Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.09.2010 01.09.2010

Charles Cosac, de Tunga a Maria Martins


   Por Bruno Dorigatti e Carolina Casarin
   Fotos de Vicente Mello (Obras de Maria Martins) e Tomás Rangel (Charles Cosac e Dawn Ades) 

 

Em 1995,Charles Cosac editou um livro sobre o artistaplástico Siron Franco, de quem é um grande admirador. O carioca nascido em 1964,depois de viver em Petrópolis, morou por um bom tempo na Inglaterra, onde estudouHistória e Teoria da arte, na Universidade de Essex. Lá, iniciou a primeiracoleção relevante de arte latino-americana na Europa, a University of EssexCollection of Latin American Art (UECLAA), em 1993. Retornouao Brasil com o intuito de difundir as artes plásticas brasileira. Teoria daarte não era o seu foco, mas descobrir coisas novas, sim. Livros catálogos, quereúnem a obra de um artista ou parte dela, lhe interessam, pois o trabalho serenova a cada livro. A dinâmica é similar, mas são outros os autores a escreversobre o artista, os fotógrafos, o vocabulário, o dicionário, os nomes a elogiarou desmerecer. 

“Em 1994 surgiu a oportunidade de eu fazer um livrodo Siron Franco, um grande amigo e grande artista também. Naquela ocasião eucursava o doutorado em São Petersburgo, na Rússia, e vim ao Brasil fazer esselivro. Foi uma coisa muito caseira, feito na casa dos meus pais, aqui no Rio.Na ocasião viajei muito pelo Brasil porque o meu trabalho era bem elementar,era fazer um levantamento da obra. Ou seja, eu ia na casa da pessoa, via o queela tinha do Siron, fazia uma foto de registro, media, via se a moldura eraoriginal, se havia algum selo de bienal. Um levantamento mesmo, pra autorafazer a seleção. E depois acompanhei as sessões de fotografia, e assim fuiaprendendo. Voltei pra Europa, mas deixei meu coração aqui. Eu tinha interesseem continuar fazendo livros, mesmo porque depois que você faz o primeiro, nãopara. A ideia da editora veio quase como algo eliminatório. Eu queria trabalharcom arte, mas não conseguiria seguir o corpo docente, não era meu interesse. Ocorpo docente não envolvia tanta ação como uma editora, onde a gente estásempre pesquisando algo novo. Cada livro é uma história diferente, são três,quatro semanas pesquisando na biblioteca tal, no arquivo tal, na fundação tal,pelo menos no caso dos livros que eu participo. O trabalho se renova porque olivro se renova, você termina um livro e começa outro. Mesmo que o processoseja muito parecido, existem algumas diferenças. A dinâmica do livro é meiosimilar. Mas como muda o conteúdo parece que é um outro universo, porque mudatudo, mudam os autores, os fotógrafos, o vocabulário, o material de suporte. Issode certa forma corta a rotina de que a gente sempre tenta fugir. Foi uma formade eu trabalhar com arte, sem ser artista”, nos disse Charles Cosac, num fim de tarde demaio, no bar do Hotel Fasano, em Ipanema, quando do lançamento de Maria no Rio de Janeiro.

Ao receber o livrosobre Franco, Charles encontrou algo como 150 erros óbvios e primários. Viu então que uma maneira deminimizar estes problemas seria ter o controle total de todo o processo. Eassim o fez, quando, em 1997, abriu a editora que leva o seu sobrenome e deMichael Naify, seu cunhado, casada com a irmã Simone. A estreia da Cosac Naify(que então se chamava Cosac & Naify) – editora pensada inicialmente paraeditar livros sobre ou dedicados às artes plásticas – se deu com Barroco de lírios, de Tunga. Criado pelo artista, ovolume tinha mais de dez tipos de papéis e 200 ilustrações, além da fotografiade uma trança que chegava a um metro de comprimento quando desdobrada. Charlestambém foi responsável por importantes produçõeseditoriais ligadas às artes, como os livros Farnesede Andrade (org. Rodrigo Naves), Farnese– ObjetosLeonílson– Use, é lindo, eu garantoMiraSchendel: do espiritual à corporeidade (GeraldoSouza Dias) e a Caixa Tunga, disponibilizadaintegralmente no site da editora e doada a bibliotecas, museus einstituições em comemoração aos dez anos da Cosac Naify, em 2007. Charles Cosacrecebeu os prêmios da Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA) e daAssociação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) pela curadoria da exposição Farnese– Objetos (CCBB, 2005).

“Quando abri a Cosac, em 1996, já se falava no fimdo livro. E eu acho que o certo é você sempre seguir o caminho oposto da história.O livro era algo quetinha que ser coisificado, revivido como objeto. Já sabia o que ia acontecer,não fui pego de surpresa”, comenta ele sobre o assunto recorrente, já umlugar-comum, e continua:

“Já vim ciente desse… nãodesse risco, mas dessa fatalidade que é o livro eletrônico. Por isso sabia queteria que me concentrar numa produção que mesmo sendo feita na gráfica tivesseum aspecto muito caseiro, muito desejável. E isso eu consegui com 99% dosartistas com quem trabalhei. Os primeiros livros foram os mais difíceis: Tunga,Arthur Omar e Miguel Rio Branco. E tive a participação absoluta da parte deles.Não vou dizer que também não ajudei, mas tentava discutir o mínimo possível comos artistas, porque acreditava muito na obra deles. Eles estavam transportandoaquela obra, fosse fotografia, fosse pintura para um suporte diferente, o quecausa certa ansiedade, sobretudo no primeiro livro. É claro que a obra perde quandotransposta da realidade para o papel, para a reprodução fotográfica. E oartista ver a obra dele resumida naquela caixinha é algo agoniante.” 

Recentemente, Charles organizou um dos grandes livros doano, dedicado à escultora brasileira Maria Martins, pouco conhecida por aqui.Projeto ambicioso, a grandeza não está só no tamanho da obra, chamada apenas de Maria, que reúne 197 fotos em 336páginas e pesa mais de dois quilos. Pela primeira vez, o editor conseguiu comque um mesmo fotógrafo registrasse todo o trabalho de um artista. Vicente Mellofoi convidado e topou o desafio de registrar as esculturas, que, por seremtridimensionais, dificultaram ainda mais o trabalho. Além das fotos, o livroconta com textos de Dawn Ades, crítica e historiadora de artes inglesa eex-professora de Charles; Francis M. Naumann; José Resende; e Veronica Stigger;além do projeto gráfico de Elaine Ramos.

Apesar do nome, ele acredita que a editora vem deixando o caráterpersonalista que um dia chegou a ter. “Editora com a minha cara é algo dúbio.Ela cresceu, tem outros departamentos, tive que delegar e, em 2000, entreguei apresidência ao Augusto Massi, eu não tinha a competência necessária.” Um poucoantes, a Cosac Naify abriu o catálogo e, além da linha infanto-juvenil, passoua editar clássicos da literatura mundial, na coleção Prosa do Mundo, literaturacontemporânea, daqui e lá de fora, livros de arquitetura e design, cinema,teatro, dança, fotografia, moda, além debiografias. O objetivo quando criou a Cosac Naify, ele nos disse, era editarlivros de arte comerciais, que fossem vendidos e não apenas distribuídos comobrinde de grandes empresas, geralmente para um público nem tão interessadoassim em artes plásticas.

“Eu tinha uma bibliografiaelementar de História da arte que queria trazer pro Brasil. Por exemplo, àsvezes tinha que dar um seminário e era um corre-corre de fotocópias de revista,quase não existia material. Os artistas tinham pouco espaço de divulgação eregistro de material. Eu queria fazer livros de arte comerciais, queria que oslivros fossem vendidos, e não dados. Que fosse desvinculada a noção de brinde.E nisso eu falhei barbaramente no meu próprio segmento. A verdade é que apessoa que consome livros de arte é de elite, e a ideia era justamente ocontrário, era deselitizar as artes visuais. Quer dizer: quadro no museu,escultura no museu, e em casa livros de arte na prateleira. Mas isso não deucerto. Ainda tem como preventivo o bendito múltiplo. As pessoas saem dosmuseus, compram alguma coisa. Uma borracha, um broche, um pôster. Nunca é olivro.”

A Charles, interessa a liberdade de fazer um livro surrealista quandosó se fala do geometrismo das Lygias, Clark e Pape, e de Helio Oiticica. “Paraalém dos modismos e ondas, me interessa acompanhar como caminha o resgate dahistória da arte brasileira. É o meu lado coveiro, tenho um prazer especial emabordar os artistas injustiçados, esquecidos”, revela.

“É a liberdade que eu tenho de criar umacuradoria paralela. Nós estamos em 2010, desde 1990 só se fala de abstraçãogeométrica. E é impagável a liberdade de neste momento, em que a crítica exigentepraticamente só fala de arte geométrica, publicar um livro sobre surrealismo,uma artista surrealista. O concretismo no Brasil não começou em 1950, 1951. Elecomeçou a ser exposto na década de 1950, mas passou a ser visto apenas emmeados dos anos 1980 e a ser enxergado no início dos anos 1990 e ser idolatrado no início dos anos 2000, e agora encheu o saco de todo mundo, no início dosanos 2010. Quer dizer, fala, fala, fala, chega uma hora que você não aguentamais ouvir. Só tem isso? Não é uma cultura excludente, acho que é uma coisa demodismo, de ondas. Por isso essa questão do resgate traz muita coisa de volta,e eu particularmente tenho um lado meio coveiro de artistas que acho que foramesquecidos, injustiçados.”

Foi assim com o artista mineiro Farnese de Andrade (1926-1996).“Conheci o Farnese dois anos antes de ele falecer. Foi o grande amor da minhavida. Conheci seu trabalho nos anos 1980. Com a galeria em Essex, tinha umadesculpa para encontrá-lo e fui até o Rio Comprido [na zona Norte do Rio, ondeo artistas morava]. Ele tinha a barba torta, fiquei horas lá. Foi amor àprimeira vista. Ao sair, ele me deu uma Santa Bárbara, como início de umagrande amizade. Foi difícil, dolorido [organizar o trabalho do artista], massaiu dez anos depois”, recorda Charles.

“Eu conheci o Farnese dois anosantes de ele falecer, ele foi o grande amor da minha vida. Entrei em contatocom seu trabalho nos anos 1980, tinha fascínio pelas assemblages, não gostava muito da obra de papel, e quando eu fundeia coleção em Essex tinha uma desculpa pra falar com ele, pois queria pedir umtrabalho. Pedi que Siron fizesse o contato com ele, e eu fui assim meio tímidoporque não sabia o que esperar. Havia visto uma foto de Farnese – ele era muitoparecido com meu pai, uma coisa impressionante. Ele já morava no Rio Comprido.Quando toquei a campainha e ele abriu a porta, foi amor à primeira vista.Fiquei muitas horas em sua casa. Ele passava, vinha, mostrava, explicava,contava, e na hora que estava indo embora vi uma Santa Bárbara e disse‘Farnese, que coisa linda!’. Aí ele pegou a Santa Bárbara, pôs na minha mão efalou: ‘Isso é pra você lembrar o início de uma grande amizade’. E foi mesmo. OFarnese morreu duas semanas depois que eu voltei a morar no Brasil. Eu tinhadificuldade de mexer naquele material que ele deixou pra mim. Mas houve ummomento que teve que sair.”

Ele se refere aos livros publicados em 2002 e 2005, Farnese de Andrade e Farnese (Objetos), respectivamente. Oprimeiro, com texto de Rodrigo Naves, recupera o trabalho do artista quecomeçou como aluno do pintor carioca Gignard, mas se dedicou mesmo às assemblages, com oratórios, fotografiase bonecas de louça. Ao todo 342 ilustrações registram o trabalho de Farnese,acompanhadas de um documentário sobre o artista, realizado em 1970 por Olívio Tavares de Araújo. Já o segundo livro é ocatálogo da exposição realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2005, ealém das 126 peças retratadas há textos de Charles, Marco Antonio Mastrobuono edo próprio Farnese. “A família foi muito generosa, permitiram acesso a tudo,cartas íntimas, objetos pessoais”, acrescenta.

E por que esse descaso que o paístem com sua arte, seus artistas? “Isso é mais recorrente pelo fato de o Brasilser negligente em tudo. Veja o Pelourinho como se encontra. Aleijadinho, porexemplo, não tem um livro definitivo. Sem falar nas falhas de conservação emanutenção, no estado dos museus”, enumera. E poderíamos acrescentar o descasocom a segurança que permite roubos cinematográficos, como o ocorrido no MuseuChácara do Céu, em Santa Teresa, no Rio, durante um bloco de Carnaval, em 2006.Ou a forma irresponsável que a família de Helio Oiticica conservava a obra doartista, consumida pelas chamas num incêndio acidental.

Maria 

No caso de Maria Martins, asdificuldades se deram por conta do acervo espalhado entre os Estados Unidos,Europa e Brasil, muitos em acervos particulares: “Sempreé mais difícil fotografar escultura à pintura. Escultura é um problema. O maiorproblema é a escala. O recurso é você usar uma regra de três que sejacompatível com o tamanho do livro. No livro da Maria nós pudemos pela primeiravez contratar um fotógrafo que fizesse o livro todo. Isso é visível naangularidade e na homogeneidade das fotos. Não que seja monótono, mas é umaqualidade homogênea. Neste livro, as maiores dificuldades foram o acesso amuseus, aos colecionadores. É uma obra pequena, muitas estavam em casas defamílias ricas, banqueiros e afins, que não abrem as portas com facilidade.”

Entre 1925 e 1938, por ter secasado com um diplomata, Maria mudava de país a cada dois anos. A produção seintensifica entre 1938 e 1948. “A escultura demanda este sedentarismo. O queimpressiona é a obra formada em apenas 10 anos, incluindo aí o aprendizado,entre 1944 e 1951”, comenta Charles. 

“Segundo a cronologia de Maria,pela primeira vez depois de muitos anos ela teve certo sedentarismo quandoficou 10 anos nos EUA. A escultura é uma arte que demanda certo tipo deestrutura. Acho que anteriormente havia o interesse, mas era um pouco vago. Oque realmente impressiona na Maria é o fato de ela ter feito a obra em 10 anos,sendo que nesta década houve ainda um período de aprendizado. Seu período deprodução é de 1944 a 1951. Ela é uma artista de sete anos, numa produção pequenaem volume, mas muito grande em qualidade.”

Para Dawn Ades, crítica ehistoriadora da arte, autora de um dos textos que compõe Maria, o que chamou sua atenção na escultora foi a linguagem formalque ela usa, a morfologia de formas naturais humanas, de animais e da próprianatureza. “As fotos do livro trazem detalhes, mas ao vivo você consegue seaproximar ainda mais das formas, ou da falta delas, numa espécie de jogo entreelas, entre o amorfo, o informe e o figurativo. Cheguei à Maria por ela unirvárias coisas que me interessam. Paixão e desejo, erotismo no jeito em queesculpe as formas, no material que usa, muito físico.”

Sobrea sua ligação com os surrealistas, Dawn acredita que ela foi muito maisapropriada pelo movimento vanguardista do que o contrário. “Maria não tentavafazer algo surrealista. Eles a descobriram”, diz. Andre Breton, líder do movimento, afirmou porocasião da mostra Amazonia, em 1943, em Nova York: “Mariaconseguiu de modo maravilhoso capturar em sua fonte primitiva não apenas a angústia,a tentação e a febre, mas também a aurora, a felicidade, a calma, e mesmo àsvezes o puro deleite”. 

Dawn acrescenta ainda que “asensualidade, a imaginação e o desejo de suas esculturas” chamaram a atençãodeles. “Também o fato de não querer ser surrealista, mas expressar, desejar eamar de uma maneira radical. Ela estava repensando a linguagem do desejo doponto de vista da mulher”, acrescenta. Maria não acreditava nos “ismos”. “Elesme chamaram, aceitei, mas isso não me importa”, teria dito. Nos anos 1940 e1950, o surrealismo já não era mais o indicado para o artista fazer o seu nome.Os surrealistas procuravam pessoas com ideias semelhantes, mas não um estilo nosentido de um conceito, como o cubismo, por exemplo. Além do entusiasmo deBreton, Marcel Duchamp se interessou, não só pelo trabalho de Maria. Adescoberta da escultora brasileira se deu pelo fato de ela ser influenciadapelo francês. Eles chegaram a se envolver, mas não houve um diálogo diretoentre a produção de ambos. “Nada aconteceu ao trabalho de Maria depois que elaencontrou Duchamp, mas sim com sua vida”, afirma Dawn.

Vicente Mello levou nove mesespara registrar todas as esculturas de Maria, realizando entre cinco a 15imagens por obra, num total de 77 gravuras e esculturas. “É um olhar rasganteem cima da obra, algo como ‘decifra-me ou te devoro’, e tivemos descobertas aolongo do trabalho”, acrescenta Charles, como as três peças presentes no acervodo MoMA (Museum of Modern Art, de Nova York) que nunca haviam sido vistas nempela equipe do museu, já que a artista nunca participou das coletivas que elesorganizaram.

Para admirar a obra de Maria épreciso ater-se aos detalhes, às reentrâncias, às curvas e formas improváveis.“Está tudo muito ali, mas se não se ater a ela, não se enxerga. É uma sensaçãode que ela é o arco e a flecha ao mesmo tempo. A força, a ação, reação edistensão, está tudo dentro dela. Ela é ímpar”, define Charles.

Singular também é o trabalho deCharles Cosac, alguém que, tendo nascido em berço de ouro, decidiu investir odinheiro que herdou na preservação das artes plásticas brasileiras. Algo raro numpaís onde a elite macaqueia os trejeitos gringos e pega o avião na primeiraoportunidade, sem perder a oportunidade de reclamar do azar de ter nascido nestasplagas.

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