Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.01.2012 17.01.2012

Cidades Literárias: um passeio pela história da literatura em Paris

Por Carolina Cunha
A livraria Shakespeare and Company, especializada em literatura inglesa
 
Meca dos escritores, cidade das luzes, capital da arte. Paris respira literatura. Nenhum outro lugar atraiu tantos escritores em busca de um lar e de inspiração criativa como a capital francesa. E essa atmosfera não fica só no passado.
 
Hoje, Paris tem mais de 900 livrarias, 240 sebos e 70 bibliotecas públicas que abastecem as novas gerações de leitores.
 
Os apaixonados por literatura devem andar em Paris a pé ou de metrô, sempre sem pressa, para observar os detalhes e as pistas deixadas pelos escritores que ali viveram.
 
Quando menos se espera, algo chama atenção. Seja uma avenida com nome de poeta, um pequeno sebo ou mesmo uma simples estátua de escritor.
 
Em Paris, todos os dias é possível ser um flâneur.
As regiões de St-Germain-des-Près e Quartier Latin
A primeira parada é o histórico bairro boêmio de Saint-Germain des Près, repleto de livrarias, galerias, antiquários, editoras e lojas.
 
Na rua Bonaparte, 24, está o hotel em que morou o escritor americano Henry Miller. De lá, caminhe até a rua de Buci para encontrar o apartamento – mais precisamente o número 10 – onde o poeta Arthur Rimbaud passou uma temporada. Foi ali que, um dia, ele tirou as roupas, jogou-as pela janela e caminhou rua abaixo pelado, escandalizando o bairro.
 
Na mesma região, a rua Jacob guarda em sua história a antiga casa que recebia o salão literário de Nathalie Barney, famoso nos anos 1920, e também o Hôtel d'Angleterre, onde moraram os escritores Ernest Hemingway e Djuna Barnes.
 
O escritor George Orwell morou no número 6 da rua Pot de Fer. Já o lar da escritora americana Edith Wharton ficava na rua de Varenne. Ainda nos arredores, na rua Beaux-Arts, está o L'Hotel, onde, no final de suas vidas, moraram Oscar Wilde e um dos seus fãs mais ilustres, o escritor argentino Jorge Luis Borges.
 
Os cafés
 
Ao visitar os cafés literários de Paris, pegue um jornal, tire o moleskine da bolsa e peça uma taça de vinho ou uma xícara de café. Inspire-se pela atmosfera e escreva. Alguns dos romances mais famosos de todos os tempos foram escritos assim, nessas “instituições” parisienses.
 
Comece pelo Lês Deux Magots. Era ali que, todas as manhãs, entre reflexões sobre o ser e o nada, o casal existencialista Sartre e Simone de Beauvoir costumava escrever. Hoje, aos domingos, é comum acontecerem eventos de leitura dos textos da dupla. O café também dá nome a um importante prêmio literário francês, que existe desde 1933.
 
Lês Deux Magots
 
A poucos metros fica o charmoso Café de Flore. Em 1917, seu terraço abrigava calorosas discussões promovidas pelo núcleo francês do Dadaísmo e André Breton, criador do movimento literário surrealista.
 
O café também era considerado o “escritório” do poeta Guillaume Apollinaire, ligado ao cubismo. Já nos anos 1930, foi frequentado pelo poeta e romancista Raymond Queneu e o ensaísta Georges Bataille. 
 
Desça a Boulevard Saint-Germain e vire na Rue de l'Ancienne Comédie. Fundado em 1686, o luxuoso Le Procope se orgulha de ser o primeiro café da França.
 
O local conquistou o paladar dos escritores Balzac, Victor Hugo e La Fontaine, além dos dramaturgos Molière e Racine. Seu passado político também chama a atenção.
 
Da Enciclopédia à Revolução Francesa, suas paredes já testemunharam todo tipo de revolução e ideias iluministas. Foi ali que, no século 18, Benjamin Franklin escreveu a redação da declaração de independência dos EUA.
 
Destaque ainda para a centenária Brasserie Lipp, um típico restaurante francês que serve bebidas e pratos de influência alemã. Lá, Marcel Proust era fã da cerveja, e Antoine de Saint-Exupéry tomava champagne.
 
Ernest Hemingway gostava do pommes à l'huile acompanhadas de salsichas, iguaria que até hoje se encontra no cardápio da brasserie.
 
Ernest Hemingway, em Paris, em 1924
 
E depois do café e do jantar, que tal visitar as duas livrarias históricas da praça Saint-Germain-des-Prés? Fundada em 1949, a La Hune fica aberta até meia-noite e era a preferida dos poetas André Breton e Henri Michaux. Já as vitrines da L'Écume des Pages são um convite irresistível. Com obras até o teto, a loja é daquelas que tem cheiro de livro.
Na rota dos beatniks
Na travessa da rua Git-le-Coeur, 9, encontra-se o antigo Beat Hotel, apelido de um albergue barato onde viviam os poetas da geração beat dos anos 50 e 60. William S.Burroughs terminou ali a obra Almoço Nu, e Allen Ginsberg começou o poema Kaddish. Hoje, o endereço abriga um hotel quatro estrelas.
E por falar em beatniks, não se espante se, ao andar perto da igreja de Notre Dame, na rua de La Bûcherie, você encontrar uma pequena multidão em frente a uma portinha verde. Assim como faziam os poetas beatniks há 50 anos, essa pode ser mais uma leitura na livraria Shakespeare and Company, especializada em literatura inglesa.
Fundada em 1951, seu nome é uma homenagem à lendária livraria homônima dos anos 1920, época em que Sylvia Beach, uma espécie de “madrinha” dos escritores expatriados, atendia aos pedidos de gente como Gertrude Stein, Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald.
 
Sylvia também foi responsável por acreditar no potencial de James Joyce e publicar a primeira edição do livro Ulisses.
Misto de livraria e biblioteca, a Shakespeare and Co. também é conhecida por uma proposta inusitada: oferecer abrigo a escritores em início de carreira.
 
Com o apoio dos donos, os escritores podem utilizar as camas localizadas entre os livros e ainda trabalhar em seus projetos literários.
 
Em troca, devem ler um livro por dia e doar algumas horas de trabalho. Mais de 40 mil pessoas de todos os cantos do mundo já toparam a experiência.
No burburinho de Montparnasse
Depois da primeira Guerra Mundial, o bairro de Montparnasse foi adotado como refúgio boêmio e tornou-se o lar de uma nova e inquieta comunidade de artistas.
 
No número 27 da rua Fleurus, encontrava-se o ateliê onde viviam Gertrude Stein e Alice B. Toklas. O bairro também foi endereço de Ezra Pound, Picasso, T. S. Elliot, Marcel Duchamps e Jean Cocteau. Todos eles conviviam juntos no vaivém frenético do bairro.
O Boulevard du Montparnasse é o coração da região e também concentra diversos cafés históricos. Desde que o Le Dome abriu as portas, em 1898, a rua virou um agitado ponto de escritores e artistas.
 
Depois veio o La Rotonde (1910), onde Matisse e Modigliani jantavam juntos e até pagavam a conta com seus desenhos; Man Ray conheceu sua amante Kiki; e Charles Chaplin anunciou a criação da companhia de cinema United Artists.
 
La Rotonde
 
Em 1925, foi aberto o Le Select, e logo depois o La Coupole (1927), um dos favoritos de Samuel Beckett. Na varanda florida do La Closerie des Lilas, Ernest Hemingway escreveu as primeiras páginas de O Sol Também se Levanta.
 
Seguindo pela rua Delambre, está o Cemitério de Montparnasse, que guarda os restos mortais de ilustres como Oscar Wilde, Baudelaire, Julio Cortázar, Susan Sontag, Samuel Beckett e Tristan Tzara. Se você topar com o jazigo do seu autor favorito, que tal deixar flores ou um bilhete para agradecer suas palavras?
Cruzando o Rio Sena
 
As avenidas que margeiam o Rio Sena guardam uma tradição que passa de pai para filho. É o “le bouquiniste”, o ofício de livreiro que vende livros usados, postais e revistas.
 
Lá estão centenas de barraquinhas que ocupam a área desde o século 16. Cruzando a margem direita, os leitores de plantão também podem encontrar raridades literárias no Marché du Livre Ancien et d'Occasion, um galpão que, aos finais de semana, vira um grande mercado de livros usados, com mais de sessenta expositores. Com sorte, é possível encontrar livros do século 19 por preços bem acessíveis.
 
A Maison de Victor Hugo, na Place des Vosges, é onde o autor de Os Miseráveis viveu de 1832 a 1848. A casa do escritor é hoje um museu.
 
Outro ponto interessante é o Musée de la Vie Romantique, dedicado ao período romântico da literatura e à baronesa Dudevant, escritora do século 19 que escrevia romances sob o pseudônimo de George Sand.
 
Além de um rico acervo, muitas bibliotecas em Paris são verdadeiras joias arquitetônicas. A mais antiga do país é a Mazarine, fundada em 1643. Com vista para o Louvre, ela guarda o acervo original dos livros do Cardeal Mazarin, primeiro-ministro da corte do rei Luís 14.
 
No século 19, o arquiteto Henri Labrouste (1801-1875), famoso por seu trabalho com ferro, projetou duas obras-primas: a Bibliothèque Nationale, que possui uma cúpula com claraboia de vidro, permitindo a entrada da luz natural em meio aos milhares de livros, e a Bibliothèque Ste. Geneviève e sua imponente sala de leitura com colunas e abóbadas de ferro. “Eu inaugurei a minha nova existência subindo as escadarias da Bibliothèque Ste. Geneviève”, escreveu Simone de Beauvoir no livro Memórias de uma Moça Bem-Comportada.
 
O turista que busca conhecer um pouco da atual cena local literária pode gostar da La Maison Poesie, uma casa de cultura na rue Saint Martin com dois salões que recebem espetáculos, mostras e performances de poetas e artistas.
 
O centro cultural Au Petit Palais também oferece uma programação literária com palestras e saraus. Outro bom programa são as noites de poesia do Culture Rapide, um café do bairro de Belleville que reúne a nova geração de poetas da cidade.
 
O forte são as noites de slam poetry, eventos em que os poetas competem entre si. Africanos, americanos, estudantes e performers costumam se apresentar por lá. Um caldeirão cultural que reflete a diversidade da atual cena literária da França.
 
 
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