Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 22.09.2011 22.09.2011

Com Letieres na garupa, ‘Cavaleiro Selvagem’ de Mariana Aydar sai na dianteira

Por Mauro Ferreira, do blog Notas Musicais
 
Resenha de CD
Título: Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo
Artista: Mariana Aydar
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * * *
Com seu segundo álbum, Peixes Pássaros Pessoas (2009), Mariana Aydar deu passo largo em direção à consolidação de universo particular e autoral, se distanciando de quaisquer possíveis comparações com o mundo musical de Roberta Sá, suscitadas por seu primeiro álbum, Kavita 1(2006). Peixes Pássaros Pessoas sinalizou evolução em discografia que atinge outro ponto culminante com Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo, terceiro álbum de Aydar, lançado pela Universal Music nesta terça-feira, 20 de setembro de 2011. Conduzida pelo maestro Letieres Leite, produtor do disco ao lado de Duani Martins, a cantora e compositora paulista chega na dianteira com este disco arejado, repleto de afrobeats e ousadias estilísticas. A despeito do grande número de regravações do repertório (sete músicas em 13 faixas), Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo soa sempre novo, embolando ritmos, modernidades e tradições. É um disco de espírito livre, aberto com tema instrumental, A Saga do Cavaleiro (Guilherme Held, Gustavo Di Dalva, Letieres Leite, Duani Martins e Kavita), que já sinaliza o frescor que envolve o cancioneiro recolhido por Aydar em suas vivências musicais e afetivas. Aydar não é daquelas cantoras que se impõem pela voz especialmente potente ou pela carga dramática de seu canto. O que importa no seu caso – e o que faz de Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo um grandioso disco – é o tratamento dado ao repertório. "I'm alive", repete cheia de vida a intérprete emNine Out of Ten (Caetano Veloso), pioneiro reggae brasileiro de 1972, aqui jogado em outra praia. Mestre na arquitetura de grooves afrojazzísticos, motes de sua retumbante orquestra baiana Rumpilezz, Letieres é o provável mentor dos afrobeats que cruzam mares até aportar no sertão nordestino, destino original do Galope Rasante (Zé Ramalho), luminosa releitura que reitera a capacidade do disco de renovar o velho. O canto do cantor e compositor baiano Tiganá Santana – convidado e parceiro (de Guilherme Held e Kavita) em Floresta – também se conecta à Mãe África, mas em tom mais ancestral. Floresta, aliás, é exemplo do tom meio vanguardista de um disco que veio para confundir, não para explicar, como atesta a Vinheta de Alegria (Kavita), que fecha o álbum com falso final e experimentações que, a rigor, expandem a atmosfera de liberdade já desenvolvida, por exemplo, no tom afrosamba-jazzístico impresso em Não Foi em Vão (Thalma de Freitas) – tema do repertório da carioca Orquestra Imperial – e na releitura de Os Passionais (Dante Ozzetti e Luiz Tatit), tema que Ná Ozzetti gravou emUltrapássaro (2001), obscuro álbum de Dante. A música emerge com outra vida e outra pulsação. Assim como o som de Aydar, que se distancia do samba em Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo, a ponto de tirar Vai Vadiar (Alcino Corrêa e Monarco) – samba que Zeca Pagodinho lançou em 1998 e que a própria Aydar já havia regravado (ao vivo) para DVD inserido na edição especial de Peixes Pássaros Pessoas – de seu costumeiro quintal em registro que valoriza a melodia e os versos contundentes do tema. Faixa que inclui no refrão o título do disco,Cavaleiro Selvagem – parceria de Aydar com o cultuado rapper paulista Emicida – jorra imagens que ilustram o galope nada rasante de um álbum que alcança pico emocional com o belíssimo e climático pseudofado Porto (Romulo Fróes e Nuno Ramos) – grande sobra do repertório dePeixes Pássaros Pessoas – e que consegue irmanar dentro de sua atmosfera indiecontemporânea a leveza atemporal de Preciso do teu Sorriso (João Silva e Enok Virgulino), xote romântico do repertório do Trio Virgulino que Aydar revive com convencionalidade alienígena em gravação valorizada pela sanfona de Dominguinhos. Fora dessa bissexta zona de conforto, a cantora se joga como uma Leoa do Norte dentro da floresta rítmica nordestina para injetar a pulsação do carimbó e do brega paraense em O Homem da Perna de Pau (Chico Xavier e Edson Duarte), forró que alavancou a carreira do alagoano Edson Duarte nos anos 80 (a gravação original é de 1980). Enfim, com um disco surpreendente em que bons temas autorais comoSolitude (Kavita, Luisa Maita e Jwala) até perdem força no confronto com releituras tão vigorosas, Aydar cruza a dianteira cheia de fôlego trazendo na garupa o genial  Letieres Leite. Pode seguir Aydar e o Cavaleiro Selvagem!
 
Recomendamos para você