Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 18.06.2014 18.06.2014

Chico Buarque 70 anos: O Compositor

Por Felipe Candido
Em 19 de junho de 1944 nascia Chico Buarque, um dos nomes mais representativos da cultura brasileira e que em 2014 celebra 70 anos de idade.
Para finalizar nossa série em homenagem a Chico, relembraremos a trajetória que, certamente, marcou com maior afinco o nome do artista em nossas artes: a de compositor.
A carreira musical de Chico Buarque teve início nos anos 60 e revelou um compositor promissor, com grande lirismo, melodias elaboradas e apuro na criação das letras. “Já nas primeiras composições do jovem Chico Buarque, podemos perceber maturidade musical e poética. Ainda que suas primeiras canções apresentassem ligeira ingenuidade e apego ao passado, o grande poeta já havia se revelado. Com o passar dos anos e maior relação social e política, a obra do compositor ganha novos contornos, dialogando com a realidade atual, sendo voz para crítica. Mais tarde, Chico se refugia novamente no tom lírico, criando canções com tom mais maduro e com a sabedoria que só a idade pode nos proporcionar”, afirma Mario Hernandez, cientista social e pesquisador musical.
A INGENUIDADE DOS PRIMEIROS ANOS
Chico Buarque iniciou sua trajetória musical em 1965, com a edição de compacto simples, que continha as canções “Pedro Pedreiro” e “Sonho de um Carnaval”, ambas de autoria própria. Mas a consagração popular aconteceu no ano seguinte, com a participação do cantor, ao lado de Nara Leão, no Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela Rede Record, com uma composição que se tornaria um dos grandes clássicos de nossa música: “‘A Banda’ é a canção mais sintomática do período inicial da obra musical de Chico Buarque. Além de ser a obra que impulsionou a carreira do compositor, também é representativa do que era a produção do músico naquele momento. A canção trata, com lirismo, a busca pela felicidade se ligando ao passado. Nela está o saudosismo e a nostalgia que marcaram a primeira fase musical de Chico Buarque. É como se a real felicidade não pudesse ser encontrada no presente. Ela sempre está no passado, na infância, em tempos idos”, relembra Mario.
Ao lado de “A Banda”, outras famosas músicas do compositor desse período também buscam o passado como refúgio para encontrar a alegria. “Maninha”, “Até Pensei”, “Januária”, “Carolina” e muitas outras apresentam o mesmo olhar “ingênuo” sobre a vida cotidiana. “Mas é importante ressaltar que Chico ainda era um jovem de pouco mais de 20 anos nessa época. É compreensível que suas primeiras canções ainda fossem carregadas de ingenuidade. Porém, o grande compositor já estava presente nessas canções geminais”, assegura o pesquisador.
CARNAVAIS, MALANDROS E HERÓIS
Com o passar dos anos – e novos horizontes políticos e sociais se abrindo na sociedade brasileira –, o compositor Chico também mudou seu olhar sobre a composição. Novos temas e personagens passaram a fazer parte da criação musical do autor. “Com o endurecimento da ditadura militar no Brasil, Chico Buarque também precisou endurecer a forma como escrevia suas canções. Descontente com a forma como o país estava sendo conduzido, o compositor encontrou na sua arte a voz para denunciar e criticar o que estava ocorrendo naquele momento da história do Brasil, o que acabou gerando em Chico o rótulo de ‘compositor engajado’, reducionista no caso dele, já que, por mais que parte de sua obra realmente tratasse de questões políticas, o trabalho de Chico era muito maior, mencionando também outros temas. O amor, por exemplo, nunca saiu de pauta na obra de Chico”, conta Mario.
 
O Carnaval também se tornou alegoria constante da obra do compositor
Com essa nova forma de olhar para seu trabalho musical, outros elementos começaram a aparecer na obra de Chico. O saudosismo ficou para segundo plano e outros protagonistas passaram a fazer a história. “Quando o compositor Chico Buarque se volta para a atualidade, em meio aos anos de chumbo, e há a preocupação de retratar a realidade em suas canções, é muito representativo que o autor (filho da elite e da intelectualidade brasileiras) comece a dar voz a personagens marginalizados. São eles que tomam a vez em parte da obra musical de Chico Buarque. Aqui temos os típicos malandros cariocas, as prostitutas, travestis, os meninos de rua, os operários, sambistas… Todos estão reunidos na obra de Chico, mostrando quem realmente é a base de uma sociedade pautada pela desigualdade, como a brasileira”, assevera o pesquisador.
Dentre as principais canções que representam esse momento de Chico, temos desde a seminal “Pedro Pedreiro”, que narra as desventuras de um operário sem perspectivas na vida, até “Levantados do Chão” – feita em parceria com Milton Nascimento, em homenagem ao Movimento dos Sem Terra (MST), e composta para fazer parte do projeto Terra, de Sebastião Salgado –, passando pelo “Pivete” (resgatada pelo compositor no final dos anos 90, no disco As Cidades, para mostrar que, anos depois, a sociedade continua com os mesmos problemas), o trombadinha de “O Meu Guri”, as mazelas das prostitutas de “Folhetim” e “Umas e Outras”. “Parece que todos esses personagens se reúnem dentro da obra de Chico e vivem um grande carnaval – período em que as grandes festas são feitas pela mão do povo e as mazelas são esquecidas por quatro dias. O carnaval também é uma alegoria constante na obra do compositor”, complementa Mario.
Nesse carnaval criado por Chico, um personagem, dentre todos esses, acaba ganhando destaque: “Quando Chico escreve Ópera do Malandro, em 1978, a imagem do compositor fica muito ligada a esse personagem típico da boemia carioca. E ele acaba sendo recorrente nas canções do compositor. ‘A Volta do Malandro’, ‘Homenagem ao Malandro’, ‘Vai Trabalhar Vagabundo’ são alguns exemplos de canções onde esse tipo aparece. Em 1985, o compositor chegou a gravar um disco chamado Malandro, em que reuniu diversas canções sobre essa temática”, conta Mario.
 
Capa do disco Ópera do Malandro, que associou a figura do compositor ao personagem carioca
A VOZ DA MULHER 
Se a voz dos desvalidos encontra amparo na obra de Chico Buarque, é essencialmente a mulher que tem grande destaque na obra musical do compositor. Chico criou mulheres fortes, que acompanharam a trajetória da obra do autor. “As figuras femininas de Chico também vão desabrochando ao longo dos anos. Na fase inicial, elas aparecem reclusas, resguardadas por uma alegoria constante, que é janela. ‘Carolina’, ‘Ela e sua Janela’, ‘Januária’, a moça feia de ‘A Banda’, todas são inatingíveis, emolduradas nessas janelas simbólicas. Com o tempo, elas ganham autonomia e vão ganhando força. Anos mais tarde, vemos nascer a guerreira ‘Bárbara’, da peça Calabar, a personagem que enlouquece em ‘Ela Desatinou’, a amante insaciável e que sabe o que quer de ‘Sob Medida’, a prostituta que descarta o cliente em ‘Folhetim’, a mulher segura e feliz que não quer mais o ex-amante em ‘Olhos nos Olhos’ e muitas outras. Mais recentemente, a mulher apareceu novamente envolta em uma janela, mas em tempos tecnológicos ela surge de forma virtual, como ‘Nina’, do último disco de estúdio do cantor, Chico, em que a amada é conhecida apenas pela tela do computador”, narra Mario.
Com o passar dos anos, além da obra social e com contexto político, os trabalhos mais recentes do cantor ganharam outros enfoques. “Os últimos discos lançados por Chico Buarque, como As Cidades, Carioca e Chico, mostram o compositor mais maduro. O amor é recorrente, mas vivido com a calma e a serenidade de quem já viveu (bem vividos) 70 anos. Hoje Chico é, além de um dos maiores artistas de nossa música por sua obra pregressa, também um compositor importante na atualidade, que lapida com maior cuidado a poesia musical. As composições aparecem quando realmente há algo a ser dito, sem desperdícios de palavras ou notas musicais. A obra musical de Chico Buarque, hoje, reside num ‘tempo da delicadeza’, que o próprio autor já havia cantado anteriormente, mostrando muita coesão com a trajetória de sua obra”, finaliza o pesquisador.
 
As composições de Chico a partir dos anos 70 dão voz aos marginalizados e desvalidos
Chico Buarque e Nara Leão cantam “A Banda” no Festival da Música Brasileira
 
 
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