Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.12.2012 13.12.2012

Clarice Lispector no divã: leitores falam da identificação com a escritora

Por Maria Fernanda Moraes
 
Imagine a seguinte situação: uma jovem de 23 anos, leitora e fã de Clarice Lispector, que acabara de se formar na faculdade e enfrentava o término de um longo relacionamento, tem o privilégio de se encontrar tête-à-tête com a escritora. E não para por aí: ainda recebe conselhos sentimentais de Clarice. Apesar de parecer um tanto surreal, foi exatamente o que aconteceu com Mary Macedo de Camargo Neves Lafer, que hoje é Professora de Línguas Clássicas na Universidade de São Paulo (USP).
 
O ano era 1973 e, sob o pretexto de entregar à Clarice uma carta do também professor de Literatura da USP, João Adolfo Hansen, Mary seguiu rumo ao Rio de Janeiro, no bairro do Leme, endereço de Lispector. “Eu precisava fugir um pouco de São Paulo, queria esfriar a cabeça por conta do término de um longo relacionamento, e essa oportunidade veio bem a calhar. Mas imaginei que chegaria ao apartamento, entregaria a carta a ela e viria embora. Já estaria satisfeita apenas em vê-la pessoalmente. Mas não foi o que aconteceu, para minha alegria”, relembrou Mary.
 
Ela conta que chegou à residência da escritora sem avisar, comprou umas flores no caminho e tocou a campainha com a cara e a coragem. “Clarice me recebeu muito bem, com simplicidade, e me convidou a entrar. Era um apartamento amplo, muito bonito, e tinha muitas flores amarelas. Ela já foi me contando que tinha um admirador que lhe enviava as flores toda semana. Eu havia comprado papoulas para ela. Quando as viu, comentou com a senhora que morava com ela: ‘Que coincidência, hoje mesmo eu falei que queria comprar umas papoulas’. Era uma figura muito interessante e ao mesmo tempo muito simples. Quando você encontra com um ídolo, tende a ficar meio intimidado, mas ela me deixou completamente à vontade”.
 
'Perto do Coração Selvagem'
'A Hora da Estrela'
 
Mary revelou que foi um encontro interessante, porque tudo que Clarice falava era uma mistura de alta reflexão e muita simplicidade. “O vocabulário que ela usava, o jeito de falar… é bem aquilo que a gente enxerga na sua escrita. Ela levou a conversa para um lado muito pessoal e de forma espontânea. Logo no início me perguntou se eu tinha namorado. Eu contei que tinha acabado de terminar um relacionamento. E ela: ‘Ainda gosta dele?’ Respondi que sim. E foi aí que ela me aconselhou: ‘Então faça tudo o que é possível! Vá ao candomblé, arrume um Pai de Santo que te patrocine!’[risos] Foi uma situação engraçada!”. 
 
A professora compartilhou mais detalhes do encontro. “Ela perguntou se eu tinha lido alguma coisa dela e eu contei que o meu livro preferido era Perto do Coração Selvagem. Mas não se interessou em falar muito disso, ela queria saber de mim, me contou coisas dela. Falamos de coisas mais pessoais, mais femininas, e tudo isso muito à vontade. Me perguntou também como era o João [Adolfo Hansen, o remetente da carta]. Eu disse que era um cara ótimo. Aí ela me pediu para descrevê-lo fisicamente e eu contei que ele estava de barba na época. Ela logo emendou: ‘Adoro homem de barba’. Em seguida, me convidou a comemorar o novo amigo de correspondências. Abriu uma garrafa de whisky e brindamos”.
 
O encontro, que durou cerca de três horas, parecia a reunião de antigas amigas. Mary contou que Clarice conversou sobre coisas triviais, sobre as quais se conversa com quem já se tem uma certa intimidade. Perguntou de onde era o xale que Mary estava usando, indagou como se falava diversas palavras em grego, entre elas a frase “Eu te amo”. “Ela também me perguntou se eu achava que ela tinha ficado muito marcada no rosto, por conta do acidente que ela teve, o incêndio em sua casa. Eu falei que não, não parecia. Ela era uma mulher muito bonita, com uns olhos estranhíssimos. Me mostrou também a mão com a qual não conseguia escrever direito”.
 
'Água Viva'
'A Paixão Segundo G.H.'
 
“Eu tive a impressão que eu cheguei numa hora em que ela queria conversar. Eu estava gripada naquele dia e saí da casa dela quase voando. Depois desse encontro, muita coisa mudou em mim. Encontrá-la me deixou muito bem comigo mesma. Eu me achei tão interessante de poder tê-la encontrado e mais ainda de ela ter se interessado pela minha vida”, resumiu Mary. 
 
LEITORES REVELAM SUAS HISTÓRIA
 
Já os meros mortais que não tiveram o privilégio dessa experiência se satisfazem com as epifanias que as leituras podem trazer. Cada leitor tem seu momento particular de encontro com a obra, mas as reações se assemelham: são um misto de espanto e identificação. Ao conhecer histórias de leitores tão diferentes, percebe-se que a literatura que os une expõe realidades invisíveis, que permitem a visão de aspectos insuspeitos a eles mesmos. Fazendo uma analogia, é como se fosse uma relação entre o psicólogo e seu paciente.
 
Yudith Rosenbaum, Professora de Literatura Brasileira da USP que atua na interface da Literatura com a Psicanálise, explica que Clarice Lispector não é uma autora que se lê impunemente. O efeito de seus textos nos leitores, desde sua estreia com Perto do Coração Selvagem, em 1943, parece supor um impacto poderoso. “Amando-a ou odiando-a, o leitor sai sempre marcado por um processo singular. Do que se trata, afinal? Penso que uma escritora que não busca apaziguar ninguém, mas antes desvelar ilusões, tem um alcance desalienante”. 
 
Yasmin Ursini, 48 anos, bacharelanda em Filosofia pela USP e funcionária da Fedex, conta que seu primeiro contato com Clarice foi há 12 anos, por indicação de um amigo. “Eu estava começando a me interessar por filosofia e, enquanto conversávamos, passeando pelas gôndolas da livraria, tropeçamos em Clarice. Ele me recomendou, dizendo que eu iria gostar muito e deveria ler algum livro dela. Escolhi Para Não Esquecer pela ilustração da capa e porque é fininho. Pensei que leria rapidinho, numa sentada. Impossível ler rapidinho [risos]. Fui arrebatada pelos pensamentos intensos e profundos de Clarice. Fiquei chocada e apaixonada ao mesmo tempo!”.
 
Hoje Yasmin reconhece que sempre teve dificuldade com a questão de querer entender tudo: o outro, a situação, os motivos, ter explicações para tudo. “Isso me trazia conflitos e confrontos com as pessoas. Foram nesses momentos que algumas frases da Clarice me abriram os olhos: ‘Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente’ [trecho do conto "Perdoando Deus", do livro Felicidade Clandestina]. Depois de ler contos como esse, passei a aceitar melhor as coisas não entendidas. Essas palavras acabam funcionando como um alento para minha alma quando me observo querendo dar conta de entender tudo novamente. Ao me lembrar dessas sábias palavras, me acalmo instantaneamente e procuro acolher em mim tais coisas sem que elas precisem passar necessariamente pelo crivo da minha razão [risos]. É uma sensação de liberdade incrível! É como uma terapia mesmo, porque amplia a consciência e me coloca em contato mais íntimo com minha alma e com as coisas mais corriqueiras, tornando-as singulares”.
 
O músico e professor Conrado Falbo, 31 anos, acredita que os livros transformam as pessoas de maneiras muito sutis, embora decisivas. “Os livros de Clarice nunca me ajudaram a tomar uma decisão ou a resolver algum problema existencial, mas aquela literatura mudou para sempre meu jeito de ver o mundo. Acredito que é esta maneira tão visceral de escrever que faz com que eu me identifique com seus personagens masculinos e femininos, mesmo aqueles que têm vidas totalmente diferentes da minha. Assim como eu posso me identificar com esses personagens, imagino que muitas outras pessoas também podem, independente de gênero e biografia”.
 
Ele conta que conheceu a obra de Clarice no início da adolescência, quando achou algumas obras dela na biblioteca da avó. “O que me fez pegar um deles para ler foi a foto de Clarice na contracapa, o livro era Perto do Coração Selvagem. A linguagem me seduziu pelo mistério: eu não conseguia entender muito bem sobre o que aquele livro falava, mas isso fazia parte do fascínio, e saí dessa leitura com um grande apetite pelo resto da obra de Clarice”.
 
                                                   Crédito/ Madalena Schwartz Acervo Moreira Salles
Clarice Lispector
 
Segundo ele, há um relacionamento muito específico com cada título que leu. Alguns foram relacionamentos de espanto (Perto do Coração Selvagem), outros foram relacionamentos difíceis e dolorosos (Uma Aprendizagem, A Paixão segundo G.H.), outros de encantamento puro (Felicidade Clandestina) e outros mais distanciados, como se ele estivesse olhando por uma janela (A Hora da Estrela, Laços de Família). “Cada relacionamento amoroso – seja uma amizade, um romance ou um relacionamento familiar – depende sobretudo de quem está envolvido nele. Além disso, cada relacionamento transforma os envolvidos e se transforma a si mesmo continuamente. A mesma coisa ocorre com os relacionamentos entre pessoas e livros”, explica.
 
“Acho que Clarice tem o diferencial dos artistas que não medem esforços para criar, que não se poupam, não hesitam em arriscar tudo (inclusive a própria identidade) em nome da expressão. Esse tipo de atitude tem uma força que se faz perceber pelo público e provoca uma identificação que vai além de temas, questões estilísticas e traços de personalidade”, define o músico.
 
Assim como muitos leitores da sua geração, a revisora de textos Luisa Soler, 28 anos, conheceu Clarice no colégio, quando teve de ler A Hora da Estrela. “Só que ainda não foi nessa ocasião que me encantei realmente pela palavra da escritora. A obra que realmente me transformou e me deixou boquiaberta foi A Paixão segundo G.H. Eu devia ter uns 16 anos e fiquei totalmente impregnada de todos aqueles fluxos de consciência. Um livro em que a real protagonista é uma barata. Angustiante e fantástico”. 
 
Luisa explica que o mundo de Clarice é aquele do "eu" profundo e questionador. É quase sempre uma personagem em busca de alguma coisa que ela não sabe bem o que é e vivenciando um momento epifânico ao ver um cego mascando chicletes ou ao esmagar uma barata, por exemplo. “Foi muito fácil e natural para mim, enquanto adolescente, me encantar com o mundo subjetivo e misterioso da autora. A angústia vivida pelos seus personagens era a minha própria angústia, de lidar com o medo e o absurdo da vida”, revelou. 
 
A revisora ainda lembrou de um momento marcante. “Fiquei bastante impressionada quando vi a célebre entrevista que Clarice concedeu ao jornalista Júlio Lerner, em 1977, pouco antes de sua morte. Era uma Clarice sisuda e sem tirar o cigarro da mão. Clarice com a língua presa. Clarice, um mistério”. 
 
Marli Marques, Professora de Literatura e Diretora de Teatro, foi um pouco além dos limites da leitura por conta da profissão. “Li vários livros sobre Clarice, revistas, e me inspirei em Desastres de Sofia quando montei uma versão de Chapeuzinho Vermelho que chamei de "Floresta de Nós". Em outra montagem, Estigma, adaptação das Cartas Portuguesas, me inspirei em Água Viva”.
 
Segundo a Diretora, é difícil falar de implicações objetivas e práticas a partir da leitura de suas obras. “Entendo Clarice como algo completamente subjetivo, e por vezes (muitas vezes mesmo!) provoca em mim uma angústia muito grande. É tão bonito que dá vontade de chorar”.
 
Clarice Lispector
 
Ela conta que o primeiro livro de Clarice que leu foi A Maçã no Escuro, era emprestado e ela tinha 12 anos. “Na época eu não sei bem o que senti, mas senti, pois até hoje me recordo do livro. A Clarice apareceu quando eu era criança, adolescente, mas só mesmo quando adulta pude ir ao auge com ela. O leitor de Clarice tem uma particularidade: é uma necessidade de busca. Então, logo que começo a leitura, a identificação com os sentimentos, dúvidas e perdas ocorre quase imediatamente. Todas as palavras estão lá! Ela fala de mim! Essa é a sensação que tenho!”.
 
BOX
 
O mês de dezembro traz uma data especial para os leitores e para a Literatura Brasileira. Se estivesse viva, Clarice completaria 92 anos no dia 10 de dezembro. Curiosamente, o dia anterior, 9 de dezembro, é a data de sua morte, há 35 anos. A Editora Rocco, responsável pela publicação de suas obras, está promovendo vários eventos comemorativos durante o mês. 
 
 
 
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