Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.10.2012 19.10.2012

Cem anos de Nelson Rodrigues: fonte de boas histórias para o cinema brasileiro

Por Edu Fernandes
 
O autor pernambucano é conhecido pela polêmica e genialidade. As histórias criadas por ele foram transportadas para o cinema por vários realizadores no decorrer das décadas.
 
Apesar de sua obra estar intimamente relacionada com as paisagens cariocas, Nelson Rodrigues nasceu em Pernambuco em 23 de agosto de 1912. Ainda na infância, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde seguiu os passos do pai no jornalismo. Escreveu crônicas esportivas, reportagens, contos, romances e peças de teatro. Seus textos inspiraram muitas produções televisivas e mais de 20 longas-metragens.
 
“Gente como Braz Chediak, Arnaldo Jabor e Neville de Almeida compreendiam o autor perfeitamente bem”, escreveu a pesquisadora Andrea Ormond no blog Estranho Encontro. “Nelson abençoou quase todas as adaptações que recebeu em vida”.
 
Mesmo com a anuência do autor, finado em 1980, os especialistas concordam que toda a genialidade de Nelson Rodrigues não transparece nas adaptações cinematográficas. “Muitas vezes, o autor serviu de inspiração para diretores que buscavam apenas histórias chocantes que atraíssem o público pela curiosidade”, diz a jornalista Ana Acker no artigo Diabólica, publicado na revista acadêmica Contemporânea.
 
Atualmente as bilheterias do cinema brasileiro recebem de braços abertos títulos como De Pernas pro Ar, Cilada.com e E Aí, Comeu?. Todos trazem a sexualidade como tema central, mas suas cenas não vão além da inocência adolescente. “O verdadeiro e essencial Nelson Rodrigues fica cada vez mais démodé”, atesta Ormond. “Tanto quanto o belo, possesso e imperfeito cinema que motivou um dia”.
 
NELSON RODRIGUES VISTO POR CINCO CINEASTAS
 
Nelson Pereira Dos Santos
 
O cineasta paulista é mais conhecido pelas adaptações cinematográficas da obra de outros autores. Santos dirigiu dois filmes inspirados em livros de Jorge Amado: Tenda dos Milagres (1977) e Jubiabá (1986). Suas fitas mais conhecidas vêm das páginas de Graciliano Ramos e foi durante a produção de uma delas que ele se envolveu com Boca de Ouro (1963), umas das primeiras adaptações rodrigueanas do cinema brasileiro.
 
Com chuvas no Nordeste que impediam o início das filmagens de Vidas Secas (1963), Nelson Pereira dos Santos aceita o convite do ator Jesse Valadão, interessado em seguir a mesma trilha de sucesso de Os Cafajestes (1962). Apesar das atribulações da produção, com o diretor dividido entre os dois filmes, o resultado final foi aclamado. Em artigo publicado na revista eletrônica Zingu, o crítico Vlademir Lazo Correa avalia que “Boca de Ouro permanece como sério candidato à melhor adaptação cinematográfica do genial Nelson Rodrigues”.
 
Nelson Pereira dos Santos voltaria ao texto de Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere (1984), além de adaptar o conto A Terceira Margem do Rio (1994), de Guimarães Rosa. Seu trabalho mais recente é o documentário A Música Segundo Tom Jobim (2012).
 
Arnaldo Jabor
 
Saído do Cinema Novo e acostumado a roteiros originais, Arnaldo Jabor só abriu exceção para Nelson Rodrigues, único autor cuja obra ele levou para a tela grande.
 
Em 1973, a peça Toda Nudez Será Castigada foi a primeira parceria entre os dois, motivo de alegria para ambos. “Conta a lenda que o jovem diretor, após o sucesso de Toda Nudez, recebia do ídolo olhares de sincera admiração, que muito lhe preenchiam o ego”, conta Andrea Ormond.
 
Pouco tempo depois, Jabor aposta no mesmo time na adaptação do romance O Casamento (1976) – até o ator Paulo Porto volta a integrar o elenco. O filme faz algum sucesso, mas perde quando é comparado com o antecessor.
 
O último filme do diretor carioca a ser lançado foi A Suprema Felicidade (2010).
 
Neville De Almeida
 
A parceria mais famosa de Rodrigues no cinema foi com o diretor Neville de Almeida. A Dama do Lotação (1978) é uma das peças mais icônicas entre os filmes brasileiros da década de 1970. Com o furacão Sonia Braga como protagonista e trilha musical composta por Caetano Veloso, a fita é até hoje tema de debates e aulas de cinema.
 
Mais adiante, Neville voltaria a se dedicar à obra rodrigueana em Os Sete Gatinhos (1980), baseada em peça homônima. No elenco, Lima Duarte e Antônio Fagundes.
 
“Campeões absolutos de bilheteria, devorados pelo público no período áureo do cinema popular brasileiro (…), os filmes de Neville devem ter enchido Nelson de orgulho, pois são ferozes, satíricos e abjetos, diálogo alucinado entre dois artistas nobres”, opina Andrea Ormond.
 
O casamento entre teatro e cinema seria tema novamente na filmografia do cineasta mineiro. Em 1997, Neville leva às telas a peça de Plínio Marcos Navalha na Carne, seu trabalho mais recente.
 
Braz Chediak
 
O cineasta recordista em adaptar Nelson Rodrigues é Braz Chediak com três filmes baseados na obra do autor pernambucano. Contudo, sua experiência em transitar entre linguagens dramáticas começou com outros escritores.
 
Como roteirista, transformou o romance Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro Vasconcelos, no texto dirigido por Aurélio Teixeira em 1970. Em seguida, Braz dedicou-se a Plínio Marcos, mas já como diretor. Ele comandou os sets de Dois Perdidos numa Noite Suja (1971) e A Navalha na Carne (1974).
 
Finalmente, o mineiro chegou às páginas rodrigueanas. Braz dirigiu Perdoa-me por Me Traíres (1980), Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Rezende (1981) e Álbum de Família (1981). Esses foram seus trabalhos mais recentes como cineasta.
 
Antes de Chediak, Billy Davis já havia transformado a peça Bonitinha mas Ordinária em filme em 1963. Nessa primeira adaptação, o elenco trazia Jesse Valadão e Odete Lara.
 
Bruno Barreto
 
Com uma filmografia que contempla diversos gêneros, Bruno Barreto adaptou o conto de Nelson Rodrigues O Beijo no Asfalto para o cinema em um filme homônimo de 1981. O mesmo conto já havia inspirado Flávio Tambellini a realizar O Beijo (1965).
 
Antes da empreitada rodrigueana, Bruno já tinha construído seu nome como cineasta ao quebrar recordes de bilheterias com a obra de Jorge Amado em Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976). Ele revisitaria o autor baiano em 1983, com Gabriela, Cravo e Canela. Em ambas produções, Sonia Braga é a protagonista.
 
Mais recentemente, Bruno comandou a adaptação cinematográfica da peça Caixa Dois (2007), de Juca de Oliveira. Seu último trabalho a ser lançado é o thriller Última Parada 174 (2008).
 
 
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