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Clássicos de um dia: James Joyce e Virginia Woolf

Por Felipe Candido
Há exatos 130 anos, em 1882, o mundo presenciou a chegada de dois grandes nomes da literatura mundial. Cada um em seu país, com suas características e suas obras-primas.
Primeiramente, no dia 25 de janeiro, Londres tornou-se a cidade natal de uma das maiores representantes do modernismo na literatura: Virginia Woolf. Já no mês seguinte, no dia 02 de fevereiro, Dublin recebeu aquele que mais tarde seria considerado um dos autores de maior relevância da literatura mundial: James Joyce.
Apesar das (poucas) semelhanças e muitas diferenças que há entre a vida e a obra os dois autores, um ponto específico mantém contato entre seus trabalhos. O principal livro de ambos tem uma peculiaridade em comum: As tramas se desenrolam em um único dia.
 
 
Joyce e Woolf
Além de certa proximidade geográfica, os dois autores também apresentam algumas semelhanças, tanto em suas biografias, como em suas obras. Joyce e Woolf eram filhos de famílias abastadas em seus países. Porém, em razão de uma série de fatores, a família de Joyce se viu ruir financeiramente, o que levou o jovem autor a se aprofundar nos estudos, para garantir a bolsa na Universidade de Dublin, onde também se aproximou dos meios teatrais e literários. A mesma paixão pela literatura movia Virginia Woolf, principalmente após seu casamento com Leonard Woolf, com quem funda a Editora Hogarth Press, que revelou autores que entrariam no seleto hall de grandes nomes da literatura mundial, como Katherine Mansfield e T. S. Elliot.
Porém as semelhanças pessoais entre os dois terminam por aí. Enquanto Virginia sofria de depressão, e se enclausurava para poder escrever seus livros, James Joyce era frequentador assíduo da boêmia noite irlandesa, passando muitas madrugadas pelos bares e ruas da cidade.
Já no campo estético, a proximidade entre os dois autores acontece principalmente pelo fato de ambos pertencerem à mesma escola literária. O modernismo estava em voga no início do século passado, e ambos seguiam as tendências dessa manifestação literária. Virginia foi uma pioneira no uso do Fluxo de Consciência na literatura, um recurso que mescla ações do cotidiano com impressões pessoais momentâneas. Tal artifício literário foi utilizado posteriormente por diversos autores, como o próprio James Joyce. O autor irlandês utilizou o fluxo de consciência principalmente em sua obra poética.
Mas a principal semelhança entre os autores está em suas obras-primas. Mrs. Dalloway de Virginia Woolf, e Ulysses de James Joyce apresentam o mesmo mote. Toda a ação é ambientada em um único dia. Clarissa Dalloway e Leopold Bloom se tornaram clássicos da literatura com apenas 24 horas.
A festa do interior de Virginia Woolf
Clarissa, criada por Woolf em 1925, tem sua jornada voltada ao interior pessoal. Durante os preparativos para uma festa, a senhora Dalloway revive sua juventude de amores desfeitos e começa a relembrar os momentos definitivos de sua vida e o que poderia ter sido diferente. Ao mesmo tempo, em algum lugar de Londres, o jovem visionário Septimus Warren Smith enfrenta conflitos interiores para tentar apagar os horrores vividos durante a guerra. Os enredos dessas duas personagens se entrelaçam ao longo do romance até chegar a um clímax dramático. Porém é pelo mundo interior das personagens que Virginia Woolf conduz seus leitores. Com dramas psicológicos, ações se misturando com pensamentos e imagens interiores, o presente, passado e futuro de Clarissa e Septimus mesclam-se formando um dos romances mais cultuados de todos os tempos. O dia parece ser infinito pelos olhos das personagens.
 
A grande jornada de James Joyce
 
Já em Ulysses (1912), James Joyce recria o épico grego A Odisseia, que narra a saga de Ulisses em sua tentativa de retorno para seu lar, em Ítaca. Porém, Leopold Bloom, o anti-herói de Joyce, utiliza o 16 de junho para fazer sua jornada de maneira nada convencional, passeando pelas ruas da Irlanda, com paradas em prostíbulos, bares, resistindo (ou não) às tentações da cidade, e revive, à sua maneira, todos os passos do herói grego. Durante dos dezoito capítulos do livro, o autor também faz um panorama de um dos séculos mais conturbados da história. Guerras, revoluções científicas e outros elementos que marcaram esse período história permeiam as páginas desse que é considerado por muitos críticos um dos romances mais relevantes da história da literatura. A importância de Ulysses é tão grande no universo literário, que o dia 16 de junho é celebrado em diversas partes do mundo como Bloomsday, para lembrar a data da jornada de Leopold Bloom.
 
Basta um dia
 
Utilizando apenas um dia, Virginia Woolf e James Joyce marcaram seus nomes, seus livros e seus personagens na história da literatura, tornando-se clássicos. Após os 130 anos do nascimento desses dois autores, os dias que eles criaram ainda fascinam e intrigam leitores por todo o mundo, e ainda servem de inspiração para novos autores. Dois autores, dois romances e dois dias que serão lembrados ainda por muitos dias, anos e quem sabe até séculos.
 
Outros dias marcantes da literatura ….
Além de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, e Ulysses, de James Joyce, outros livros também utilizaram apenas um dia para contar suas histórias. Ou quase…
 
As Horas
O autor Michael Cunningham teve justamente Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, como inspiração para escrever seu romance mais conhecido, As Horas, de 1998, tendo inclusive a autora britânica como uma de suas personagens principais. O livro acompanha um dia na vida de três mulheres, separadas no tempo e no espaço, mas que têm uma ligação através do livro de Virgínia. O livro foi o ganhador do Prêmio Pulitzer em 1999, e adaptado para o cinema em 2002 pelo diretor Stephen Daldry, tendo as atrizes Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman nos papéis principais.
 
   
Um Dia
A história de Dexter Mayhew e Emma Morley, escrita por David Nicholls, também tem uma data em particular: 15 de julho. Porém, ao invés de se concentrar em um único dia, o autor narra, em Um Dia,  a história de seus personagens durante vinte anos, utilizando a mesma data para apresentar flashes da relação dos dois. Encontros, desencontros, brigas, oportunidades são apresentados ao leitor para compreender o verdadeiro sentido da relação que eles vivem, mesmo separados, mas estreitamente ligados. O livro também foi adaptado para o cinema em 2011, com Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis principais, sob a direção de Lone Scherfig.
 
 
 
 
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