Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 14.02.2013 14.02.2013

Cineasta Marcelo Galvão revela como foi dirigir três protagonistas com síndrome de Down

Por Diego Muniz
 
Poucos filmes nacionais estreiam com uma bagagem de prêmios tão grande como Colegas. O longa-metragem, dirigido por Marcelo Galvão, entra em cartaz nos cinemas dia 1º de março e já conquistou prêmios internacionais na Itália e na Rússia. No Brasil, faturou o Festival de Gramado 2012 e foi eleito o Melhor Filme Brasileiro pelo público da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
 
Parte das conquistas se dá pela atuação de Ariel Goldenberg, Rita Pokk e Breno Viola, os três protagonistas com síndrome de Down. Em entrevista para o SaraivaConteúdo, Marcelo Galvão revelou como foi o trabalho de preparação dos atores e contou como aliou várias funções no filme.
 
Em que momento você decidiu fazer também a preparação de atores?
Marcelo. Sempre gostei de preparar os atores com quem vou trabalhar. É a coisa que mais me dá prazer de fazer cinema. No caso dos protagonistas do Colegas, resolvi trabalhar desde o princípio, principalmente para tirar a preocupação que tinha de eles travarem diante de uma produção de 70 pessoas. Os ensaios na produtora duraram quase quatro anos e sempre foram abertos; independente se era ator ou não, chegava um amigo e eu convidava para participar. A ideia era criar esses convívios com várias pessoas diferentes.
 
Como você aliou as funções de diretor, roteirista e preparador de elenco?
Marcelo. Até brinco com isso, porque tem gente que fala: “Você é bom pra caramba, escreve, produz e dirige”. E eu respondo: “Na verdade sou pobre, porque se tivesse dinheiro só iria escrever e dirigir”. Mas, em uma produção que você quer viabilizar a todo custo, é normal fazer muitas coisas. Gosto muito de escrever; minha base é a redação, era redator publicitário. Acho que tudo começa aí. Mas, para essa história virar realidade, acabei acumulando funções.
 
 Ariel Goldenberg e Rita Pokk 
 
Qual a diferença entre dirigir e preparar um ator?
Marcelo. Dirigir está muito ligado a ver tudo. Você olha para o ator, se preocupa com aquilo que foi preparado, confere se a luz está boa, presta atenção na direção de arte e ainda se preocupa com o som, para ver se não vazou. O diretor tem essa tensão com tudo, mas se não tiver um olhar no geral, acaba se perdendo na cena. E quando você faz uma boa preparação, o diretor ganha segurança.
 
Por se tratar de um filme em que os atores principais têm síndrome de Down, você teve algum cuidado especial?
Marcelo. A maior dificuldade foi conseguir gerenciar, de certa forma, a ansiedade deles. Toda hora eles me ligavam para saber se tinha ensaio. Até hoje, eles me ligam umas oito vezes, e isso é um negócio que tem que saber lidar. Fora isso, não existe o ego; há as birrinhas, mas são coisas bobas. Isso foi ótimo para a preparação, não tinha nenhum superego que impedia alguma coisa. Eles estavam superabertos a coisas novas. Estavam virando atores de cinema.
 
Ariel Goldenberg, Rita Pokk e Breno Viola
 
Como foi trabalhar as limitações dos protagonistas?
Marcelo. A maior limitação era na dicção. E a dificuldade era que você entendesse o que eles estão falando. Muitas vezes tem que pedir para fazer de novo, ou tirar parte do texto, ou até mesmo cortar. 
 
Em quais momentos eles te surpreenderam?
Marcelo. Em vários. O Ariel me surpreendeu na forma como decorava o texto. Eu fiquei muito impressionado. Não é uma coisa decorada, ele entende o texto e fala com sentimento o que está escrito. Era incrível. Os improvisos naturais também foram bacanas. Quando eu percebia que não estava rolando, deixava-os um pouco soltos e vinham coisas fantásticas.
 
Quando determinado personagem não avança como o esperado na preparação, o que você faz?
Marcelo. Tento entender para onde o personagem está indo. Acho que esse é o grande lance, não tento direcionar muito. Primeiro solto e vejo para onde vai. Às vezes você tem que ir contra a proposta do ator, mas muitas vezes tento desfiar dentro da linha que ele está propondo. Se ele tem uma personalidade engraçada e precisa fazer um papel de malvado, tento usar isso com humor negro, meio o que o Tarantino faz.
 
Os três protagonistas de Colegas
 
Como você fez para ganhar a confiança dos atores?
Marcelo. Com respeito. Não passando a mão na cabeça, não tratando como coitadinho. Era todo mundo igual. A equipe toda se respeitava, existe um diretor, tem uma hierarquia e não tinha por que ter colher de chá. Acho que essa estrutura já mostra a forma que funciona, e eles respeitaram, não só a mim, mas a todos.
 
Além do filme, os atores Breno Viola, Rita Pokk e Ariel Goldenberg também receberem o Kikito – Prêmio Especial do Júri. Como você vê esse reconhecimento?
Marcelo. Penso como deve ser legal para eles, porque eles servem de exemplo para os outros. Vejo que, para um monte de garotos, eles são heróis da comunidade Down. Não só exemplo de atuação, mas de superação. Vejo muita gente dita “normal” que olha para eles e vê o que conseguiram.
 
Participando de várias partes do filme, qual você acha que é o grande trunfo de Colegas?
Marcelo. É você entrar no cinema e esquecer que os atores têm síndrome de Down. Em cinco ou dez minutos que você vê o filme, entra na história e começa a torcer por eles, como se fossem quaisquer outros atores, não porque eles têm síndrome de Down. 
 
 
 
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