Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.06.2009 19.06.2009

“”Cê tá pensando que eu sou lóki, bicho?””

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

 

> Veja a entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo 

O nosso complexo de vira-lata muitas vezes nos cega para coisas que estão a um palmo do nosso nariz. É preciso que algo seja referendado lá fora para enxergarmos a real importância que tem. Com Arnaldo Baptista, fundador dos Mutantes, que, junto com seu irmão Sérgio Dias e Rita Lee, revolucionou para sempre o rock brasileiro e mundial, algo muito próximo disso chegou a acontecer. Foram preciso 30 anos e a reverência de nomes como Sean Lennon, Kurt Cobain e Beck para que começássemos a tratar com o devido respeito Os Mutantes e o grande cérebro por trás do fênomeno. 

Criado no fim dos anos 1960, dentro do contexto tropicalista, Os Mutantes subverteram a psicodelia inglesa, apimentaram-na com a nossa brasilidade e malemolência para mudar definitivamente o rumo do rock n’ roll. Com letras debochadas e nonsense, guitarras e distorções exclusivas, fabricadas pelo irmão mais velho de Arnaldo e Sérgio, Cláudio Baptista, barulho e suingue, experimentalismo e lisergia, alcançaram algo que muitos sonharam e poucos conseguiram. Num grande sonho juvenil, entre 1968 e 1972 e com apenas cinco discos seminais, mudaram o rumo do música pop.

Depois veio uma onda progressiva, um tanto equivocada, a separação de Arnaldo e Rita, a carreira solo também arrebatadora, com seus grandes momentos em Loki? (1974) [Ouça o álbum na íntegra] e Singin´alone (1982) e uma espiral de depressão, um caminho sobre a linha tênue entre a vida e a morte, após a tentativa de suicídio ao se jogar do hospital onde estava internado, o coma e o recolhimento.

Por fim, o reaparecimento de Arnaldo e dos Mutantes, com Sérgio, mas sem Rita, com um show arrebatador em Londres, em 2006, e depois alguns shows pelo país, uma volta triunfal para receber as flores em vida, como cantava Nelson Cavaquinho, sobre a dificuldade que temos de homenagear nossos gênios antes que eles desapareçam.

Essa trajétória ganha uma mais que merecida homenagem no documentário de Paulo Henrique Fontenelle, Loki, o primeiro produzido pelo Canal Brasil, e com estréia nesta sexta, 19 de junho.

Abaixo, o diretor fala sobre Arnaldo e como foi enquandrá-lo no cinema.

A IDÉIA

Paulo Henrique Fontenelle. O filme começou como um programa de TV, que foi ao ar em 2005, no Canal Brasil. Em 2004, fui à casa do Arnaldo fazer uma entrevista pro “”Luz, Câmera, Canção””, programa do Canal Brasil. No processo de fazer o programa, me afundei na história dele, lendo todos os livros possíveis, ouvindo tudo o que é música, descobrindo músicas novas, inéditas do Arnaldo. 
Fiquei impressionado como é que uma pessoa tão importante para a nossa música, com uma história tão rica, nunca tinha sido retratada. Ele estava completamente esquecido em Juiz de Fora. Por isso surgiu a idéia de contar a história dessa pessoa, que mudou a música brasileira e até a música mundial. Você pode ver no filme que ele é reverenciado lá fora mais até do que grandes astros. Pro Sean Lennon ele é a maior reverência, Kurt Cobain, Beck.

O PROCESSO

Fontenelle. Passamos 2005 inteiro produzindo o programa, tentando arrumar outras entrevistas, imagens de arquivo. No final, ficou com meia hora, foi muito bem repercutido na mídia e com os fãs. E quando acabou, ficou uma frustração muito grande contar a história do Arnaldo em apenas meia hora. É uma história muito rica, muita coisa ficou de fora, muitas imagens bacanas que a gente tinha arrumado. 
Então surgiu a idéia de expandir um pouco mais o projeto, e fomos acompanhando ele no dia a dia, em Londres, Juiz de Fora, São Paulo. O bacana foi que o Arnaldo estava disposto a falar sobre tudo da vida dele, não quis deixar de tocar em nenhum assunto, nenhum tema, por mais doloroso que fosse, por mais lembranças tristes que tenham causado nele, ele foi superaberto e deu carta branca para a gente fazer o que quisesse com o filme.

O RESULTADO

Fontenelle. No final, acabamos produzindo esse longa-metragem que ficou, no primeiro corte, com três horas de duração. Deopis ficou com apenas duas horas, infelizmente. Foi bacana ver nesse tempo como o Arnaldo é uma pessoa simples, passou por tantas coisas e hoje alcançou a paz. Todo mundo que fica com ele se sente muito bem, tranqüilo, é uma pessoa que transmite uma paz, e a gente aprende como a vida pode ser simples. Ele transmite muito isso, simplicidade e sabedoria.
A primeira metade do filme é a história do Arnaldo dentros dos Mutantes, como ele criou a banda, a época dos festivais, um documento muita bacana para quem gosta da banda. Depois vem toda a fase da carreira solo dele.
> Veja a entrevista exclusiva do diretor ao SaraivaConteúdo e o trailer de Loki

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