Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 26.08.2010 26.08.2010

Cinco vezes favela, agora por nós mesmos, cinema brasileiro com olhar lírico e engajado

    PorRamon Mello
    Foto de divulgação

Cinco vezes favela – Agora por nósmesmos reúneem cinco episódios, histórias concebidas e realizadas por jovens cineastas,moradores de favelas cariocas. O longa-metragem tem como referência o Cinco vezes favela de 1962, em que cincojovens universitários de classe média – Miguel Borges, Joaquim Pedro deAndrade, Marcos Farias, Leon Hirszman e Cacá Diegues – fizeram um filme em queo tema central era as favelas do Rio. O filme, que entra em cartaz nesta sexta,26 de agosto, foi produzido por Diegues e Renata Almeida Magalhães.

Destavez, as 946 comunidades do Rio de Janeiro estão representadas através do olhar dospróprios moradores da comunidade, com Manaíra Carneiro, Wagner Novais, RodrigoFelha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra. Osjovens cineastas escolhidos começaram a trabalhar em organizações culturaiscomo Cufa (Cidade de Deus), Nós do Morro (Vidigal), AfroReggae (Parada deLucas) e Observatório das Favelas (Complexo da Maré).

Háquatro anos, mais de 200 jovens participaram de oficinas de preparação técnica,com professores como Fernando Meirelles, Ruy Guerra, Walter Salles, Dib Lutfi,Daniel Filho, entre outros cineastas consagrados, e começaram a escreverargumentos e a desenvolver coletivamente os roteiros – 84 jovens foramselecionados para trabalhar nas gravações. A aula inaugural foi com o mestre,diretor e acadêmico Nelson Pereira dos Santos. E o elenco foi preparado pelatambém atriz Camilla Amado.

> Leia entrevista com Cacá Diegues sobre o projeto

> Confira entrevista com Fernando Meirelles, que participou das oficinas com os jovens

 

Lirismo em episódios

Cinco vezes favela – Agora por nósmesmos, que ganhou sete prêmios noFestival de Paulínia de 2010, incluindo o de Melhor Filme para o júri oficial epara o júri popular, tem diferentes histórias que dialogam mais com a comédiado que com o drama. Talvez por isso, a sensação “happy end” incomode osespectadores. O lirismo está presente até mesmo em episódios com desfechotriste. 

Oprimeiro deles, “Fonte de renda”, de Manaíra Carneiro, faz uma crônica da vidade um jovem universitário, Maicon (Silvio Guindane), morador de comunidade, queconsegue ingressar na faculdade, mas tem dificuldades para manter os estudos. Oator sustenta o personagem com veracidade, mas o roteiro direciona para umdesfecho moral e clichê.

“Arrozcom feijão”, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, aborda o drama e a aventura domenino Wesley (Juan Paiva) e seu melhor amigo, Orelha (Pablo Vinicius) parapresentear o pai (Flávio Bauraqui) com uma refeição diferente do arroz e feijãode todo dia. Os atores e o roteiro são excelentes. No entanto, há momentosdesnecessários, como a explicação do pai para o fato de não conseguir comerfrango, que beiram ao melodrama.

“Concerto para violino”, de Luciano Vidigal, é o episódio que mais seaproxima da estética “pobreza & violência”, excessivamente utilizada emfilmes como Cidade de Deus e Tropa de elite. No entanto, trata-se dahistória mais bem executada, com atuações impecáveis de Samuel de Assis (o PMAdemir), Feijão (o chefe do tráfico, Tiziu), e Thiago Martins (Jota, rival deTiziu).

“”Deixavoar”” (foto acima), de Cadu Barcellos, é o mais criativo e lírico, onde o territóriodemarcado por facções rivais do tráfico de drogas é o que estabelece o limitedas relações sociais. Com um roteiro bem construído, o espectador acompanha a históriados meninos que soltam suas pipas na laje dos casebres para romper com o cerceamentoda liberdade.

“Acendea luz”, de Luciana Bezerra, o último episódio do filme, retrata um contobaseado em experiência dos moradores, quando ficaram sem luz na véspera doNatal de 2008. O ator Marcio Vitto, que interpreta o técnico de luz encarregadode resolver o problema da comunidade, faz seu trabalho com maestria. Comtípicos personagens da classe média, a história pode confundir-se com um trechode uma novela das oito. A narrativa final destaca o espírito coletivo dacomunidade, que norteia o projeto em si.

Com erros ou acertos, ofato é que este projeto permite que os moradores de comunidades, cineastas,contem suas próprias histórias. Seja pela busca de linguagem ou pela necessidadede retratar a realidade através de um olhar único, o filme Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos é imprescindível paraquem se interessa pelo cinema brasileiro.

 

> Assista ao trailer do filme Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos

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