Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 15.12.2011 15.12.2011

Chiquinha distribui humor e patadas com sua Elefoa Cor-de-rosa

Por Rafael Roncato
A personagem Elefoa
 
Fabiane Bento Langona, também conhecida como Chiquinha, é uma gaúcha de 27 anos que vê sua Elefoa cor-de-rosa ganhar pela primeira vez as páginas dos livros com seu humor áspero sobre o universo feminino.
 
Em Uma Patada Com Carinho – As Histórias Pesadas da Elefoa Cor-de-rosa, Chiquinha reuniu as melhores e mais engraçadas histórias com essa paquiderme que já deu as caras, cor e formosura pelos jornais Zero Hora e Diário de Pernambuco. Mas a Elefoa não está sozinha, ela suporta e debocha dos dilemas e questões das mulheres ao lado de Gisbelle (uma vaidosa girafa loura natural) e Janete (uma ursa com tendências socioambientais).
 
Como uma das poucas garotas do humor em quadrinhos, Chiquinha foi conquistando seu espaço e divulgou seu trabalho no meio impresso e virtual, passando pelos jornais Folha de S. Paulo, Le Monde Diplomatique e revistas como Bravo!, VIP, Gloss, Caros Amigos e MAD. E tem a aprovação de grandes cartunistas como Allan Sieber e Ota
 
Quando foi que a Elefoa deu suas primeiras patadas? Conta um pouco sobre quando você criou essa paquiderme…
 
Chiquinha. Foi na época da faculdade. Tava rascunhando alguns bichos no intervalo e ouvindo som; lembro bem que disco era O Inimitável e a música: "Nunca vou Deixar você tão Só". A imagem daquela elefantinha chorando e ouvindo Roberto Carlos me comoveu. Comecei a desenhar ela sempre. “Se na sua estrada, não houve Flor, foi só tristeza enfim’’.
 
Gisbelle e Janete já apareciam nas primeiras histórias? Como elas apareceram?
 
Chiquinha. Não. Era Elefoa solo, com a esporádica presença de alguns elefantes do sexo oposto. Mas coadjuvante é importante, e senti que a coitadinha da Elefoa tava cansada de falar sozinha, precisava descolar umas amigas. Agora, quando e como elas apareceram, gente, eu não lembro direito. A Janete, lembro que era só a namorada de um personagem mais antigo ainda, "Ursão Bobão", de outro núcleo. Troquei ela de novela.
 
Quanto tem de Elefoa em você?
 
Chiquinha. Na medida que deve existir entre o criador (autor) e criatura (personagem). Sou a deusa da Elefoa (risos!). Ué, pode ser. Acho válida a identificação.
 
Em quem você daria uma patada com carinho?
 
Chiquinha. Agora só consigo pensar em uma patada sem carinho. Uma patada na sociedade.
 
Como você descreve o seu tipo de humor? Por ser jornalista de formação, acredita que ajuda ainda mais a pensar nessas histórias de comportamento e costumes de uma forma humorada, mas também crítica?
 
Chiquinha. Não sei descrever esse tipo de coisa. Humor mal humorado? Só sei que nem a faculdade de jornalismo me libertou da prolixidade textual. Acho que o fato de ser cartunista influenciou mais meu texto jornalístico do que o contrário.
 
No posfácio do livro, Ota conta uma história interessante sobre receber pelo Otto Guerra um bilhete de uma maluca de Porto Alegre (você!), que, na verdade, era uma HQ num guardanapo. Você acha que, se nunca tivesse mandado esse guardanapo, não teria conseguido o espaço e a motivação necessária para hoje em dia?
 
Chiquinha. Acho. Adoro essas obras do acaso. Nunca imaginei que começaria a desenhar profissionalmente por causa de um guardanapo. É até romântico.
 
Aproveitando essa pergunta, como foi que você começou a fazer quadrinhos? Quais são os quadrinhos e quadrinistas que são referências para você?
 
Chiquinha. Sinto como se tivesse absorvido essa linguagem muito cedo. Sentia isso muito presente e me pareceu sempre muito natural me expressar nesse formato. Antes da internet, da profusão do quadrinho em livraria, somado ao desaparecimento das publicações em banca e jornal e tudo o mais, ficava em sebos catando revista velha e comprava tudo. Aí que comecei a conhecer também as influências estrangeiras dos autores brasileiros que eu já amava desde pequena; a partir de tudo isso, comecei a fazer minhas primeiras HQs.Autores do coração: Ota, Allan, Adão, Angeli, Zimbres, Wolinski, Laerte, Sacco, Crumb, Schulz,Kaz, Linda Barry, Marjane Satrapi, Jim Woodring.
 
A quadrinista Chiquinha
Crédito foto: Luiz Pellizzari
 
Há muita citação de música no livro, como também em outros desenhos. O que você escuta de música? Isso ajuda a pensar em histórias ou situações nos desenhos?
 
Chiquinha. Muito. Estou sempre escutando som, e quando não são discos, é rádio. Sou meio viciada em rádio, acho que peguei isso do meu pai. Antes mesmo de ir ao banheiro, quando acordo, tenho que ligar o botão do rádio pra ouvir as notícias. Desenvolvi ao longo da vida um pequeno "toc radiofônico". O que eu escuto de música, nossa, é tanta coisa, algo que vai dos anos 20 aos 90, passando superficialmente pelas últimas décadas. Ultimamente, Sidney Bechet, Jacildo e seus Rapazes,Fela Kuti, Dusty Springfield, Neil Young…
 
Você é uma das poucas mulheres a fazer humor em quadrinhos no Brasil. Rola uma pressão?
 
Chiquinha. Já me senti bem pressionada logo que comecei. Sofria, cheia dos questionamentos, até porque não via tudo aquilo como uma escolha consciente, e sim como uma necessidade de me expressar, desde muito antes de rolar essa onda de quadrinhos em profusão. Me sentia meio sozinha. Depois que fui começar a conhecer outras quadrinistas e pensar "como é que existe tanta gente maravilhosa bem debaixo do meu nariz e eu não conhecia?" Fui atrás.Fiz uma revistinha independente chamada Bananas com uma amiga, a Cynthia B! Estamos invadindo o Clube do Bolinha.O que acho meio assustador é o surgimento de uma possível segmentação, como se moças que fazem quadrinhos – quadrinhos de humor –  só pudessem fazer piadas sobre o mundo da mulher em si. A Elefoa é uma tentativa de rir disso tudo, claro. O que acho inadequado é se fazer surgir uma legião de cartunistas monotemáticas.
 
Acredita que ainda há preconceito com mulheres fazendo quadrinhos?
 
Chiquinha. Tudo que é novo, ou meio diferente, causa estranhamento. E acho que já foi bem pior. Estamos evoluindo.
 
Você tem planos para histórias mais longas ou pretende continuar com histórias mais curtas dos cartuns?
 
Chiquinha. Gosto de tentar fazer de tudo. Vamos ver o que vai rolar daqui pra frente. Mas estou tentando trabalhar numa história maior também, de terror. Mas, em contraponto, também estou com vários rascunhos de HQs daquele formato que é mais comum ao meu trabalho, de uma página, duas.
 
Tirinha da Elefoa Cor-de-Rosa
 
 
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