Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 26.10.2010 26.10.2010

Cinema brasileiro: as histórias de quem produz


    O projeto Cine Tela Brasil, primeira sala itinerante do País a levar filmes nacionais gratuitamente à população, foi idealizado pelos 
    cineastas Luiz Bolognesi e Laís Bodanzky, da Buriti Filmes

   Por Danielle Motta, do Almanaque Saraiva
   Fotos de divulgação


O cinema brasileiro tem muitomais histórias para contar do que as que aparecem nas telonas. Por trás dascâmeras, casos de vida, carreiras, amizades, inspirações e paixão por esta artemotivam profissionais, que enfrentam dificuldades de um mercado ainda restritoe disputado para colocar o nome do Brasil em destaque na indústriacinematográfica mundial. Sem ter a tradição de grandes estúdios, como acontecenos Estados Unidos, aqui são as parcerias feitas entre produtoras que tornampossível a concretização de um projeto.

Cenário mais do que merecidodepois das turbulências enfrentadas na Era Collor, que extinguiu órgãos einstituições de fomento ao desenvolvimento audiovisual, nos últimos 15 anos osetor tem visto os números se elevarem em ritmo positivo: segundo a AgênciaNacional do Cinema (Ancine), em 1995, ano da retomada do cinema nacional –marcado pela produção de Carlota Joaquina,de Carla Camurati (Copacabana Filmes) -, foram lançados comercialmente 14 longas-metragens.Em 2005, esse número subiu para 45 e, em 2009, alcançou a marca de 84 produçõesbrasileiras em salas de exibição. “Estamos melhorando o panorama a cada ano. Eesse resultado é graças ao trabalho das produtoras independentes, que fazem amaior parte do cinema brasileiro. A partir da retomada, o cinema praticamenterenasceu com novos moldes e bases. Tivemos um excelente avanço na tecnologia e,do ponto de vista artístico, ampliamos a diversidade temática e de estilo”,destaca Anna Muylaert, roteirista e diretora de cinema e televisão.

A Lei do Audiovisual, queconcede incentivos fiscais à produção e coprodução cinematográfica, foi uma dasgrandes responsáveis por esse crescimento e criou condições para a melhoria naqualidade dos filmes. “Apesar da melhoria técnica e artística, ainda estamosadolescendo em muitos aspectos, principalmente no que se refere à constituiçãode um mercado. Há muitas dificuldades a serem enfrentadas pelas produtoras,como a morosidade no processo de captação de recursos e a adequação para adistribuição desses filmes”, acrescenta Anna.

A lista dos obstáculos tambéminclui a falta de divulgação da maioria das produções, que nem sequer chegam aoconhecimento dos telespectadores. “Atualmente, a nossa maior dificuldade édisputar a permanência nas grandes salas de cinema com as produções comerciaisnorte-americanas. Há 12 anos, era normal um filme ficar até sete meses em cartaz. Hoje, omáximo que se consegue é permanecer três semanas”, aponta Luiz Bolognesi, roteiristae diretor de cinema da produtora Buriti Filmes.

 

Pernambuco: a mina de ouro do cinema nacional

Toda a produção cinematográfica do País concentra-se no eixo Rio-São Paulo, certo? Errado! Além do Rio Grande do Sul, é de Pernambuco que tem saído boa parte das bilheterias nacionais. Famoso pelos 13 filmes criados no Ciclo no Recife, na década de 20, e pelos 150 longas-metragens feitos no Ciclo dos Super-8, na década de 70, o Estado vive a sua terceira fase, inaugurada em 1997, com Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira.

Esses dois diretores – junto a Cláudio Assis, Marcelo Gomes e Hilton Lacerda – fazem parte de um grupo de cineastas responsáveis pela retomada do cinema pernambucano, conhecida como Movimento Árido Movie. Eles trouxeram renovação temática, dramatúrgica e na linguagem cinematográfica, e a projeção de seus filmes garantiu o reconhecimento da região como grande produtora de um cinema autoral na periferia da produção. “O cinema de Pernambuco é composto por cineastas de gerações diferentes, criando filmes com temáticas e formatos distintos, que se ligam pela maneira de produzir e pelo teor autoral das obras”, explica Amanda Mansur, autora do livro Novo Ciclo de Cinema em Pernambuco: A Questão do Estilo.

No geral, os filmes pernambucanos são feitos por produtoras locais e nacionais e com parcerias internacionais na distribuição, finalização e desenvolvimento de roteiro. O Deserto Feliz (2007), de Paulo Caldas, foi uma coprodução entre Brasil-Alemanha; já em seu novo filme, País do Desejo, há uma parceria com Portugal.

Filmes

– O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), de Paulo Caldas e Marcelo Luna
– Amarelo Manga (2003) e Baixio das Bestas(2006), de Cláudio Assis 
– Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes 
– Árido Movie (2006), de Lírio Ferreira, e Cartola (2006), de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda

Campeões de audiência

Com a diminuição do tempo deexibição, as produtoras nacionais viram seus filmes terem o número de públicoreduzido drasticamente. Agora, fica difícil imaginar uma produção alcançar ofeito de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto, visto por mais de 12 milhões de brasileiros, com exceção de Tropa de Elite 2, que já alcançou 6 milhões de espectadores em menos de um mês. Orecordista foi produzido na LC Barreto, uma das produtoras mais importantes dahistória do cinema brasileiro e da América Latina, com um repertório de mais de80 produções e coproduções de curtas e longas-metragens, como Memórias do Cárcere (1984), de NelsonPereira dos Santos; O Casamento de Romeue Julieta (2005), de Bruno Barreto, e, recentemente, Lula, o Filho do Brasil (2010)de Fábio Barreto.

Outra grande responsável poratrair telespectadores para as salas de exibições de filmes nacionais é a GloboFilmes, criada em 1998. Aempresa já produziu cerca de 90 filmes e fez parcerias com mais de 40produtores independentes e distribuidores nacionais e internacionais. Somenteem 2009, com os 11 longas-metragens coproduzidos, atingiu mais de 14 milhões deespectadores (90% do público dos filmes brasileiros), entre eles, Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho com parceriacom a Total Entertainment, que levou mais de seis milhões aos cinemas. Asversões cinematográficas de O Auto daCompadecida (2000), de Guel Arraes; AGrande Família (2007), de Maurício Farias, e Os Normais 2 (2009), de José Alvarenga Jr., atingiram a marcasuperior a dois milhões de telespectadores cada.

A produtora O2, de FernandoMeirelles, Paulo Morelli e Andrea Barata Ribeiro, também garantiu seu nome nalista dos filmes mais assistidos. Cidadede Deus (2002) teve quase 3,4 milhões de espectadores e ainda recebeuquatro indicações ao Oscar de 2004, nas categorias Melhor Direção, Fotografia, Roteiroe Montagem, além de mais de 40 prêmios nacionais e internacionais, sendoconsiderado um dos cinco melhores filmes da década pelo site IMDB.

Publicidade + TV = Cinema

A Conspiração Filmes, fundadaem 1991 pelo grupo de amigos carioca Cláudio Torres, José Henrique Fonseca,Arthur Fontes, Andrucha Waddington e Lula Buarque de Hollanda, também estáacostumada com as boas repercussões de seus filmes. Dois Filhos de Francisco (2005) [à direita], de Breno Silveira, atraiu mais de cincomilhões de pessoas; A Mulher Invisível (2009), de Cláudio Torres, cerca de 2,3 milhões, e Xuxa em o Mistérioda Feiurinha (2009), de Tizuka Yamazaki, quase 1,3 milhão.

Mas nem sempre o cinema foi ofoco principal da produtora. No início, as atividades eram voltadas para osmusicais, videoclipes e, especialmente, campanhas publicitárias. Essestrabalhos consolidaram o nome da empresa e deram condições para filmagenscinematográficas, como Traição (1998), que lançou os cineastas da casa. “A Conspiração nasceu em um momentodifícil, em que fazer cinema era quase impossível. Havia várias restrições paraimportação de equipamentos (como câmeras, por exemplo), além de as poupançasterem sido confiscadas pelo presidente Collor e a Embrafilme, extinta”,relembra João Cláudio Abreu, diretor comercial de cinema e TV da Conspiração.

De lá para cá, a produtora jálançou 18 longas-metragens, entre eles, Casseta& Planeta – A Taça do Mundo é Nossa (2003), Casa de Areia (2005) e EraUma Vez… (2008). Até o final deste ano, a empresa coloca mais cincoproduções no mercado, como Eu e MeuGuarda-Chuva, de Toni Vanzolini. Os longas-metragens da Conspiração sãodistribuídos no Brasil e no exterior pela Columbia TriStar, Sony Pictures, SonyClassics, Warner Bros, Fox Films, Paramount e Buena Vista, e são produzidosatravés de parcerias de empresas atuantes no País – em breve, a empresa lança aprimeira coprodução internacional, Lope,feita entre Brasil e Espanha. “Acreditamos que esse processo de coproduçõesinternacionais é um caminho promissor e que deverá crescer bastante nospróximos anos”, acrescenta Abreu.

A Casa de Cinema de PortoAlegre, criada em 1987 pelos cineastas gaúchos Carlos Gerbase, Giba AssisBrasil, Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, viu que para fazer cinema erapreciso realizar um trabalho em conjunto com a televisão. No começo, as formaspara viabilizar a realização de filmes eram através da carteira de produção daEmbrafilme e de editais da Fundação do Cinema Brasileiro para a criação decurtas.  “A partir da repercussão dealguns de nossos filmes e das leis de incentivo, passamos a fazer coproduçõescom televisões estrangeiras (Channel 4 e ZDF) e agências internacionais(Fundações MacCarthur e Rockfeller). Eram os trabalhos para TVs de transmissãoaberta (Globo, RBS e TVE) e para TVs a cabo (HBO e Futura) que mantinham a produçãoentre um filme e outro”, afirma a cineasta Ana Luiza Azevedo.

Hoje, a Casa de Cinema dePorto Alegre é uma das mais reconhecidas fora do eixo Rio-São Paulo. Todos oslongas-metragens da empresa foram produzidos com a parceria de distribuidorasbrasileiras e estrangeiras, de empresas públicas e investimentos de empresasprivadas. Seu portfólio inclui a produção de O Homem Que Copiava (2003), MeuTio Matou Um Cara (2004) e SaneamentoBásico, O Filme (2007), todos de Jorge Furtado; e Antes Que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, em cartaz. “Esteúltimo é uma adaptação de um livro muito usado em escolas, por isso, estamosfocando o trabalho de pré-estreias para professores da rede pública e privada.A partir dessas exibições, muitas escolas adotaram o filme e o livro em seuprojeto pedagógico”, revela Ana Luiza. 

Cinema para Todos

A intenção de ampliar opúblico para o cinema nacional também é a preocupação da Buriti Filmes. Além daprodução de filmes de sucesso e com teor de reflexão, como Cine Mambembe, o Cinema Descobre o Brasil (1999), Bicho de Sete Cabeças (2001), Chega de Saudade (2008) e As Melhores Coisas do Mundo (2010), oscineastas Laís Bodanzki e Luiz Bolognesi [à esquerda] desenvolvem projetos para levar ocinema a cidades que não têm salas de exibição. O Cine Mambembe exibecurtas-metragens e o Cine Tela Brasil é a primeira sala itinerante do País -ambos oferecem filmes gratuitamente à população. Em mais de dez anos, essestrabalhos permitiram o acesso de 72 produções cinematográficas nacionais acerca de 700 mil pessoas em todo o Brasil, em mais de 300 cidades visitadas. “Noinício, saíamos pelo País levando projetor, tela e curtas-metragens na caçambade um carro, exibindo filmes em praças públicas, escolas, igrejas e até emaldeias indígenas”, relembra Laís Bodanzki.

Há três anos, a dupla criouas Oficinas Tela Brasil, que ensinam jovens de baixa renda a criar, produzir eeditar curtas-metragens (muitos deles já foram premiados em festivais). Já o PortalTela Brasil mostra virtualmente, a quem tiver interesse, todos os passos daprodução em audiovisual.

Esse tipo de ação tem dadobons resultados, como comprova a produtora Luz Mágica, de Renata AlmeidaMagalhães e Cacá Diegues. O filme 5 VezesFavela – Agora por Nós Mesmos foi escrito e dirigidopor jovens moradores de favelas do Rio de Janeiro. Todos eles participaram de oficinasprofissionalizantes de audiovisual dadas por nomes famosos do cinemabrasileiro, como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Walter Lima Jr., DanielFilho e Fernando Meirelles.

Fundada em 1987 por WalterSalles e João Moreira Salles, a VideoFilmes também se enveredou para a formaçãode novos nomes no cenário do cinema nacional. A produtora desenvolve um projetode apoio a futuros documentaristas e, de seis em seis meses, seleciona trêsprojetos, cedendo câmera, equipamento de pós-produção e apoio técnico para asua realização. Foi pela VideoFilme que Karim Aïnouz produziu Madame Satã, que Sérgio Machado fez Onde a Terra Acaba e que Luiz FernandoCarvalho concretizou seu primeiro longa-metragem, Lavoura Arcaica.

Entre os trabalhos realizadospela produtora dos irmãos Salles ainda estão Central do Brasil (1998) – que recebeu mais de 50 prêmiosbrasileiros e internacionais, além de ter sido indicado ao Oscar de MelhorFilme Estrangeiro e Melhor Atriz, com Fernanda Montenegro -, Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje (2003), Cidade Baixa (2005), O Céu de Suely (2006), Santiago (2008) e Quincas Berro D’Água (2010).

Recentemente, a VideoFilmesassociou-se à StudioCanal, uma das maiores produtoras de cinema da Europa, queterá o direito de lançar seus filmes na França, Reino Unido e Alemanha e de fazeras vendas internacionais para outros países. Um grande passo para o futuro docinema nacional.

Outras fábricas de cinema no Brasil

– HB Filmes, de Hector Babenco: Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia (1977); Pixote, A Lei do Mais Fraco (1980); O Beijo da Mulher Aranha(1986) e Carandiru (2003)

– Gullane Filmes, de Caio e Fabiano Gullane: Bicho de Sete Cabeças (2001); Benjamin(2004); O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006); Terra Vermelha (2008); Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009) eAs Melhores Coisas do Mundo (2010)

– Natasha Filmes, de Paula Lavigne: Lisbela e o Prisioneiro (2003); Meu Tio Matou Um Cara (2004) e O Coronel e o Lobisomem(2005)

– Dezenove Som e Imagem, de Carlos Reichenbach e Sara Silveira: Dois Córregos(1999); Ação Entre Amigos (1998); Bicho de Sete Cabeças (2001); Cinema, Aspirina e Urubus, É Proibido Fumar, Insolação e Os Famosos e os Duendes da Morte (2009)

– Morena Filmes, de Mariza Leão e Sérgio Rezende:  Guerra de Canudos (1997); Quase Nada (2000); Onde Anda Você (2004); Meu Nome Não É Johnny (2008); Salve Geral! (2009)

– Tambellini Filmes, de Flávio Tambellini: Janela da Alma (2002); Diabo a Quatro (2005) e O Passageiro, Pro Dia Nascer Feliz e Os Desafinados (2006)

– Anhangabaú Produções, Eliane Bandeira e Francisco Cesar Filho: A Concepção (2005) e Se Nada Mais Der Certo (2010), de José Eduardo Belmonte 

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