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Cinco vezes favela, agora por nós mesmos

Por Cavi Borges e Luciano Vidigal
Fotos de Davi Marcos
 
 
Jovens de comunidades do Rio de Janeiro aprendem a fazer cinema com mestres como Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Fernando Meirelles, Walter Salles, Daniel Filho, João Moreira Salles e Cesar Charlone. São as Oficinas do projeto Cinco vezes favela, agora por nós mesmos, o primeiro filme totalmente escrito, dirigido e realizado por cineastas moradores de favelas cariocas.
 
Idealizado por Carlos Diegues, o projeto é inspirado no longa-metragem Cinco vezes favela, de 1961, um dos marcos inaugurais do Cinema Novo brasileiro. Diegues dividiu a direção do filme com Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges. 
 
As oficinas, responsáveis por formar novos profissionais do cinema, começaram no dia 13 de abril, com aula inaugural do cineasta Nelson Pereira dos Santos, e foram até  24 de maio. Ao todo o projeto recebeu 568 inscrições de diferentes comunidades cariocas e 208 jovens foram selecionados. 
 
Cinco vezes favela, agora por nós mesmos conta com o apoio de organizações sócio-culturais de moradores como a Central Única das Favelas/Cufa (Cidade de Deus), Nós do Morro (Vidigal), Observatório de Favelas (Complexo da Maré), AfroReggae (Parada de Lucas) e Cinemaneiro (com sede na Lapa).
 
Os mais importantes nomes do cinema brasileiro participam do projeto como palestrantes e professores das oficinas de fotografia, som, direção de arte, edição e elenco. Entre eles, nomes como Marcos Flaksman, Cesar Charlone, Lauro Escorel, Guto Graça Melo, Renata Almeida Magalhães, Manoel Rangel, Daniel Filho, João Moreira Salles, Camila Amado, além de outros cineastas e profissionais técnicos de cinema. Os alunos que se destacarem nessa etapa vão participar do filme. 
 
Em 2007, Cacá Diegues, o único diretor do filme original ainda em atividade, junto com a produtora Renata Magalhães, sócios da Luz Mágica Produções, idealizaram o projeto e deram início às oficinas de roteiro. Foram quase três meses de trabalho com 150 jovens para escrever os episódios de Cinco vezes favela, agora por nós mesmos. Agora o longa finalmente vai sair do papel. As filmagens começam nesta primeira semana de julho.


Filmagens do episódio "Deixa voar", de Cadu Barcellos

 
A seguir, Cacá Diegues conversa com o SaraivaConteúdo sobre o projeto.
 
 
QUAL FOI O PONTO DE PARTIDA PARA O PROJETO CINCO VEZES FAVELA? 
 
Cacá Diegues. Depois de mais de uma década de contatos com organizações culturais de favelas cariocas, iniciados com o filme Veja esta canção (1993), tive a idéia de produzir uma nova versão do Cinco vezes favela, de 1961, um formato criado pelo Centro Popular de Cultura da UNE, sob inspiração de Leon Hirszman. Só que, agora, em vez dos cinco universitários de classe média que o fizeram no passado, os episódios seriam escritos e totalmente realizados por jovens cineastas moradores de favelas cariocas. Assim que tive a idéia, eu e Renata Magalhães, minha sócia na produtora Luz Mágica, montamos cinco oficinas de roteiro em cinco comunidades do Rio, com o apoio de organizações locais: em Cidade de Deus (com a Central Única de 
Favelas/CUFA), Vidigal (com o Nós do Morro), Complexo da Maré (com o Observatório de Favelas), Parada de Lucas (com o Grupo Cultural AfroReggae) e na Linha Amarela (com o Cinemaneiro/Cidadela). Os alunos de cada oficina escolheram os argumentos pelo voto e depois desenvolveram coletivamente os roteiros. 
 
 
FALE UM POUCO SOBRE O PROCESSO DAS OFICINAS DE PREPARAÇÃO TÉCNICA.
 
Cacá. As oficinas duraram sete semanas, com uma aula inaugural do “mestre inaugural” Nelson Pereira dos Santos. 603 jovens moradores de favelas se inscreveram para essas oficinas, mas só foi possível atender a pouco mais de 200, devido aos recursos disponíveis e à viabilidade 
prática das aulas. Os selecionados escolheram as áreas de sua preferência (produção, direção, fotografia, arte, edição, finalização, interpretação) e começaram a ter aulas diárias, incluindo sábados e domingos, com professores como Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Dib Lutfi, Camila Amado, Guto Graça Mello, Lauro Escorel, Marcos Flaksman e muitos outros. Além das aulas regulares, os alunos tiveram à sua disposição uma sala de projeção e computadores para que vissem os filmes indicados pelos professores e outros de seu interesse pessoal, de um acervo que pusemos a seu alcance, através de acordo com a Cavídeo. As oficinas aconteceram na sede da Rio Filmes, nossa parceira no projeto.
 
Toda segunda-feira, todos os alunos se reuniam para uma palestra coletiva, uma troca de experiências com algum profissional do cinema brasileiro. Eles ouviram Manoel Rangel (presidente da Ancine, sobre “A gestão do cinema brasileiro”), Cesar Charlone (diretor de fotografia de Cidade de Deus e Ensaio sobre a cegueira, sobre “A imagem cinematográfica”), Daniel Filho (diretor de cinema e TV, com o tema “Cinema e televisão”) , João Moreira Salles (o mais importante documentarista brasileiro, falando sobre “Técnica e ética do documentário”), Fernando Meirelles (diretor de Cidade de Deus, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira, abordando “A ficção cinematográfica”) e Walter Salles (diretor de Central do Brasil, analisando o “Cinema contemporâneo”).
 
 
QUANDO COMEÇAM AS FILMAGENS?
 
Cacá. Nesta primeira semana de julho. Os cinco episódios serão realizados em seis semanas, consecutivamente um ao outro. A produção é de Renata Magalhães, com coordenação-geral minha, co-produção da Rio Filme e Globofilmes, apoio da TeleImage, Videofilmes e Quanta, e patrocínio, através das leis de incentivo, do BNDES, Light, LAMSA (Linhas Amarelas) e MMX (Eike Batista). O filme deve estrear no fim do ano, em todo o Brasil, distribuído pela Sony/Columbia.
 
 
QUAL A FINALIDADE COM ESTES JOVENS ENVOLVIDOS NAS OFICINAS?
 
Cacá. Não estamos preparando apenas mão-de-obra para o mercado de trabalho formal do cinema brasileiro, mas também treinando esses jovens cineastas para que se tornem porta-vozes deles mesmos, como agentes e testemunhas da vida em suas comunidades. O que eles têm a dizer e o modo de dizê-lo deve ter uma grande contribuição à linha evolutiva do cinema brasileiro.
 
  
VOCÊ ACREDITA QUE ESSA GALERA PROVENIENTE DE COMUNIDADES E FAVELAS PODEM TRAZER ALGO NOVO PARA O NOSSO CINEMA?
 
Cacá. Se não acreditasse nisso, não estaria promovendo esse projeto. Esse é o ponto central de Cinco vezes favela, agora por nós mesmos: se integrar à economia formal do cinema brasileiro, trazendo com ele uma contribuição transformadora.
 
 
QUE CRITÉRIO VOCÊ USOU PARA ESCOLHER OS DIRETORES DOS EPISÓDIOS?
 
Cacá. Os diretores foram escolhidos ao final das oficinas de roteiro, em função de seu aproveitamento nelas e do currículo de cada um em seu trabalho audiovisual. Eu já estava acostumado a ver os filmes deles e sabia o que cada um poderia realizar neste novo projeto. Procuramos também entregar a direção de cada filme, na medida do possível, àqueles que estivessem de algum modo ligados ao roteiro escolhido e desenvolvido em cada comunidade. 
 
 
QUAL A IMPORTÂNCIA DA FAVELA NO CINEMA?
 
Cacá. Acho que a pergunta mais correta seria a inversão dessa: qual a importância do cinema na favela? Acho que é antes de tudo a integração de seus moradores na sociedade brasileira, gozando de todos os seus direitos de cidadão, inclusive a oportunidade que o resto da população possa ter. Uma integração a partir da interpretação da favela pelos seus próprios moradores, capazes de olhar para essas comunidades com um olhar original e pertinente, livre dos preconceitos do resto da sociedade. Cinco vezes favela, agora por nós mesmos é um assalto, uma invasão do centro pela margem, através do cinema.
 
 
VOCÊ ACREDITA QUE UM DIA O CINEMA SE TORNE UMA ARTE POPULAR E DE ACESSO PARA TODOS? 
 
Cacá. Acho que, com as novas tecnologias, estamos caminhando cada vez mais rapidamente para isso. Lembro-me de Francis Ford Coppola afirmando, na época de Apocalipse Now, que o cinema só seria uma grande arte, merecedora do respeito que as outras têm, no dia em que um jovem filho de operário fizer um filme, desses realizados no fim de semana, e descobrirmos que ele é um Giotto ou um Mozart. 
 
 
QUAIS SUAS EXPECTATIVAS?
 
Cacá. Completar a produção de Cinco vezes favela, agora por nós mesmos, ajudando a cada um de seus realizadores a fazer, da melhor maneira possível, aquilo que eles desejam expressar. O filme é deles. 
 
CONHEÇA OS EPISÓDIOS
 
“Arroz com feijão”, argumento de Zezé da Silva; direção de Rodrigo Felha e Cacau Amaral. Wesley tem 12 anos de idade e sonha dar ao pai, que só come diariamente arroz com feijão, um presente de aniversário inusitado: uma refeição de frango.
 
Cacau Amaral, 36 anos. Teve várias experiências com audiovisual na CUFA – Central Única da Favelas, incluindo institucionais, curta metragens e videoclipes. Além de seu trabalho com cinema, Cacau, morador de Caxias, também é rapper.  
 
Rodrigo Felha, 29 anos. Mora na Cidade de Deus e vem participando de diversas produções audiovisuais com a CUFA. Foi câmera e editor do documentário “Falcão, Meninos do Tráfico”. Trabalha com Cacau Amaral desde 2003, quando realizaram o clipe “Ataque Verbal”, de MV Bill.  
 
 
“Deixa voar”, argumento e direção de Cadu Barcellos. A pipa de Flávio, de 17 anos, cai na favela de uma facção do tráfico rival à da sua comunidade; obrigado a ir recuperá-la, ele descobre que as duas comunidades não são em nada diferentes uma da outra.
 
Cadu Barcelos, 22 anos. Integrante do grupo Observatório de Favelas, no Complexo da Maré, Cadu Barcelos é autor da única trama a abordar a questão do tráfico em Cinco vezes favela – agora por nós mesmos. Aluno do curso de Audiovisual na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Cadu dirigiu um curta para o Canal Futura. 
 
 
“Concerto para violino”, argumento de Rodrigo Cardozo da Silva; direção de Luciano Vidigal. Jota, Pedro e Márcia cresceram juntos, numa mesma comunidade; quando crianças, eles fizeram um juramento de amizade que, agora adultos com diferentes destinos, não têm mais como cumprir.
 
Luciano Vidigal, 29 anos. Aluno há dezessete anos do grupo Nós do Morro, o ator e diretor Luciano Vidigal, 27 anos, foi escolhido para dirigir o curta cujo roteiro foi desenvolvido pelos alunos da ONG Afroreggae. No currículo, Luciano traz a direção do premiado curta Neguinho e Kika, exibido, inclusive, no Festival de Marselha (França).
 
 
“Fonte de renda”, argumento de Vilson Almeida de Oliveira; direção de Manaíra Carneiro e Wavá Novais. Maicon realiza seu sonho de passar no vestibular de Direito, mas agora precisa arranjar dinheiro para pagar seus estudos, livros e cadernos. 
 
Manaíra Carneiro, 21 anos. Moradora de Higienópolis, Manaíra teve sua primeira experiência com cinema no curso do Cinemaneiro em 2002. Aluna da Escola Técnica de Audiovisual, a jovem cineasta fez o curso Geração Cultura, no qual produziu vídeos para o Canal Futura. Com a experiência de quem, mesmo tão nova, já contabiliza a direção de seis curtas e está dirigindo outro, Café sem chantilly, com o grupo Cinemaneiro.  
 
Wagner Novais, 25 anos. Estudante de Cinema da Universidade Estácio de Sá, é morador da Taquara. Participou de diversas produções na faculdade e no grupo Cinemaneiro, onde dirigiu três filmes em vídeo. A direção do episódio "Fonte de renda" será sua primeira experiência com película.  
 
 
“Acende a luz”, argumento e direção de Luciana Bezerra. Na véspera do Natal, o morro está sem luz e os técnicos chamados não conseguem resolver o problema; até que um dos técnicos se torna refém da comunidade que não quer passar o Natal às escuras. 
  
Luciana Bezerra, 34 anos. Uma das coordenadoras do grupo Nós do Morro, a atriz e cineasta trabalha há 14 anos no setor audiovisual. Como diretora, realizou cinco curtas, entre eles Mina de Fé, Hércules e Sebastião. Em Cinco vezes favela, agora por eles mesmos, Luciana é argumentista e diretora do curta Acende a luz, roteirizado pela oficina do grupo Nós do Morro.
 
 
> Cacá Diegues na Saraiva.com.br
 
 
 
 

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