Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 13.02.2012 13.02.2012

Com estilo peculiar, Tim Burton deixa sua marca no cinema mundial

 
Por Luma Pereira
Na foto ao lado, o cineasta Tim Burton
 
“Beetlejuice, Beetlejuice, Beetlejuice”. Basta pronunciar essa palavra três vezes para que apareça Michael Keaton, ou melhor, o “Besouro Suco”, no filme Os Fantasmas se Divertem, dirigido por Tim Burton, em 1988.
 
Quem já viu um homem com tesouras no lugar das mãos? Certamente todos se lembram de Edward Mãos de Tesoura, de 1990.
 
Esse foi o primeiro de muitos filmes de Burton protagonizados por Johnny Depp – o início da parceria de ambos.
 
 
 
 
 
“O que justifica a parceria está no que o cineasta diz a respeito de uma qualidade que certos atores possuem: o de expressar, no olhar, uma perturbação, uma tristeza, algo que não é transmitido em gestos e palavras”, afirma Márcio Henrique Muraca, mestre em Teoria Literária que publicou um artigo sobre Burton na revista Semioses, da Unisuam.
 
Os Fantasmas se Divertem
 
Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas, de 2003, é outro filme memorável do cineasta. E até mesmo a Alice de Lewis Carroll foi parar no cinema pelas mãos desse diretor nascido nos Estados Unidos, em 25 de agosto de 1958.
 

Mas o que todos esses filmes têm em comum, além do fato de terem sido dirigidos por Burton?

“Atmosfera surreal, onírica, gótica, sombria, fascinação pelo macabro, mas tudo isso numa abordagem sensível e cheia de humor. O estilo de Tim Burton já até virou adjetivo e é conhecido por ‘burtonesco’”, define Muraca.
 
Edward Mãos de Tesoura
 
Para a crítica de cinema Amanda Aouad, a principal temática dos filmes é o estranho. “Sempre temos um ser estranho, que se sente deslocado do mundo onde vive e busca ser aceito de alguma forma”, afirma.
 
“É bacana assistir a filmes de diretores que têm uma assinatura, você vê e sabe que é daquele diretor. Com o Burton é assim, esse estilo sombrio é sua marca registrada”, diz Cassius Medauar, tradutor de O Estranho Mundo de Tim Burton, de Paul A. Woods (Leya, 2011).
 
Os filmes do cineasta são tanto criações dele mesmo – O Estranho Mundo de Jack (1993) –, como também histórias que ele é convidado a dirigir – Alice no País das Maravilhas (2011). Geralmente, têm uma explosão de cores e um impacto visual impressionante.
 
Alice no País das Maravilhas
 
“Mas é justamente essa concepção cromática carregada, com tons em lilás, laranja e vermelho, que trazem, nesse caso, uma atmosfera sombria. Acho que é porque retoma aquele visual do Halloween”, comenta Muraca.
 
O humor é aquele do tipo macabro do dia das bruxas, com os esqueletos, vampiros canastrões e crianças fantasiadas. Para o articulista, Burton inverte o conto de fadas: “as princesas são um tédio e os monstros são sensíveis, incompreendidos e têm humor”.
 
Em A Noiva Cadáver (2005), por exemplo, o mundo dos vivos é frio, e o dos mortos é uma grande festa, apesar de ser macabro, ao mesmo tempo.
 
O Estranho Mundo de Jack
 
“É o confronto entre o mundo considerado normal e perfeito e o mundo contrário, o dos introspectivos, soturnos, dos que apreciam a escuridão no sentido poético”, acredita Muraca.
 
“Adoro a forma como ele constrói seus mundos, suas viagens através das sombras, sua forma de nos conduzir na história sempre com um tom sobrenatural e ao mesmo tempo delicado de demonstrar as emoções dos personagens”, afirma Amanda.
 
Uma das principais influências de Tim Burton é o expressionismo alemão, com suas formas angulares, perspectivas distorcidas e fortes contrastes entre claro e escuro.
 
“É possível ver semelhanças em cenas de filmes como Nosferatu, de 1922, com cenas de seu curta de estreia, Vincent”, garante Muraca.
 
E completa: “os personagens também têm um estilo ‘burtonesco’: geralmente são esquálidos e têm membros alongados, bem ao gosto de ilustrações góticas do passado, têm olhos arregalados e rosto fino, olheiras, cabelos desalinhados e são pálidos”.
 
Outras facetas
 
Tim Burton não é apenas cineasta, mas também ilustrador. Antes de se tornar diretor, trabalhou como desenhista da Disney, onde teve problemas por não seguir o estilo clássico da empresa.
 
“Mas foi a própria Disney que lhe deu a primeira oportunidade no cinema: ele produziu Vincent (1982), um divertido curta em stop-motion de seis minutos, sobre um garoto perturbado e obcecado por Edgar Allan Poe e Vincent Price”, comenta Muraca.
 
E completa: “é possível ver naqueles minutos o estilo de Burton já bastante delineado. As ilustrações dele vão em direção ao surrealismo pop. Muitos grafites que vemos hoje nos muros da cidade lembram essa concepção visual”, diz.
 
O surrealismo pop é um tipo de arte que une o surreal de Salvador Dali ao pop de Andy Warhol numa mesma obra de arte. Há tanto elementos que acusam o tempo presente, quanto imagens de sonho.
 
E suas influências foram longe: “percebo em alguns comerciais de TV e em grafites a influência de traços ‘burtonescos’. Em animações estrangeiras e ilustrações também já observei isso”, afirma Muraca.
 
A animação norte-americana Coraline, do diretor e roteirista Henry Selick, por exemplo, tem grande influência de Burton.
 
Além das telonas
 
O estilo ‘burtonesco’ vem da infância do cineasta. “Ele admite que era introspectivo, vivia desenhando e adorava filmes de monstros e de terror, aqueles de ataque de marcianos com efeitos hilários, retomados no seu divertidíssimo Marte Ataca”, comenta o articulista.
 
Era fã de filmes de terror de baixo orçamento, os chamados filmes B, e seu ídolo é o ator Vincent Price, que fez participações em seus filmes, inclusive na animação Vincent, como narrador.
 
“É esse sujeito que prefere as sombras à claridade, esse sujeito gótico, que é capaz de criar personagens como Edward Mãos de Tesoura e o esqueleto Jack, por exemplo”, afirma Muraca.
 
Atualmente, o cineasta mora em Londres, cidade escura, certamente mais sombria do que a ensolarada Califórnia, onde passou a infância e a adolescência. “O próprio Tim Burton diz que a essência da vida para ele é tristeza, humor e um pouquinho de terror”, conta o articulista.
 
Para ele, não há como negar o impacto cultural dos filmes do diretor, nem seu talento como cineasta e como desenhista.
 
“Acho que Tim Burton é essencial para o cinema das últimas décadas. Acredito que ele mostrou que era possível fazer algo diferente e ter sucesso”, acredita Medauar.
 
E completa: “é impossível falarmos da história recente do cinema e não citarmos ele, gostando ou não de seus trabalhos”.
 
“É um dos ícones de sua geração, traz algo de novo, autoral, ao mesmo tempo em que resgata valores estéticos, sempre com grande criatividade”, comenta Amanda.
 
Dizem que ele sempre sai com um bloco de papel no bolso e fica desenhando em cafés de Londres. Quem sabe numa esquina qualquer, numa visita à cidade, não dê para esbarrar nesse mestre contemporâneo dos filmes sombrios?
 
O que há de novo, Tim Burton?
 
Há rumores de que, em breve, Tim Burton dirigirá Pinóquio, baseado na obra de Carlo Collodi. A história original é mais pesada do que a do filme da Disney (1940), há violência e desespero. A produção ficará a cargo de Dan Jinks.
 
“Esse elemento perturbador certamente será explorado por ele, assim como fez em A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005), com um Willy Wonka sádico e preso no passado”, diz Muraca.
 
A Fantástica Fábrica de Chocolate
 
No dia 11 de maio de 2012, estreia nos cinemas Dark Shadows, mais um filme dirigido pelo cineasta, que conta a história do vampiro Barnabas Collins, interpretado por Johnny Depp. Além dele, fazem parte do elenco Eva Green e Michelle Pfeiffer.
 
Dark Shadows
 
O elenco principal de Dark Shadows
 
Para este ano, está prevista, ainda, a estreia do remake de Frankenweenie (1984). Na história, Viktor Frankenstein tenta trazer o cão Sparkey de volta à vida. O filme é considerado uma paródia da obra de Mary Shelley. Será feito em stop-motion e 3D.
 
 
 
 
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