Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.05.2010 29.05.2010

Começou o terceiro Festival da Mantiqueira

Por Bruno Dorigatti, de São Francisco Xavier
Foto de Cintia Sanchez

Começou com sol e temperatura agradável a primeira mesa do terceiro Festival da Mantiqueira. Na tenda montada na praça do pequeno distrito de São Francisco Xavier, próximo a São José dos Campos, os vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura 2009 conversaram sobre seus livros, o processo criativo e contaram histórias sobre a aproximação com o universo da leitura.  

O cearense Ronaldo Correia de Brito, vencedor de melhor livro do ano com Galiléia (Alfaguara/Objetiva) [Leia um trecho] e o gaúcho Altair Martins, melhor estréia de 2009 com A parede no escuro (Record) [Leia um trecho] conversaram com o poeta, músico e artista multimídia Arnaldo Antunes, que se apresenta com sua banda hoje à noite. Arnaldo comentou o primeiro romance de ambos: “”Ronaldo tem uma prosa cortante, seca, assim como o sertão que retrata. Já Altair escreve com uma avalanche de minúcias e detalhes””.

Ronaldo falou que busca, através de seus contos e romances, “”criar uma epifania, uma celebração do feminino””. Para ele, a memória foi e é algo fundamental para a sua escrita. “”Falo da memória histórica em uma família imensa, onde todos eram narradores, contadores de história. Logo descobri que iria ser um. E era uma memória respeitada, fiel historicamente e não inventada.”” Uma destas histórias mais contadas era sobre a morte do avô materno, aos 43 anos, deixando sua avó viúva aos 32, com nove filhos para criar. “”Ela me contava todos os dias a história da morte do meu avô, quando não três vezes no mesmo dia. Escrevi um conto a partir dela e a família inteira ficou revoltada, falando que era tudo mentira e eu, um mentiroso. Como todo narrador deve ser, aliás. Contei a história como a escutei, como desejava escutar. O escritor ouve e inventa, escreve como ele sente e deseja””, explica.

No conto “”Da morte de Francisco Vieira””, que saiu em O livro dos homens (Cosac Naify) ele ficcionaliza a experiência pessoal e amplifica o tempo entre o encontro da avó com o avô ainda vivo, quando ela retarda a consciência da morte, ao censurar a roupa desalinhada, o bigode com farelo de bolo, as pedras brancas na beira do rio cobertas de lama. “”Só depois disso ela tem a consciência de que ele morreu. O narrador precisa dessa capacidade de transformar. Escrever é trabalhar com uma memória inventada, jamais com a história””, falou Ronaldo, que também é médico há 35 anos e vê pessoas morrendo quase todos os dias. “”Conheço o estupor das pessoas quando se defrontam com ela, a negativa inicial de todos.””

Já Altair disse que precisa encontrar o narrador para só então escrever. “”Em A parede no escuro (Record), são 14 narradores. Tive que encontrar a sintaxe de cada um, fazer uma amálgama de elementos coletados. Sou um catador de sucatas, sempre em busca de cenas, situações, de ouvido atento. Escrevo diarimente à mão, estou sempre relendo e anotando nas brechas do tempo. E dedico a sexta-feira para organizar a escrita. Isso graças ao Prêmio São Paulo, antes dedicava os finais de semana””, diz ele que é professor de literatura e redação em Porto Alegre.

Em seu novo romance, em produção, ele trata da inveja que os prosadores têm dos poetas e músicos. Para isso, inventa um poeta nicaraguense, Javier Lorena, e sua poesia, invejada pelo narrador brasileiro, que traduz seus poemas e deseja ser Javier. “”Tem uma figura de linguagem antiga, a hipálage, que diz muito sobre o nosso caráter de traduzir, de usar o atalho. O Brasil tem o povo do atalho, que pode virar desfaçatez, mentira, um recurso de máscara na nossa linguagem. Quando o narrador deseja ser o poeta, ele busca essa transferência, essa apropriação e expropriação também. Ele ainda isola-se em Porto Alegre no verão, em um apartamento pequeno e funda um país próprio ali, que reflete o Brasil de hoje, esse isolamento que vivemos cada vez mais””, acrescenta Altair.

Sobre o contato com o universo da leitura, Ronaldo relembra o quanto o livro era sagrado na família, e as bibliotecas faziam parte dos inventários. Ele teve acesso aos clássicos mundiais e brasileiros desde cedo, mas os livros conviviam com as traças e cupins. “”Faltava trechos, páginas. Li toda a biblioteca comida por traças e cupins, o que deixou um buraco na minha formação. Sou narrador por essa necessidade de preencher esses furos, essa falta””, contou arrancando risadas do público. O caso de Altair é um pouco diverso. Criado sem livros em casa, tornou-se leitor a partir do colégio. A formação foi toda pública, depois na faculdade, no mestrado, nas bibliotecas. “”Fui entortado pela educação, mas tenho que agradecer a oportunidade que tive””. 

Ronaldo fechou a mesa falando da importância do feminino, muito presente em sua prosa, e de como este poder que sempre existiu, ainda que sutil e silenciosamente, nas sombras e brechas de nosso mundo patriarcal, se impõe diante da dificuldade do homem de se relacionar com ele. “”Na literatura, você percebe a força e a dicotomia dessa separação. E sou talvez mais um escritor que tenta falar de ambos os universos””, completou Ronaldo, que prepara novo livro de contos, Retratos imorais, para agosto. Por fim, indagado pelo público, falou do seu interesse e da importância da oralidade em um país como o Brasil, formado por povos tradicionalmente orais, como o africano e o indígena, sem falar no português, de forte influência arábica. “”É preciso valorizar o saber que está na forma de falar, acabar com o impasse entre a tradição escrita, dita culta, e a tradição oral, dita popular. Investigo para solucionar este impasse, ou este meu impasse””, conclui.

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