Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 24.10.2011 24.10.2011

Cine Paissandu: um abraço pela arte carioca

Por Bia Carrasco
Na foto ao lado, o Cine Paissandu de 1960
As nuvens que invadiram o céu carioca e trouxeram chuva durante todo o domingo (16/10) não foram o suficiente para quebrar o abraço simbólico ao Cine Paissandu (ato realizado para mobilizar a vizinhança e a classe artística carioca sobre a reabertura do lugar). Localizado no bairro do Flamengo, na capital do Rio de Janeiro, o cinema abriu suas portas pela primeira vez na década de 1960, sendo um importante centro de contracultura durante o regime militar. Lar da Geração Paissandu, grupo de jovens cinéfilos e intelectuais de esquerda, o local fomentou discussões sobre a sétima arte, política, história e cultura.
Com apenas uma sala de exibição, o Cine Paissandu foi marcado pela projeção de filmes que não costumavam ser exibidos no grande circuito comercial, como produções da nouvelle vague, cinema novo e de vanguarda. Após diversas buscas por novos patrocinadores, o estabelecimento foi fechado em 2008, deixando um vazio para o público da zona sul.
Sob várias formas
Três anos depois, a calçada em frente ao número 35 da Rua Senador Vergueiro foi ocupada novamente, desta vez para lançar um manifesto pela reabertura do espaço. No local, gerações se encontraram para assinar o documento que contou com cerca de 600 nomes. Senhor Aníbal, 75 anos, morador local e frequentador do cinema em sua época de ouro, emocionou-se ao ser informado sobre a iniciativa e, ao chegar ao local, ainda reencontrou uma amiga que não via há 15 anos.
À frente do projeto, Rodrigo Pinto e Leo Feijó pretendem manter a exibição de filmes, mas também abrir espaço para as artes cênicas, shows e performances, além de um café bistrô e uma loja de design. "A proposta multiuso é interessante porque garante sustentabilidade. É possível fazer um show para 1.500 pessoas em pé em um dia e, no outro, um musical para 500", diz Rodrigo.
A ideia para a revitalização do Cine Paissandu nasceu após o fim da Cinematheque Música Contemporânea, outro projeto realizado por Rodrigo e Leo. Localizada no bairro do Botafogo, a casa foi palco para o lançamento de vários artistas da nova MPB, como Maria Gadú e Fino Coletivo. Após o seu fechamento, em 2010, os empresários passaram a procurar um novo local em que pudessem fomentar discussões e exibições ligadas à área cultural.
Inspirado no mesmo conceito em que foi criada a Village Vanguard, tradicional casa de shows de Nova York, Rodrigo ressalta que é importante manter uma programação ativa. "As temporadas de shows não podem parar porque elas agem como formadora de público. Se o som é bom e a curadoria é competente, as pessoas começam a frequentar porque a própria marca passa a chancelar o artista", explica Rodrigo.
Para comportar o novo projeto, o espaço irá passar por uma grande reforma, com previsão de inauguração para julho de 2012. As 360 poltronas da antiga área principal serão substituídas por cadeiras removíveis em um ambiente para espetáculos. Como sala de projeção fixa, um mezanino com 100 lugares também será construído. No caso do "fumoir", tradicional área para fumantes do velho cinema, passará por uma renovação que pretende manter a memória afetiva, já que a Lei Estadual veta o fumo em locais fechados.
 
Imagem do projeto do novo Cine Teatro Paissandu
Segundo os organizadores, o Cine Paissandu ficará aberto durante o dia todo com diferentes atividades. Na parte da manhã, a ideia é lançar programações especiais, como sessões para escolas, terceira idade, mães com crianças de colo e música instrumental. Musicais, bailes comunitários com bandas estreantes, novos textos teatrais, peças infantis e debates também fazem parte do projeto.
O cinema de arte continua a ser prioridade, mas Rodrigo não descarta a possibilidade de eventuais lançamentos de hollywoodianos na sala maior. "Se fôssemos exibir o Tropa de Elite, por exemplo, promoveríamos um grande debate. Em um país tão rico culturalmente, precisamos ter uma discussão mais profunda sobre o papel da cultura na formação de público", ressalta Rodrigo.
 
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