Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.09.2014 17.09.2014

Cenas dos próximos capítulos

Por Gabriela Reis
Durante pouco menos de quatro meses o telespectador pôde entrar no universo da fábula, com direito a percorrer com o olhar a cidade fictícia de Vila de Santa Fé, que parecia haver sido tirada de um quadro do pintor holandês Vincent Van Gogh. Meu Pedacinho de Chão, novela de Benedito Ruy Barbosa, que ocupou a faixa das 18 horas na Rede Globo, patinou na audiência, mas pincelou novas possibilidades para a teledramaturgia brasileira – e com tintas bem coloridas, diga-se.
Escrita originalmente em 1971, a nova roupagem gira em torno da chegada da professora Juliana (Bruna Linzmeyer) na humilde e oprimida cidadezinha, com o intuito de lecionar às crianças da região, a desgosto e resistência do coronel Epaminondas (Osmar Prado). O folhetim estreou em abril sob o comando do diretor Luiz Fernando Carvalho, que leva no currículo A Pedra do Reino, Capitu e Hoje é Dia de Maria. No ar, viu-se uma estética inovadora, repleta de recursos plásticos e cênicos num universo lúdico. Nunca antes uma emissora havia apostado neste tratamento em uma telenovela e o diretor-geral da TV Globo, Carlos Henrique Schroder, declarou, antes da estreia de Meu Pedacinho de Chão, que a proposta do canal é incentivar um ambiente criativo e surpreender o público com novidades.
Para além do visual, a jornalista Cristina Padiglione, que assina a coluna “Sem Intervalo” do jornal O Estado de S. Paulo, cita a genialidade de Carvalho ao reinventar a narrativa, a qual se manteve fiel ao texto do autor, porém sem ser subserviente. “Meu Pedacinho de Chão encoraja reinvenções, mas não é qualquer um que sabe reinventar. Uma virada de ponta-cabeça, que coloque o melodrama em risco, corre grande risco de não funcionar. O DNA do folhetim tem de ser preservado, esse é o desafio”, alerta.
O trabalho de Carvalho não só evidenciou a leitura da narrativa, como levantou questões centrais na teledramaturgia brasileira. O número reduzido de personagens (23, segundo o site oficial) e de episódios (96), somado à ideia onírica, fez da novela algo completamente atípico. “Não há mais espaço para fórmulas gerais impostas pelo mercado, quando este próprio mercado precisa mudar”, defende o diretor.
Partiu-se então para um olhar artístico e fugiu-se de uma lógica industrializada de produção. O ator Johnny Massaro, intérprete do personagem Ferdinando, conta que em alguns dias não eram concluídas mais do que oito cenas em estúdio e dez em externa. “Se uma novela tem 30 cenas por capítulo, você praticamente não grava um capítulo por dia. Mesmo sendo complicado, do ponto de vista de produção, até o final foi mantido este apreço, que significou apreço visual e tempo para o ator”. A colega Paula Barbosa, que viveu a “mulher macho” Gina, brinca com o Almanaque e diz que se fazia um longa-metragem por dia. “Em Meu Pedacinho de Chão, ensaiávamos cena por cena, mais de uma vez, e na gravação tínhamos que fazê-la por inteiro, pois a cada momento a câmera estava num ângulo”.
Carvalho confessa ser um diretor que regrava com frequência e, quando alguma cena chegava à edição e não alcançava o resultado desejado, voltava-se para o set. “Isto deve ter causado alguma estranheza aqui e ali, entre os atores mais acostumados ao padrão oficial, que abre pouco espaço para a reflexão sobre o material. Mas, sinceramente, acredito que tudo isso está mudando. Pela primeira vez depois de muitos anos estou certo disso, sentindo um novo ciclo se abrir. E não há como negar que Meu Pedacinho de Chão representa esse novo caminho”.
Personagens de Meu Pedacinho de Chão
IMAGINAÇÃO
O novo caminho ao qual o diretor se refere passa pela criatividade. “A dramaturgia que contar com a imaginação do espectador vencerá. O vício da interatividade ao qual fomos todos introduzidos através da internet nos tirou da passividade de um mero ouvinte. Queremos trocar impressões com os personagens, atuar, viver juntos, comentar, participar como participavam os antigos diante dos grandes espetáculos de rua”, declara.
Se antes se mandavam cartas ao jornal e torcia-se para que fossem publicadas, hoje é possível falar o que bem entender para milhares de pessoas nas redes sociais. Para Padiglione tudo tem sido repensado com muita rapidez, principalmente no audiovisual. “A tecnologia, não só presente na tela, mas ao alcance do espectador, tem forçado mudanças que demandam grande agilidade. Uma novela como esta que o Manoel Carlos acaba de fazer (Em Família) geraria mais interesse em outros tempos”, avalia.
A sensação de déjà-vu acompanha alguns folhetins e é aí que mora o perigo. Neste último trabalho, temas abordados por Maneco, como o escritor é carinhosamente chamado, haviam sido visitados em outras de suas novelas: amor lésbico, alcoolismo, racismo etc. Isso não significa que esses ingredientes devam ser eliminados de novas obras, mas que a narrativa precisa ser oxigenada.
“Há formatos que precisam ser renovados, há temas que precisamos incorporar às narrativas. Enxergo um descompasso entre o avanço inegável da narrativa audiovisual, impulsionado pelo surgimento das novas mídias, movido com a velocidade de suas tecnologias e, do outro lado, um modelo oficial estagnado que ainda permanece”, afirma Carvalho em relação à atual produção da teledramaturgia brasileira que, segundo ele, se encontra em transição.
O crítico de novelas e autor do Almanaque da Telenovela Brasileira, Nilson Xavier, destaca que o modelo de grade, em que se assiste à telenovela diariamente em horário fixo, é que está burocratizado. Acessar o site do programa e visualizar seu conteúdo de onde quiser, do computador de casa, do tablet no trajeto para o serviço, do celular na rua, é uma forma de acompanhar sem marcar horário com o sofá. “Os conteúdos precisam estar disponíveis ao gosto e disponibilidade do público. Ele já não aceita mais a fórmula engessada de grade televisiva”, opina.
O Rebu também trouxe o sopro contemporâneo ao se apropriar do fenômeno das selfies
Formas de atrair o público para a TV existem. Um exemplo recente é o game O Rebu No Ar, baseado na novela O Rebu da Rede Globo. O jogo de perguntas e respostas coloca o poder de observação do telespectador em teste. Durante os capítulos, apostas são lançadas no game e a cada acerto marcam-se pontos. Ele está disponível para desktop, tablet e celular.
O Rebu também trouxe o sopro contemporâneo ao se apropriar do fenômeno das selfies. A adaptação da história de 1974 se passa em uma única noite numa luxuosa festa, interrompida por um misterioso assassinato. O telespectador assiste a três momentos: a festa, o dia seguinte, quando ocorrem as investigações, e flashbacks dos personagens, que indicam possíveis motivos para terem cometido o crime. Fotos e vídeos feitos durante a festa ajudam a polícia a desvendar a identidade do assassino.
Oi Oi Oi
Os críticos ouvidos pelo Almanaque dão crédito a Avenida Brasil e Cheias de Charme, estas sim produções que hastearam a bandeira da mudança.
Escrita por João Emanuel Carneiro, Avenida Brasil tocou em um tema pensado e repensado pela produção cultural: a vingança. Rita (Débora Falabella) perdeu o pai em um acidente de automóvel e foi deixada num lixão pela madrasta (Adriana Esteves). Anos depois, decide acertar as contas com o passado, agora sob o nome de Nina.
Na faixa das 21 horas na Rede Globo, ela virou sensação, fosse pelas atuações, como a de Adriana Esteves na pele da inesquecível Carminha, ou pela segunda vida na internet. A produção lançou teasers e, em troca, recebeu conteúdos criados pelos internautas, que se tornaram virais dos mais engraçados – da risada do personagem Nilo (José de Abreu) ao keep calm and Oi Oi Oi, remetendo ao refrão de abertura do folhetim. Esteve nos trend topics do Twitter e fotos em perfis de redes sociais com o efeito da última cena de cada capítulo pipocaram. Rendeu uma extensa matéria no site BBC da América Latina e Caribe e a presidente Dilma Rousseff adiou o comício no qual participaria com o então candidato a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, para evitar coincidir com a transmissão do último capítulo de Avenida Brasil – aquele não era o momento de competir com a revelação do assassino de Max (Marcello Novaes).
Na tela, uma inversão de padrões: o núcleo central vinha do subúrbio carioca, relegando a zona sul, queridinha das novelas, a segundo plano. Padiglione acredita que a telenovela ainda inovou ao contrariar as expectativas quanto à mocinha e à vilã. “O autor já havia feito isso, magistralmente, em A Favorita, que não teve do público a mesma resposta de Avenida Brasil, mas merece ser lembrada”.
Carminha, personagem vivida por Adriana Esteves
Xavier zapeia por outra direção. Para ele, a mistura de telenovela com seriado e até elementos do cinema indicou uma mudança de conteúdo na teledramaturgia. “Os ganchos (o fim de cada capítulo) sempre abordavam alguma situação que envolvia a trama central da novela, a imagem final sempre ‘congelava’ em algum personagem do núcleo central (Carminha, Tufão, Nina, Jorginho, Max, etc). Isto remete à dramaturgia seriada, que prioriza uma única trama. As reviravoltas no roteiro também são características dos seriados”.
O ritmo mais dinâmico e o capricho na fotografia, por meio de enquadramentos ricos em detalhes, renderam menções elogiosas. A contribuição dos diretores-gerais, José Luiz Villamarim e Amora Mautner, não pode ser esquecida. Juntos, eles rejuvenesceram o folhetim. No set, Mautner era conhecida por incentivar os improvisos dos atores, tudo para dar mais veracidade à trama.

EMPREGUETES

Se por um lado Avenida Brasil inovou ao focar o subúrbio e seus diálogos com o cinema e séries, Cheias de Charme não ficou atrás ao trazer três empregadas domésticas na linha de frente da história. Mesmo que não seja possível mensurar sua influência, a obra de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira se engajou nos direitos trabalhistas da classe e deu visibilidade nacional a questões que eram varridas para baixo do tapete. Seis meses após o fim de Cheias de Charme, passaram a valer os novos direitos dos empregados domésticos garantidos pela PEC (Proposta de Emenda à Constituição) das Domésticas.
A novela promoveu outro diálogo produtivo. Foi a primeira vez que uma cena surgiu antecipadamente na internet. As empreguetes, como eram chamadas as personagens vividas por Isabelle Drummond, Leandra Leal e Taís Araújo, gravaram o videoclipe ‘Vida de Empreguete’, em que contam as dificuldades no dia a dia da profissão. O material foi parar na web e bombou. O suspense em torno dele aumentou quando vários personagens foram vistos assistindo ao clipe, até que o telespectador foi “convidado” a fazer parte deste momento ao ver na tela do televisor o endereço de onde o vídeo estava hospedado. O encontro musical do trio foi postado na rede no sábado e surgiu na TV apenas na segunda-feira seguinte. Uma ação transmídia vitoriosa – foram mais de 12 milhões de acessos.

“Finalmente a internet é vista como aliada, capaz de agregar plateia, muito mais do que dividi-la. Se o público está mais dividido entre várias telas, o ideal, para o produtor tradicional de conteúdo, é estar em todas elas”, expõe Padiglione.

As empreguetes gravaram o videoclipe ‘Vida de Empreguete’, em que contam as dificuldades no dia a dia da profissão
OS TEMPOS SÃO OUTROS
Novas propostas nem sempre resultam em audiência, caso de Meu Pedacinho de Chão. Os tempos são outros. O crescimento da TV paga no Brasil clareia em parte a questão – de maio de 2013 a maio de 2014, a base de assinantes avançou 10,8%, e a Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) espera crescer em torno dos 10% a 11% neste ano. “Todos esses programas citados não tiveram o alcance de um Roque Santeiro. Ok, mas nem que hoje apareça um Roque Santeiro, a audiência será a mesma”, explica Padiglione.
A novela que eternizou os personagens Sinhozinho Malta e Viúva Porcina (Lima Duarte e Regina Duarte), foi ao ar no horário nobre das 20h, de junho de 1985 a fevereiro de 1986. Escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva, é um produto de outro tempo, em que a audiência não precisava concorrer com canais fechados e outras plataformas de interatividade, como tablete, computador ou smatphone. Não é à toa que hoje faz parte da memória coletiva de várias gerações de brasileiros e continua sendo procurada na versão em DVD.
Entretando, nos dias de hoje, A audiência é um índice relativo, que pode esconder uma falsa impressão. Quem nunca ligou a televisão e foi realizar outra atividade? “Estes produtos (a maioria) podem não render ‘números de Ibope’, mas repercutem. Aqui devemos questionar os métodos ultrapassados de aferição de Ibope, que privilegiam um modelo engessado de audiência”, diz Xavier. O autor sugere também uma análise do que se assiste na internet e a repercussão das atrações da TV nas redes sociais, como Facebook e Twitter. “O Ibope mede quantidade, enquanto as redes sociais serviriam para medir qualidade, através da repercussão positiva ou negativa”, completa.
O pedido do crítico parece que será atendido até certo ponto. O Ibope Media e o Twitter lançaram o IBOPE Twitter TV Ratings (ITTR), métrica da repercussão de conteúdo baseada em conversas relacionadas com a TV no Twitter. A demanda de mercado existe, pois 54% dos internautas assistem à TV e usam internet simultaneamente no Brasil. Dentre eles, 38% comentam sobre o que estão assistindo, de acordo com pesquisas do IBOPE Media. A previsão é que a solução seja comercializada por aqui ainda este ano.
A ferramenta pode trazer um painel mais autêntico para as telenovelas e impulsionar novas quebras de paradigma, como Meu Pedacinho de Chão, Avenida Brasil e Cheias de Charme fizeram. O horizonte é animador e os noveleiros podem respirar com mais tranquilidade.
Personagens de Roque Santeiro
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