ditos”.
Em comum, a construção de uma encenação que tem o ator como eixo central de sua criação, sem abrir mão de outros artifícios (cenografia, iluminação, trilha sonora), mas buscando uma linguagem minimalista.
“O ator é o construtor de mundos. Um artista que escolhe quais as motivações e os temas que vai trabalhar e busca consolidar um trabalho em que a visceralidade é uma das marcas principais como ferramenta de trabalho, a construção do espetáculo através da improvisação”, completa Max.
EXPERIÊNCIAS
O solo deve ser entendido como um “diálogo” do intérprete com o público. Uma experiência que exerce grande fascínio tanto sobre a plateia quanto sobre os próprios atores.
“Algumas apresentações marcam pela força com que o Teatro se impõe sobre situações adversas. Medeia foi apresentado em Araçuaí para uma plateia de 400 pessoas, entre adultos e crianças. Um espetáculo que encontrou naquela cidade uma aridez climática, mas uma relação afetuosa e catártica com os espectadores”, relembra Max Reinert.
“Só o teatro pode nos dar a sensação de tocar algumas pessoas durante uma apresentação de maneira tão profunda. E a sensação de ‘empoderamento’ que o ator tem ao realizar isso num espetáculo solo é algo indescritível”, finaliza.
 
 
 
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