Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 11.02.2011 11.02.2011

Como um ator frustrado salvou a monarquia inglesa

Por Bruno Duarte
Fotos de divulgação

Estreia nesta sexta-feira O discurso do rei, filme que resgata o momento de inesperada ascensão de Bertie, então Duque de York, ao panteão das majestades inglesas como rei George VI. O longa lidera as indicações ao Oscar deste ano, concorrendo em 12 categorias, entre elas melhor filme, melhor direção para Tom Hooper, além de ser o favorito na categoria melhor ator, pelo desempenho de Colin Firth no papel de pai da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II.

São fatos, e contra estes não há argumentos. Bertie, interpretado por um Firth que transita sabiamente da resignação de um menino oprimido aos ímpetos da segurança exigida ao monarca, nunca quis ser rei e nunca nutriu sentimentos odiosos a seu irmão mais velho, Eduardo VIII. O respeito e a admiração que o caçula Bertie tem pelo irmão caem por terra quando, após a morte de seu pai, o rei George V, o primogênito assume o trono e afronta a tradição monarca ao seguir com a ideia de casar com Wallis Simpson, uma socialite norte-americana que já havia se divorciado duas vezes – padrões inaceitáveis no tradicionalismo real. Além do casamento rechaçado pela família e alardeado na imprensa, uma série de descuidos com os compromissos públicos levaram a abdicação de Eduardo VIII em 1936. 

Por ironia do destino (ou seria do direito divino?), Bertie, o filho caçula gago, oprimido desde a infância, é o seguinte na linha de sucessão real. Com a ajuda de sua mulher, Elizabeth, interpretada por Helena Bornham Carter, o futuro rei já havia passado por diversos tratamentos em busca da cura de sua gagueira, o que o impedia de fazer os pronunciamentos necessários à vida pública de um nobre. É neste momento de transições que entra em cena o excêntrico terapeuta australiano Lionel Logue, vivido por Geoffrey Rush, que completa o trio de atuações impecáveis do filme.

O momento exigecautela, as forças nazistas avançam na Europa e o enfrentamento bélico torna-seiminente. Um rei não governa no sistema de monarquia parlamentar, ele é umícone de soberania do Estado, seu trabalho é mantê-lo coeso. Em sua condição,Bertie não se vê capaz de transmitir confiança aos súditos através dosdiscursos oficiais que se tornam cada vez mais frequentes com a expansão dorádio. A chave para a cura de sua gagueira não está em uma questão fisiológica,mas nos traumas de infância do menino reprimido.

Só no encontro entre ocolono e realeza que Bertie pode superar seus recalques. Os métodos que LionelLogue utiliza com o futuro rei são técnicas teatrais, que trazem à tona ahistória do ator apaixonado por Shakespeare que, sem obter sucesso nos palcos,utiliza exercícios do teatro para tratar problemas de fala de crianças esoldados com trauma de guerra. Apesar do incômodo inicial do duque, é oprincípio de igualdade estabelecido pelo terapeuta com seus pacientes, semexceção, que liberta Bertie das amarras de anos de opressão. É no consultóriodo filho de um cervejeiro que o príncipe pode começar seu discurso, semaguardar piadas ou represálias quanto a seu modo de falar. A todo o momento ofilme dá mostras da dessacralização dos monarcas, que rondam o imaginário dopersonagem de Firth, figura na qual se transformará em questão de tempo. Em umacena, Logue chega a sentar na cadeira de Saint Edward, onde se sentam os reisno momento de sua coroação, na Abadia de Westminster. Geoffrey Rush coloca orei no seu lugar.

 
Fugindo das tintas de um drama psicológico e optando por uma estrutura narrativa clássica, O discurso do rei se preocupa mais em retratar um período importante da história britânica, o que faz brilhantemente, mas não deixa de apontar as restrições sofridas pelo jovem Bertie como motivações de seus bloqueios emocionais, problemas de autoestima e as dificuldades na fala. O ponto alto do filme, que também faz de George VI e sua esposa, a rainha mãe, um dos casais de monarcas mais admirados na história inglesa, é aproximação da alta realeza com seus súditos. Bertie/George VI manteve a amizade com Lionel Logue até o final de seu reinado, quando da sua morte em 06 de fevereiro de 1952. 

Colin Firth recebeu o Globo de Ouro melhor ator de drama pela atuação. No próximo dia 27, quando acontece a 83ª cerimônia de entrega do Oscar, apesar de concorrer em maior número de categorias, O discurso do rei enfrenta candidatos de peso, como Bravura indômita, Cisne negro e A rede social. O longa também lidera o número de indicações ao Bafta, concorrendo em 14 categorias do prêmio da Associação Britânica de Cinema, com cerimônia marcada para o domingo, 13.

> Assista ao trailer de O discurso de rei

Recomendamos para você