Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 05.03.2013 05.03.2013

Claudia Tajes fala da carreira e diz que lado mandona só aparece nos livros

Por Andréia Silva
 
"Ali quem manda sou eu", diz a escritora gaúcha Claudia Tajes, ao falar sobre o poder dos personagens em seus livros. Ou melhor, do controle que ela tem sobre cada personagem.
 
Com oito livros publicados e roteiros feitos para TV, ela diz que como escritora consegue o que ainda não funciona bem fora dos livros: "Eu não sei mandar em ninguém", diz. 
 
De fala calma e pausada, quando coloca suas histórias no papel não há limites para as ironias e humor de suas protagonistas, vivendo histórias de amores e desamores.
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Claudia falou sobre a carreira, suas personagens e deu pistas sobre o novo livro a caminho, “raivoso”, como ela mesma diz.
 
Você ainda se lembra do seu momento de virada antes de Dez (Quase) Amores, quando decidiu "entrar" na literatura?
Claudia Tajes. Foi assim: eu era redatora de uma agência de propaganda e sofria porque cada vez escrevia menos no meu trabalho. Então, em casa, depois de colocar o meu filho na cama, passei a escrever todas as noites para desafogar essa frustração. Comecei inúmeros textos, que deletei sem dó e nem piedade, de tão ruins que eram. Mas um dia achei que tinha uma história. Dei a sorte de ser lida pelo editor da L&PM, o Ivan Pinheiro Machado. E alguns meses após entregar os originais para ele, o Dez (Quase) Amores foi publicado.
 
O que é mais divertido em escrever sobre romances, amores (desamores)?
Claudia Tajes. É a possibilidade de encontrar divertimento onde só parece haver desgraça.
 
Você costuma reler seus livros com frequência? Já se arrependeu de algo escrito ou você sempre acha o resultado bom?
Claudia Tajes. Eu nunca li nenhum dos meus livros depois de publicado! Morro de medo de ter cometido alguma atrocidade sem volta. Eu não leio nada que escrevo, não consigo. Morro de vergonha só de pensar em ler.
 
Muitos escritores dizem que seus personagens às vezes criam voz própria e tomam as rédeas de suas mãos. Considerando que suas personagens são mulheres, como é lidar com todas essas vozes? Você já se apegou demais a alguma?
Claudia Tajes. Quando eu sinto que estou me apegando ao personagem, tento voltar ao comando e retomar o controle. Eu não sei mandar em ninguém e quase não consigo pedir, o que muito já me prejudicou, tanto pessoalmente, quanto profissionalmente. Por isso mesmo, me vingo nos livros. Ali, quem manda sou eu.
 
Claudia Trajes
 
Qual é sua relação com a publicidade hoje? Você ainda atua na área de alguma forma?
Claudia Tajes. Faço alguns raros trabalhos para amigos, mas não passa disso. Peguei certa alergia da propaganda por ter sofrido um bullying bem sério nos últimos anos. Os chamados jovens criativos me consideraram velha demais para criar anúncios e filmes, e passei por algumas humilhações que mereceriam um processo por assédio moral. Se eu tivesse sido mais corajosa e me demitido quando tudo começou, talvez hoje conseguisse ganhar um dinheirinho fazendo frees para as agências. Do jeito como acabei saindo, a propaganda virou um trauma para mim.
 
O que te atrai em contar ou levar uma história na TV?
Claudia Tajes. Bom, roteirizar uma história é muito difícil. Prova disso são os incontáveis roteiros ruins que existem por aí. No roteiro, tudo tem que ser ação e diálogo, e colocar um texto nesse formato é um desafio. Não basta apenas escrever, tem que escrever de um jeito que possa ser filmado. Difícil, mas estimulante também.
 
Tem gente que pensa que todo o escritor que escreve sobre relacionamentos, amor, etc, é terapeuta. Os leitores te pedem muitos conselhos? Você é boa nisso?
Cláudia Tajes. Eu sou péssima nisso e a maior prova é a minha vida amorosa toda desconjuntada! As pessoas até me pedem conselhos, que eu dou à minha moda: sem levar a sério.
 
Como escritora, do que você não abre mão?
Cláudia Tajes. De escrever e reescrever até que o texto fique realmente bom de ler. Tipo cada linha é uma linha, sabe? Não adianta só empilhar as ideias, tem que achar um jeito de fugir dos lugares comuns na hora de contar, não repetir palavras, não encher linguiça. Muitos podem até dizer que o assunto dos meus livros é fraco, mas gostaria que reconhecessem que, pelo menos, são bem escritos. 
 
Soube que você recebeu uma vez um poema do Mario Quintana. Onde você guarda essa preciosidade?
Cláudia Tajes. Eu levei para uma Feira do Livro no colégio e a professora não me devolveu! Cheguei a apanhar da minha mãe por causa disso! Acontece que o meu pai me fez escrever uma história para o Mario Quintana (os dois eram colegas na redação do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, lá pelo fim dos anos 70). Morrendo de vergonha, escrevi um texto sobre um "moço velhinho". O Mario Quintana retribuiu assim (o poema eu sei de cor, apesar de ter perdido): "Maria Claudia, o teu bilhete/ Me deixou muito alegrete./Aqui vai todo o carinho/ Daquele moço velhinho/ Que está te escrevendo esta/ Com a alma toda em festa." Não é lindo?
 
E para 2013, o que você está preparando?
Cláudia Tajes. Um livro de contos raivosos sobre homens e mulheres: Sangue no Olho. Chega de ser boazinha!
 
 
 
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