Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.11.-0001 30.11.-0001

Cecília Meireles pelos olhos da nova geração de poetas

Por Maria Fernanda Moraes
 
Cecília Meireles não tem uma biografia oficial. Mas, para os leitores que acompanharam suas crônicas, isso nem faria tanta diferença assim. Foi por meio delas – as crônicas que eram publicadas em jornais da época – que ela contava fatos da sua vida. Na bem-humorada “A história de uma letra”, publicada no jornal A Manhã, em 1945, Cecília conta que antes de se consagrar como poeta, seu nome era grafado com dois “eles”: Meirelles. Mas a superstição falou mais alto, já que ela acreditava no “valor cabalístico das letras” e passou a escrevê-lo com um “ele” só.
 
Em “Uns óculos”, publicada em 1944 no mesmo jornal, ela compartilha com os leitores que enxergava quase nada sem os óculos. A jornalista Valéria Lamego, autora de A Farpa na Lira: Cecília Meireles na Revolução de 30, conta que foi também pelas crônicas de jornal que os leitores puderam conhecer a admiração de Cecília pelas culturas orientais, sobretudo a indiana, pelo pensador indiano Rabindranath Tagore, pelos poetas brasileiros e latino-americanos e pela liberdade.
 
Carioca, nascida em 7 de novembro de 1901 no bairro do Estácio, Cecília lançou seu primeiro livro de poemas em 1919 e, nos anos seguintes, já estavam publicadas suas obras de inspiração simbolista. Ela não entrou para a Academia Brasileira de Letras, mas tornou-se a primeira mulher a ter um trabalho – Viagem, de 1938 – premiado pela instituição. Depois vieram outras publicações que a consagraram, como o Romanceiro da Inconfidência (1953) e Poemas Escritos na Índia (1962). Em 1964, lançou Ou Isto ou Aquilo, uma coletânea de poemas para crianças que inaugura uma nova fase da poesia infantil brasileira.
 
Além da atuação literária, ela teve também importância política em sua época. Entre 1930 e 1933 – quando a mulher sequer exercia o direito de voto –, foi uma jornalista engajada e assinava uma coluna diária sobre educação, na qual chegou a acusar o então ministro de educação, Francisco Campos, de medalhão e o então presidente, Getúlio Vargas, de Sr. Ditador.  Ela defendia, por exemplo, uma educação moderna – era contra o ensino religioso e a favor das escolas mistas.
 
Para lembrar os 50 anos de sua morte (9 de novembro de 1964), o SaraivaConteúdo convidou poetas da nova geração brasileira para falar sobre o encantamento com a sua obra e a importância de Cecília para essas gerações:
 
Coletânea de poemas para crianças que inaugura uma nova fase da poesia infantil brasileira
 
ANA MARTINS MARQUES, AUTORA DE DA ARTE DAS ARMADILHAS
“Meu primeiro contato com a poesia da Cecília Meireles foi com o livro Ou Isto ou Aquilo. Era uma edição ilustrada, e até hoje os poemas surgem para mim associados àquelas ilustrações, como se as ilustrações e os textos fossem uma coisa só. Foi, possivelmente, meu encontro inaugural com a poesia, e acho que foi em grande parte desse primeiro contato que nasceram, já aos 8 ou 9 anos, os primeiros poemas que ensaiei escrever.
 
Acabei me afastando da poesia da Cecília na juventude, talvez por uma certa vertigem pelas 'alturas' a que a sua poesia me lançava (acho que foi José Paulo Paes que disse num ensaio que a poesia da Cecília frequenta a 'região das terras altas'). Mas guardei uma admiração e um afeto enormes por alguns poemas a que retorno sempre, como 'Canção', 'Retrato', 'Discurso', 'Timidez' (do livro Viagem), 'Inscrição na areia', 'Encomenda', 'Explicação' (de Vaga Música), 'Beira-mar', 'Interpretação', 'Inscrição' (de Mar Absoluto), e também por alguns de seus poemas de viagem, nos quais a abstração e a rarefação que marcam muito da sua obra cedem a uma dicção mais concreta e prosaica – são poemas mais 'nutridos da poeira do mundo', para usar uma imagem de um de seus belos poemas escritos na Índia.
 
Dediquei um poema curtinho a Cecília no meu primeiro livro, "Senha para Cecília", um poema que, partindo de uns versos de Rimbaud – 'Por delicadeza / perdi minha vida' –, lidava com essa dinâmica de delicadeza e distância, elevação e clareza, peso e leveza, que me afastava e ao mesmo tempo me atraía na poesia da autora. Tenho ainda com a Cecília uma conexão absolutamente casual: nasci no dia do seu aniversário, 7 de novembro. Sem que isso tenha, obviamente, 'importância nenhuma' (como se diz no 'Inscrição na areia') – ou talvez tenha e não tenha importância, assim como 'o mar tem e não tem sereias' –, essa coincidência me agrada muito.”
 
MARÍLIA GARCIA, AUTORA DE VINTE POEMAS PARA SEU WALKMAN
“Lembrei de algumas coisas relacionadas à Cecília Meireles no meu percurso; e foi engraçado, pois encontrei uma relação que não é tanto com a palavra apenas (como em geral os diálogos literários costumam ser), mas com a imagem e a música, pois os momentos mais marcantes da poesia da Cecília para mim vieram por meio do Isto ou Aquilo (na linda edição colorida da Nova Fronteira, com uma borboleta na capa) e do poema 'Retrato', musicado pela Sueli Costa.”
 
CLARICE FREIRE, AUTORA DE PÓ DE LUA
“Conheci a Cecília no tempo do colégio. Eu devia ter entre 12 e 14 anos. Uma fase muito introspectiva da minha vida, por assim dizer. Passava muitas horas sozinha, em meu mundo, observando os mundos dos outros e deixando a imaginação viajar para muito longe. Quando comecei a ler Cecília me encantei, porque não apenas já era capaz de compreender suas palavras, como também me via em muitas delas. Era como uma amiga que dizia o que eu não podia falar. Passei a procurá-la pela internet o máximo que podia. Tinha uma situação, um sentimento, procurava o que Cecília Meireles achava sobre o assunto (risos). Ela foi essencial para o meu encantamento pela poesia. Vi que naquele formato eu também conseguia falar.
 
Meu poema preferido é 'Lua adversa'. Nele, ela fala que tem 'fases como a lua'. Acho incrível que hoje, ironicamente, meu primeiro livro se chama Pó de Lua e ele é dividido justo nas suas quatro fases. Acho que meu fascínio pelo satélite veio desde muito cedo. Me vi por completo nesse poema de Cecília Meireles ainda na adolescência, e o carregava em todos os lugares. Até sabia declamá-lo. Sou assim, como tal. Mutante, fases minhas, fases tuas… é brilhante essa poesia.”
 
Cecília tinha admiração pelas culturas orientais, sobretudo a indiana
O livro recria os dias de angústias e esperanças de um grupo de intelectuais mineiros
 
MICHELINY VERUNSCHK, AUTORA DE A CARTOGRAFIA DA NOITE
“Meu primeiro contato com a poesia de Cecília foi na escola, com o poema 'Leilão de jardim'. Creio que foi um dos primeiros poemas que decorei na vida. Depois é que conheci o livro Ou Isto ou Aquilo, que é uma preciosidade.
 
O que mais me chama a atenção como característica da poética de Cecília é a música que mora em seus poemas. Uma música circular, quase obsessiva. Encontrar essa música é um dos exercícios que empreendo na minha escrita (em poesia e na prosa também).
 

Cecília ecoa. E vive, com sua poesia imprescindível. Por causa de um poema dela, 'Motivo', no qual ela diz 'não sou alegre nem triste, sou poeta', eu e várias mulheres  de gerações posteriores à dela entendemos que poesia não tem gênero, e por isso preferimos 'poeta' a 'poetisa'. Talvez seja preciso a ressignificação do termo 'poetisa' para que ele perca a carga pejorativa que ganhou ao longo do século XX, como se a poesia feita por mulheres fosse coisa de 'mulherzinha', de 'poetisa'.  Talvez seja preciso que nós mulheres tomemos de volta para o nosso léxico e afetos esse substantivo.”

 
 
Recomendamos para você