Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 08.01.2013 08.01.2013

Com humor e sem juízo: Danuza Leão lança livro de crônicas

Por Maria Fernanda Moraes
 
Quando precisou escolher alguém para organizar seu mais recente livro, Danuza Leão não titubeou. Já tinha um nome na cabeça: sua grande amiga e jornalista Sonia Biondo. As duas se conheceram na redação do Jornal do Brasil, em 1995, época em que trabalharam juntas.
 
Do trabalho para a vida pessoal, a amizade se manteve durante todos esses anos. E era de uma pessoa assim que Danuza precisava para esse trabalho. “A Sonia me conhece muito bem, e achei que seria a pessoa ideal para fazer a seleção das crônicas, afinal, temos essa intimidade natural”, disse a escritora em entrevista ao SaraivaConteúdo.
 
O livro que acaba de ser lançado, Danuza & Sua Visão de Mundo Sem Juízo (Editora Agir), revela um ardiloso garimpo feito por Sonia, que resultou numa reunião de crônicas sobre temas como memória, amores e desamores, mulheres, família. “Ela vem escrevendo essas crônicas desde os anos 90, então são mais de 20 anos de trabalho. Foi muito difícil eliminar alguns textos, mas era impossível colocar tudo no livro. Ela tem uma temática muito dela, fala de relacionamentos, basicamente de homem e mulher, muita reflexão feminina sobre a vida”, revelou a organizadora.
 
Sonia contou que já lia as obras da amiga famosa antes de conhecê-la pessoalmente. “Quando passamos a trabalhar juntas, aprendi a admirar a Danuza como jornalista. Ela sempre foi uma profissional exemplar, uma pessoa antenada, preocupada, com senso ético e com um comprometimento que hoje em dia é difícil de se ver. Aprendi a admirar essa pessoa que, além de tudo isso, tem um ótimo texto. É incrível, porque ela escreve como fala, de uma forma muito gostosa de se ler. A Danuza veio para me ensinar ‘essas armas de texto’, foi muito bacana!”.
 
HUMOR APURADO
Danuza revelou que foi ela mesma quem escolheu o título do novo trabalho. Por que um olhar “sem juízo”? Ela explica:“Porque foge da resposta fácil, do lugar comum. Não por falta de compromisso ético, mas porque o certo é ponderarmos sempre sobre toda e qualquer situação, buscando a empatia. Essa ponderação e análise podem vir com indignação, claro! Aliás, entender e aceitar não são sinônimos”.
 
Para a organizadora, esse livro é, antes de tudo, um show de repertório. “Imaginar a cronista Danuza é fácil”, diz a amiga. “Vejo uma mulher em sua casa, vestida de modo descontraído e charmoso, um minicomputador no colo, uma cama ou sofá aconchegante. De companhia, os gatos, um suco, um punhado de frutas secas, TV ligada e os jornais do dia espalhados ali por perto. À sua volta, um estilo de vida que é uma assinatura de bom gosto e inteligência, cheinho de ótimas ideias pra se copiar.O que é difícil de imaginar é o tamanho do acervo dessa cronista para alimentar, de forma tão variada e bem-sucedida, a coleção de textos que escreve para jornal, revistas e livros”.
 
Sonia também alerta que, além da sabedoria acumulada com muita experiência de vida, o diferencial dos textos de Danuza é o senso de humor. “Quem levar a autora ao pé da letra em muitas dessas dezenas de crônicas pode perder o ritmo da leitura leve e fácil, do melhor tipo de entretenimento”, adverte. “Me lembro de ter dado boas risadas durante a organização das crônicas, porque são opiniões muito pessoais, muito engraçadas, algumas politicamente incorretas. Por isso eu me diverti muito lendo”.
 
Capa do livro Danuza & Sua Visão de Mundo Sem Juízo 
 
Mas ela admite que, hoje em dia, a crítica em geral é mais atenta, mais aguda. “A lição disso tudo é não levar muito a sério. Tenho certeza que a Danuza está à frente disso e que ela é a primeira a ter autocrítica. Ela é uma pessoa que tem grande experiência de vida, já viveu várias fases na sua vida. Ela tem um alcance de público muito amplo, pode tanto escrever uma carta à Presidente da República quanto fazer um comentário cotidiano”.
 
Danuza por Sonia em uma palavra? “Justa. É o melhor adjetivo que a define”.
 
UM POUCO DE FALTA DE JUÍZO
Depois de conversar com Sonia, o SaraivaConteúdo também foi ouvir o outro lado dessa parceria. Acompanhe os detalhes do bate-papo com Danuza:
 
O seu novo livro, organizado pela Sonia Biondo, é uma reunião de crônicas num formato um pouco diferente dos anteriores. Como surgiu essa ideia?
Danuza. Na verdade, eu estava ainda curtindo o livro anterior [É Tudo Tão Simples, publicado em 2011] quando alguém da editora me perguntou ‘E aí, Danuza, qual vai ser o próximo?’. E eu pensei ‘Quer saber de uma coisa? Vamos fazer um de crônicas?’Me dei conta que tinha muito material guardado e que ainda não havia publicado nada assim. Gostaram da ideia e deu tudo certo.
 
A capa do livro foi projetada pela sua filha, Pinky Wainer, com quem você já trabalhou em outros livros. Vocês costumam compartilhar projetos?
Danuza. Sempre, sempre. A foto em preto e branco da capa é dela. Quando ela veio fazer minhas fotos, tive um momento de distração… Fui pegar um chocolate que estava na mesa. E ela aproveitou a espontaneidade e me flagrou com o chocolate na boca. A mão está escondendo isso. Ela tem muito bom gosto em artes plásticas. Como ela também conhece muito bem como eu sou, é muito mais fácil chegarmos a um acordo. Com ela é muito simples.
 
É Tudo Tão Simples [a obra anterior] ficou semanas na lista dos livros mais vendidos. Você acha que isso pode ser um reflexo de que as pessoas têm dificuldades de se voltar para a simplicidade?
Danuza. Olha, eu não fiz grandes avaliações, não [risos]. Pra mim, é realmente tudo tão simples! [risos] Acho que uma pessoa comprou, gostou, foi indicando para outra… e assim aconteceu. Mas antes eu não tinha essa concepção de que podemos viver melhor com simplicidade. A ideia desse livro surgiu quando eu estava fazendo uma mudança de casa e tive que me desfazer de muitas coisas porque não cabiam no outro apartamento, que era menor. Foi um momento de desapego.
 
Em Quase Tudo, há um trecho em que você diz: "Se não tive infância, tampouco tive adolescência. Nunca tive amigas da minha idade nem namorinhos juvenis (…) Aos quinze anos eu ia todo dia à casa de Di Cavalcanti". Hoje, nessa fase atual da sua vida, você também acha que vive uma experiência diferente?
Danuza. Hoje é diferente porque eu não vou à casa de ninguém. Todas as casas que eu tinha que ir, eu já fui. Eu vivo uma vida muito minha, só. Eu não vou a festas, a jantares, eu não gosto de muita gente. Gosto de viver com poucos amigos – e de preferência, um de cada vez, não gosto de muita gente, não. E isso veio com a idade. Antes eu saía toda noite, mas a gente cansa desse ritmo. E eu cansei.
 
Recentemente, houve uma polêmica com alguns textos da sua coluna publicada na Folha de S.Paulo. Você acompanha essas repercussões?
Danuza. Não acompanho, não. Não tenho Twitter, Facebook, nenhum perfil em rede social. O que aconteceu naquela ocasião foi que a Folha me pediu para escrever algo sobre a polêmica que se criou. Reli o que havia escrito na crônica em questão e refleti sobre o que queria verdadeiramente dizer. Usei um exemplo infeliz.
 
O SaraivaConteúdo foi atrás de leitores para saber o que os encantava nos seus livros. Curiosamente, um dos leitores recomendava seus livros para pessoas que vivem sozinhas. Você acha que as pessoas também se identificam com essa sua faceta?
Danuza. Por mais que eu não fale da minha vida nas crônicas, acho que isso aparece naturalmente, e as pessoas percebem. Eu não poderia escrever uma crônica falando que estou rodeada de netos e filhos se eu vivo só. Não seria verdade, e acho que é com essa verdade que as pessoas se identificam.
 
Seus livros falam sobre comportamento, relacionamentos, dão dicas de estilo. Os leitores passam a te enxergar como uma consultora? Já passou por alguma situação assim?
Danuza. Acontece, acontece sim. Recebo muito esse retorno por e-mail, por exemplo. Já aconteceu de me pedirem uma opinião sobre roupas, ou um vestido ideal para ir a uma festa, até mesmo um conselho sentimental. Às vezes não me pedem nem conselho, mas querem apenas contar a sua história.
 
Você chegou a reler suas crônicas depois de o livro ser publicado? Tem alguma preferida?
Danuza. Li algumas por acaso, durante uma folheada no livro, mas não sentei para lê-lo todo. Não tenho uma preferida, porque acho que as pessoas mudam no decorrer da vida: nosso rosto, nossos desejos, nossa maneira de pensar, de ser. E quando escrevi aquelas crônicas, estava em momentos diferentes da minha vida. E é por isso que a vida vale tanto a pena.
 
 
 
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