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Com apelo e apuro, ‘Gonzaga – De Pai pra Filho’ segue roteiro folhetinesco

Por Mauro Ferreira, do Blog Notas Musicais
 
"É muita história…", diz  Luiz Gonzaga do Nascimento Jr. (1945 – 1991), o Gonzaguinha, a Luiz Gonzaga do Nascimento (1912 – 1989), o Gonzagão, à certa altura do papo-entrevista que levou o filho a acertar as contas emocionais com seu pai em 1981, ano em que o Rei do Baião já parecia destronado de seu poder popular, vivendo melancólico em sua terra natal, Exu, cidade do interior de Pernambuco. Sim, tem muita história envolvendo Gonzagão e Gonzaguinha, pai e filho separados por divergências nas esferas pública e privada, mas o filme Gonzaga – De Pai pra Filho acerta ao seguir basicamente o roteiro das terras onde passou o velho Lua. As tensões entre pai e filho pontuam e costuram a narrativa – estruturada em flashback a partir do reencontro retrospectivo de Gonzagão e Gonzaguinha naquele ano de 1981 que culminaria com a primeira turnê dos artistas – mas o roteiro preciso de Patrícia Andrade percorre basicamente os sertões e as recordações deixadas por Luiz Gonzaga em sua folhetinesca vida de viajante.
 
A direção de Breno Silveira caminha segura por essas trilhas sertanejas, já pisadas quando o cineasta contou a história dos 2 Filhos de Francisco (2005), cinebiografia de Zezé Di Camargo & Luciano que ultrapassou os cinco milhões de espectadores por conta do mesmo apelo emocional que ronda a história humana de Gonzaga e Gonzaguinha, cantores-ícones vividos no filme por três atores distintos nas diferentes fases da vida. Gonzagão é encarnado de forma convincente pelos atores Land Vieira (dos 17 aos 23 anos),  Nivaldo Expedito de Carvalho (dos 27 aos 50 anos) – sanfoneiro conhecido pelo nome artístico de Chambinho do Acordeom – e Adélio Lima (aos 69 anos). O segundo se destaca pela habilidade com a sanfona e por refletir no sorriso largo a alegria no coração que o Rei do Baião carregou pelos sertões onde passou.
 
O terceiro já traz no rosto as marcas físicas e emocionais do sofrimento imposto pela vida. Gonzaguinha é interpretado pelos atores Alison Santos (dos 10 aos 12 anos), Giancarlo Di Tommaso (dos 17 aos 22 anos) e Julio Andrade (aos 36 anos), sendo que o terceiro impressiona pela caracterização perfeita. Os trejeitos e a maneira de falar dão a sensação de que Gonzaguinha está na tela – impressão reforçada pelas imagens reais do cantor expostas ao longo do filme.
 
No confronto entre pai e filho que costura o roteiro, os diálogos adquirem em certos momentos tom novelesco condizente com o caráter folhetinesco dos fatos que envolvem as vidas de ambos. "Nunca te deixei faltar nada", alega Gonzagão num dos momentos culminantes da discussão. "Faltou você", retruca Gonzaguinha. A dúvida sobre a natureza biológica do laço entre Gonzagão e Gonzaguinha – questão levantada, mas não desenvolvida, pelo filme – reforça esse clima de folhetim. Mas Gonzaga – De Pai pra Filho jamais apela para as emoções baratas. Tal como fez em 2 Filhos de Francisco, Breno Silveira apenas se deixa levar por uma grande história, filmada com apuro, sem recursos estilísticos que poderiam empanar o brilho dessa história. Mesmo sem caráter didático, o filme mostra como Gonzaga partiu de Exu (PE) para Fortaleza (CE) e, depois, para o Rio de Janeiro (RJ) em rota que o levaria ao sucesso nacional tão logo sintetizasse a batida do baião.
 
Os passos fundamentais da trajetória artística de Gonzagão estão reconstituídos no filme. Já a caminhada de Gonzaguinha para o estrelato jamais vira o foco principal da narrativa. O espectador de Gonzaga – De Pai pra Filho sai do cinema sem saber que o filho – projetado na era dos festivais da canção com músicas engajadas e raivosas que lhe valeram o epíteto desagradável de cantor-rancor – somente obteve fama e popularidade similares ao do pai quando cantoras como Maria Bethânia e Simone revelaram a face mais romântica de seu repertório na segunda metade dos anos 70. Nada que deponha contra o filme.
 
Havia muita história para contar e o roteiro de Patrícia Andrade, vale repetir, acerta ao priorizar a saga de Gonzagão em filme que estreia a tempo de festejar o centenário de nascimento do Rei do Baião. Gonzaguinha entra em cena somente quando seus caminhos se cruzam com os de seu pai, com quem se reconciliou definitivamente a partir do lendário papo-entrevista de 1981, ponto de partida deste grande filme sobre os (des)encontros de pai e filho, 2 filhos deste Brasil.
 
 
Resenha de filme
Título: Gonzaga – De Pai pra Filho
Direção: Breno Silveira
Roteiro: Patrícia Andrade
Cotação: * * * * 1/2
Filme em exibição no Festival do Rio a partir de 27 de setembro de 2012
Estreia em circuito nacional prevista para 26 de outubro de 2012
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