Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 03.01.2013 03.01.2013

Clovis Levi e ‘O Beco do Pânico’: uma abordagem sutil sobre a homossexualidade na adolescência

Por Cintia Lopes
 
A intenção inicial de Clovis Levi era escrever um livro infantil em homenagem à neta, Izadora. Entusiasmado com a empreitada, o diretor, crítico teatral e professor de artes cênicas não imaginava, porém, que a sua investida na literatura infantil teria uma alteração de rumo à medida que as ideias iam surgindo. Até que Clovis se viu às voltas com um texto que tratava de homossexualidade. “Logo percebi que era absolutamente ignorante a respeito dessa temática. Em seguida, vi o que me motivaria: abordar o tema no universo adolescente. Foi assim que Caíque pulou de seis para quinze anos”, recorda Clovis, autor do elogiado O Beco do Pânico, editado pela Globo Livros.
O livro chama a atenção por retratar de forma muito delicada as descobertas da infância e a fase da adolescência do garoto Caíque, que precisa lidar com sentimentos até então desconhecidos, quando começa a sentir atração por um homem mais velho. “A sutileza com a qual a história é retratada foi essencial para conseguir esta aceitação. Não há cenas de sexo nem palavrões”, explica o autor de 68 anos.
Editada em Portugal em 2009, a publicação ganhou o selo de Recomendação do Plano Nacional de Leitura, ou seja: apto a ser trabalhado em salas de aula e nas escolas. Por aqui, o livro recebeu prefácio de Zuenir Ventura e apresentação de Jairo Bouer. “Zuenir foi meu amado professor de jornalismo, com quem aprendi a necessidade da síntese, objetividade e clareza”, conta.
O Beco do Pânico é o seu livro de estreia na ficção? Como surgiu a ideia de escrever abordando a temática das relações familiares com as escolhas sexuais?
Clovis Levi. Depois de muitas peças para o teatro e trabalhos para a televisão, nasceu a minha neta, Izadora. Resolvi criar umas histórias para ela. Já havia escrito algumas (ainda não publicadas) quando, de madrugada, acendi o abajur, peguei na caneta e no caderninho de anotações e escrevi o que tinha acabado de surgir pronto na minha cabeça:
Caíque, de seis anos, entra correndo em casa, joga a mochila no sofá e, ansioso:
– Mãe! Mãe!
Eliana vê o filho feliz, saltitante. Sorri.
– Que foi, meu filho? Que alegria é essa?
– Mãe, dei hoje o meu primeiro beijo na boca, mãe! Na boca!
– É mesmo, filho? Conta como foi.
– Eu acho que estou apaixonado, mãe.
A mãe ri da frase do filho, tão apaixonado e tão pequeno.
– E como é o nome dela?
– É o Ricardo, mãe.
Silêncio total.
Para mim, isso seria uma abertura mobilizadora para uma história infantil sobre a questão da sexualidade. Pensei que seria um tema inexplorado. Depois, pesquisando a respeito, vi que já existem algumas publicações para as crianças sobre homossexualidade. Dormi e, no dia seguinte, fui reler o que escrevi e concluí que era mesmo um bom começo para uma história infantil. Comecei o trabalho. Depois de algumas páginas, percebi que era absolutamente ignorante a respeito dessa temática. Em seguida, vi logo o que me motivaria: essa temática dentro do universo adolescente.
Temas como relações amorosas são universais. Por que o senhor resolveu abordar a bissexualidade no livro através de um jovem personagem?
Clovis Levi. Tenho fascínio pelo dia a dia dos jovens nessa faixa de idade e dou aulas para muitos alunos que acabaram de sair da adolescência e que ainda carregam alguns resquícios. Ou seja: tenho enorme vivência com os meus alunos adolescentes e pós-adolescentes desde os anos 70.
Em Portugal, o livro ganhou o selo de recomendação do Plano Nacional de Leitura. Essa condecoração surpreendeu o senhor de alguma forma?
Clovis Levi. Não. O livro foi pensado para ter uma penetração em escolas, para servir de apoio a professores e a pais de adolescentes. Em Portugal, os colégios têm um “Gabinete sobre Sexualidade”, onde atendem a dúvidas levantadas pelos estudantes e promovem palestras de esclarecimento, encontro com escritores, etc. Eu ia às escolas secundárias conversar com estudantes, pais e professores, e os meus alunos faziam a leitura dramatizada de alguns trechos – o que sempre teve um fantástico resultado. O Selo de Recomendação do Plano Nacional de Leitura já era esperado porque O Beco do Pânico, apesar de tocar num tema polêmico, preocupa-se em tratá-lo com delicadeza e é repleto de aventura e humor. No Brasil, valem como "selo de recomendação" as palavras do Zuenir Ventura e do Jairo Bouer.
Em algum momento o senhor teve receio de rejeição por parte das escolas e/ou de editoras em função da temática abordada?
Clovis Levi. Sim. Tive depoimentos de professores que liam o livro, achavam que seria extremamente útil para ser trabalhado nas escolas, mas tinham medo de serem chamados à atenção pelos diretores. O Selo de Recomendação chancelou O Beco do Pânico… deu a ele um “diploma de qualidade”, e foi a partir do selo que as escolas portuguesas abriram as suas portas. Concluíram, então, que o livro não oferecia perigo e perceberam que a história não é sobre sexo, mas sobre a vida: estimula o adolescente a duvidar das verdades definitivas e a ter coragem e energia para trilhar os caminhos de sua liberdade individual.
O livro foi lançado em Portugal no ano de 2009 e somente agora no Brasil. Por que não antes?
Clovis Levi. Acredito que as editoras que rejeitaram o livro (e foram várias) tiveram o mesmo movimento dos professores portugueses: gostavam, mas temiam. Até que a Globo Livros percebeu que o livro trata do tema com uma abordagem adequada para a sala de aula.
O senhor é autor de peças teatrais, novelas e seriado. A narrativa do livro também renderia um ótimo roteiro para cinema ou teatro. Existem planos para isso?
Clovis Levi. Fico mais atraído pela ideia do cinema, principalmente porque o livro viaja muito por Portugal; e eu adoraria ver no telão a cena que se passa no Rio Amazonas, no Estreito de Óbidos. Também penso que poderia dar uma excelente temporada para um programa como Malhação, por exemplo.
Existem muitas diferenças em lecionar artes cênicas no Brasil ou em Portugal? É possível fazer uma comparação com o trabalho desenvolvido na Escola Superior de Educação de Coimbra e na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras)?
Clovis Levi. Os anseios dos estudantes são os mesmos – o sonho de ser artista é universal. A diferença básica da CAL para o Curso de Teatro da Escola Superior de Educação de Coimbra é que a CAL trata apenas de teatro, enquanto, em Portugal, a escola divide a sua atenção por 14 diferentes caminhos profissionais. A CAL é focada apenas no teatro.
 
Capa do livro O Beco do Pânico
Por que o senhor decidiu retornar ao Brasil após 11 anos morando em Portugal?
Clovis Levi. Fui para Coimbra como parte de uma equipe que estava implantando um Curso Superior de Teatro na Região do Centro de Portugal. O objetivo era dar aulas de Interpretação e de Encenação para o Curso de Teatro, e também de Roteiro para os alunos de Comunicação Social. Mas quiseram que eu assumisse cargos de direção, o que eu não desejava. Mas acabei aceitando. Isso me fez muito mal, e então refleti: o curso já está implantado, andando com as próprias pernas; não vim para Portugal para participar de constantes e intermináveis reuniões chatíssimas. Queria ficar perto dos meus dois filhos e da minha neta. Num país com alto índice de desemprego, devo ter sido o único que pediu demissão…
O livro  A cadeira que queria ser sofá traz uma compilação de histórias com a temática da morte, mas trata-se de uma obra infantil. Como surgiu a ideia?
Clovis Levi. Até agora, este meu livro para crianças foi lançado apenas em Portugal. As histórias fazem parte daquele projeto de escrever para a minha neta Izadora. E, quando fui selecionar os contos, percebi que três deles falavam de morte. Fiz a proposta de um livro temático para crianças e a editora recebeu bem. Depois, eu mesmo me perguntei: por que escrevi três histórias, para crianças, com o tema da morte? Concluí que sou eu que estou ficando velho…
E os planos para 2013? Está trabalhando em algum outro livro?
Clovis Levi. Neste momento, estou organizando a minha vida para voltar a escrever o romance para adultos chamado O Imprevisível Pavão da Babilônia, que comecei logo depois de O Beco do Pânico. Devido às burocracias da direção do Curso de Teatro de Coimbra e, a seguir, devido à mudança para o Brasil, não escrevo uma linha há mais de um ano. Tudo o que quero é poder novamente estar com a vida organizada para sentar e escrever várias horas por dia. Também vou seguir dirigindo o grupo Os Tapetes Voadores, que faz um trabalho com ligação direta à literatura para crianças. As histórias dos livros são contadas em tapetes tridimensionais, cheios de segredos e mistérios, como se fosse um cenário.
 
 
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