Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 19.08.2011 19.08.2011

Com capa dura e papel couché, HQs de luxo conquistam uma legião de exigentes colecionadores

Por André Bernardo
Na foto ao lado foto da série Sadman, de Nail Gaiman
 

Foi-se o tempo em que gibi era coisa de criança. Hoje em dia, colecionar quadrinhos virou brincadeira de gente grande. Como o jornalista Sidney Gusman, 44 anos. Considerado um dos maiores colecionadores do Brasil, ele já perdeu as contas de quantas revistas em quadrinhos tem em sua coleção. Da última vez em que parou para contar, há cerca de 10 anos, chegou à impressionante marca de 35 mil exemplares. De lá para cá, acredita já ter ultrapassado a casa dos 50 mil. Deste total, calcula Gusman, 10% são HQs de luxo, daquelas de capa dura, papel couché e tiragem limitada. “Por falta de espaço, tive que me desfazer de muita coisa. Mas, dos quadrinhos de luxo, eu não me desfaço jamais. Alguns deles são verdadeiros objetos de desejo para colecionadores”, provoca Gusman, que devota especial atenção à série Sandman, de Neil Gaiman.

Editor-chefe do site Universo HQ, Sidney não está só. Ele faz parte de um seletíssimo grupo: o de colecionadores de HQs de luxo. Em sua maioria, esse público é formado por homens, com idade entre 18 e 40 anos e que pertence às classes A e B. “Já paguei acima de R$ 100 por mais de uma HQ. Mas, proporcionalmente, não acho um valor exorbitante. Essas publicações têm capa dura, formato grande, papel especial, são inteiramente coloridas e, muitas vezes, têm 300 páginas ou mais. Não raro, encontramos livros no valor de R$ 60, que são em P&B, formato pequeno, capa cartonada e papel mediano”, compara o escritor Alexandre Callari, 35, que comprou sua primeira HQ aos 11 anos (uma antiga edição da Ebal dedicada à Mulher-Maravilha) e, desde então, não parou mais. Dos mais de 11 mil exemplares que coleciona, elege a edição definitiva de O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, como sua favorita.

É para um público adulto, exigente e colecionista como Sidney e Alexandre que editoras como a americana Running Press lança séries como a Museum-in-a-Book (“Museu em um livro”, em livre tradução). “O fã de HQs de luxo é dos mais exigentes. Ele espera de um produto do gênero informações que não podem ser facilmente encontradas em outros lugares”, afirma Craig Herman, editor-associado da Running Press. Até o momento, a série já lançou volumes dedicados às companhias DC e Marvel e dois de seus principais super-heróis, Batman e Homem-Aranha. Em todos os volumes, uma infinidade de páginas do tipo arquivo, em plástico, recheadas de itens para colecionador, como desenhos raros, storyboards originais e reproduções de objetos de memorabília, como brinquedos, cards e miniaturas. “Os extras agregam valor comercial ao livro”, garante Herman.

 
Objeto do desejo
Para Sidney Gusman, os extras valorizam, e muito, as edições de luxo. “Quando você produz uma obra do gênero, precisa ter um algo a mais para oferecer ao público. Quem sabe a reprodução de um roteiro datilografado do Neil Gaiman? O leitor vai se sentir recompensado”, acredita Gusman. Já Alexandre Callari pensa diferente. Um dos editores do site Pipoca e Nanquim, dedicado a cinema e quadrinhos, é da opinião que os extras não são indispensáveis. Indispensável é ter uma boa história. “O que eu busco em um quadrinho de luxo é o mesmo que eu busco em qualquer outro gênero e linguagem: boas histórias”, reitera. Mas, afinal, será que toda e qualquer história em quadrinhos precisa ser lançada em edição de luxo, com direito à capa dura, papel couché e tiragem limitada? Qual é o critério adotado pelas editoras para transformar uma história em edição de luxo?
 
Watchmen
Quem responde é Carolina Motta, gerente de marketing e produtos – heróis, da Editora Panini. “O valor e o impacto que a história teve quando lançada nas edições mensais ou em outros formatos é o principal critério. A relevância da história é ponto crucial para transformá-la em quadrinho de luxo”, explica Carolina, que cita alguns exemplos de histórias emblemáticas no universo dos quadrinhos já lançadas pela editora em edições de luxo: Watchmen, de Alan Moore, Terra X, de Jim Krueger, e Guerra Civil, de Mark Millar. “A principal diferença entre os quadrinhos de luxo e os formatos tradicionais é que, na maioria das vezes, os de luxo compreendem arcos de histórias fechadas, que atraem os que não seguem as edições mensais. Além disso, o papel couché dá um melhor entendimento da história e a capa dura oferece maior durabilidade ao produto”, destaca.

Venda em livrarias

Para Rogério de Campos, diretor da Conrad, as diferenças entre os quadrinhos de luxo e os quadrinhos convencionais não terminam por aí. Segundo ele, nos formatos tradicionais de gibi, vendidos até hoje em bancas de jornal, o importante é o personagem e não o autor. Não é por acaso que algumas publicações sequer citam os créditos de quem assina a história. Já nos quadrinhos de luxo, o autor tem uma importância muito maior do que tinha no mundo dos gibis. E mais: o roteirista tem certa ascendência sobre o desenhista. “O formato dos quadrinhos de luxo tem mais a ver com livros do que com revistas. Por isso mesmo, o seu principal ponto de venda é a livraria e não a banca”, afirma Rogério, que publica edições de luxo de autores mundialmente famosos como Bill Watterson, Milos Manara e Joe Sacco, entre outros.
 

Com um acabamento tão impecável, é compreensível que, muitas vezes, os valores cobrados pelos quadrinhos de luxo tirem o sono dos colecionadores. Por outro lado, essas edições definitivas têm tiragem limitada: de 3 mil a 5 mil exemplares, no máximo. Daí surge a pergunta: o preço é alto porque a tiragem é baixa? Ou a tiragem é baixa porque o preço é alto? “O preço não é alto se comparado a livros tradicionais”, defende Ivan Pinheiro Machado, editor e sócio-fundador da L&PM. “Mesmo o Peanuts Completo, um livro de capa dura com 400 páginas, custa R$ 70. É o preço que custaria, em média, um romance comum, do tipo brochura, com o mesmo número de páginas”, compara. Carolina Motta avisa que a Panini já busca alternativas para baratear o preço das HQs de luxo. “Temos produzido quadrinhos com tiragem maior, mas com um número menor de páginas, que são pensados tanto para livrarias quanto para bancas. Com isso, conseguimos reduzir o preço de capa”, explica. Os fãs dos quadrinhos agradecem.

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