Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.11.2014 18.11.2014

Cem anos de Iberê Camargo

Por Andréia Martins
2014 é um ano de datas importantes para o artista gaúcho Iberê Camargo. Além de marcar seu centenário, comemorado em 18 de novembro, este é também o ano em que se completam duas décadas da morte do artista, que faleceu aos 79 anos devido a um câncer, em 9 de agosto de 1994, e é considerado um dos principais nomes da arte moderna brasileira do século 20.
O centenário motivou a mostra “Iberê Camargo: século 21”, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (RS), que coloca sua obra (70 trabalhos, entre pinturas, gravuras e desenhos) ao lado de obras produzidas por outros 19 artistas, contemporâneos ou posteriores a Iberê, e que de alguma forma conversam com o trabalho do gaúcho.
O pernambucano Gil Vicente, 56, é um desses artistas. Ele terá seu desenho em nanquim “Homenagem a Osman Lins” – uma das obras da série que Gil fez em homenagem ao escritor e conterrâneo – exposto ao lado de retratos enlutados e de um autorretrato de Iberê (que realizou incontáveis obras desse tipo. Para ele, tratava-se de uma busca de autoconhecimento e de questionamento interior).
“A curadoria da mostra foi bastante aberta e atenta nas aproximações dos convidados com a obra de Iberê, estabelecendo diálogos que potencializam, de modos diferentes, a leitura da obra do nosso anfitrião”, comenta Gil.
Este será o primeiro “encontro” entre Gil e o artista gaúcho. “Meu contato mais significativo com a obra do Iberê foi nos anos 1980 e 1990, na retomada da pintura gestual e empastada da geração 80 brasileira (que buscou resgatar a pintura) e da transvanguarda italiana, movimentos que retomaram o interesse na pintura. Em Pernambuco, onde nasci e permaneço, não me lembro de ter visto uma obra de Iberê. Seria ótimo se a fundação levasse uma boa mostra para Recife”, diz o artista.
Na escolha, a curadoria apontou que tanto o trabalho do gaúcho quanto o de Gil buscam caminhos para a construção de retratos psicológicos. Não à toa, o pernambucano diz que o que mais lhe chama atenção em Iberê é “o tormento existencial que conduziu sua criação”.
A mostra ainda terá intervenções do cineasta Joel Pizzini, uma reprodução fotográfica do painel realizado por Iberê em Genebra, na Suíça, além de um documentário sobre a produção do artista.
Além de Gil, participam da mostra nomes como Angelo Venosa, Arthur Lecher, Carmela Gross, Cia. de Foto, Eduardo Frota, Fabio Miguez, Jarbas Lopes, José Rufino, Regina Silveira, Rodrigo Andrade, entre outros. A exposição fica em cartaz de 18 de novembro de 2014 a 29 de março de 2015 na Fundação Iberê Camargo.
A Idiota, primeira obra da série, feita em 1991
As Idiotas, também de 1991
COMPROMISSO RADICAL COM A ARTE
O artista plástico Carlos Zílio, 70, conheceu dois lados de Iberê Camargo: o artista e o professor. Durante dois anos, a partir de 1963, ele foi aluno do gaúcho no Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro.
“Havia uma didática que procurava transmitir as bases da linguagem moderna, mas o mais determinante era a transmissão de um compromisso radical com a arte”, diz Zílio ao comentar a faceta de professor do gaúcho. Uma pequena parte dessa amizade que durou anos está contada no livro Diálogos com Iberê Camargo (Cosac Naify), que reúne relatos de nomes como Zílio, Ferreira Gullar, Lorenzo Mamme, Cecília Cotrim e Mario Carneiro, entre outros.
Esse compromisso com a arte foi mantido por Iberê até os últimos dias de sua vida. Conta-se que poucos dias antes de sua morte, ele acordou Maria, sua esposa, já de madrugada, e pediu que ela o levasse ao ateliê. O motivo era simples: ele queria finalizar uma tela. Já muito debilitado pelo câncer, ele achava que era a última chance de encerrar o trabalho. A obra, inacabada, ganhou o nome de Solidão.
No CCBB de São Paulo, as obras da fase trágica e final de Iberê dividiram o espaço na retrospectiva do artista neste ano
PARA INICIANTES, AS TRAGÉDIAS DE IBERÊ
Ao lado das séries “Carretéis”, “Núcleos”, “Fantasmagorias” e “Ciclistas”, “As Idiotas” é uma das partes mais conhecidas da obra do gaúcho e reflete sua visão sobre a natureza humana alienada e a tirania do tempo. Esses quadros retratam mulheres “sentadas em bancos de praça, nuas e disformes, com os rostos de expressões bobas”, segundo Iberê.
Para Zílio e Gil, essa fase seria o cartão de visitas para quem quer começar a conhecer a obra do artista. “A meu ver, ‘As Idiotas’ pode representar uma síntese da obra do Iberê”, diz Zílio.
Gil destaca a força das pinturas grandes com figuras trágicas, caídas e nuas que o artista produziu nessa fase final de sua obra, já com a sombra da morte e também um reflexo do episódio em que matou um homem em 1980, no Rio de Janeiro, durante uma briga de rua, em legítima defesa.
A criação de Iberê envolveu das paisagens dos anos 1940 às naturezas-mortas dos anos 50, os carretéis e a abstração dos anos 1960 e 1970, mas são trabalhos como “Os Ciclistas” e “As Idiotas”, dos anos 1980 e 1990, que marcam sua obra, devido à sua intensidade trágica e humana. Mas, além disso, parecem combinar demais com uma de suas afirmativas: “Pinto porque a vida dói”.
Cartaz da exposição
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