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CCBB exibe a mais completa retrospectiva de Ingmar Bergman no Brasil

Por Bruno Ghetti

 
Existem os chamados “grandes cineastas”. E existem aqueles que reinventaram o cinema. A este segundo grupo pertencem pouquíssimos diretores, como Federico Fellini, Luís Buñuel, Akira Kurosawa e Ingmar Bergman.
 
Este último, o grande mestre do cinema escandinavo, ganha sua mais completa mostra em território brasileiro, até 10 de junho, no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB do Rio de Janeiro.
 
A retrospectiva segue depois para São Paulo, entre 13/6 e 15/7, e em seguida para Brasília, de 19/6 a 22/7. A programação traz mais de 50 filmes, a maior parte dirigida por Bergman, mas alguns tendo o diretor como tema.
 
A lista inclui desde longas muito famosos do cineasta, como Morangos Silvestres (1957), Persona (1966) e Gritos e Sussurros (1972), a obras pouquíssimo conhecidas por aqui.
 
Destaque para uma série de filmes publicitários dirigidos pelo cineasta nos anos 50 para uma marca de sabonete e dois documentários de Bergman sobre os moradores da Ilha Fårö, onde o cineasta viveu grande parte de sua vida.
 
Bergman (1918-2007) começou a fazer filmes nos anos 40, quando também se destacou no teatro, mas se tornou mundialmente famoso só na década seguinte. Ficou muito conhecido por longas intelectualizados e de imagens fortes, que abordam temas indigestos, com um gosto especial por questões metafísicas.
 
Os heróis bergmanianos estão constantemente diante de situações-limite, onde revelam suas fraquezas morais, suas pulsões mais veladas e, muitas vezes, um lado desconhecido de suas personalidades.
 
Os personagens, em geral, denunciam a falta de sentido da vida e revelam um grande temor pela morte; mesmo se têm crença religiosa ou se são completamente materialistas, a um certo ponto colocam suas convicções em questão.
 
Ou, como colocou certa vez o crítico Ely Azeredo, o melhor da essência de Bergman “está em cultivar com paixão religiosa a dúvida de toda certeza”.
 
O espectador que for à mostra vai entrar em contato com o profundo pessimismo bergmaniano, mas também poderá conhecer sua veia cômica, expressa em longas como Sorrisos de uma Noite de Amor (1955) e Para Não Falar de Todas Essas Mulheres (1964).
 
Também será uma excelente oportunidade para observar o quanto os filmes de Bergman são sofisticados em termos visuais.
 
Muitos deles investem em imagens carregadas de simbolismo (como nas cenas de sonho de Morangos Silvestres), outros são abertamente naturalistas (as imagens de Harriet Andersson em Monika e o Desejo, de 1953, que encantou os cineastas da Nouvelle Vague francesa).
 
Enquanto uma parte considerável recorre a recursos expressionistas (as cenas da humilhação do palhaço e sua mulher em Noites de Circo, de 1953; ou o contrastado preto e branco do visual da Morte em O Sétimo Selo, de 1957).
 
A retrospectiva também será uma oportunidade para o público perceber o quanto o cinema de Bergman permanece atual, em temática e em estilo – o diretor ainda hoje segue como uma fortíssima referência entre novos cineastas, assim como influenciou diretores hoje consagrados, de estilos tão díspares como o americano Woody Allen, o dinamarquês Lars Von Trier ou mesmo o brasileiro Walter Hugo Khouri.
Bengt Ekerot interpreta a Morte, em O Sétimo Selo (1956)
 
Um retrato do Bergman que poucos conhecem é traçado por dois documentários presentes na mostra, que são dois dos destaques do evento: Imagens do Playground (2009) e Mas o Cinema É Minha Amante (2010) – este último, repleto de imagens de bastidores de filmagens e de depoimentos de diretores influenciados pelo sueco. 
 
Ambos os filmes foram dirigidos pelo cineasta Stig Björkman, compatriota de Bergman e que o conheceu muito bem, tendo-o entrevistado diversas vezes ao longo dos anos (ele lançou nos anos 70 o livro O Cinema Segundo Bergman, que virou uma bíblia para os admiradores do diretor).
 
Björkman virá ao Brasil para palestras (em data ainda não definida). Antes de vir, porém, o cineasta contou ao SaraivaConteúdo um pouco sobre as suas lembranças do amigo Ingmar, além de dar dicas do que não perder no festival. Veja a seguir.
O senhor conheceu pessoalmente Ingmar Bergman. Que tipo de pessoa ele era na intimidade?
Stig Björkman. Eu me lembro principalmente da sua enorme curiosidade. Ele tinha uma grande curiosidade a respeito da vida – pela arte, teatro, cinema, literatura – e também pelas pessoas. Vivia de maneira muito reservada, tinha uma vida próspera e tipicamente burguesa, um estilo de rotina que precisava ter para ser capaz de criar, fosse para o teatro ou para o cinema. Ele quase nunca saía da Suécia, e quando não estava em seu apartamento em Estocolmo ficava em sua casa, na ilha Fårö. Mas ele tinha o hábito de se dedicar por algumas horas a telefonemas, todos os sábados e domingos, das 11h às 13h, quando os amigos e colegas de trabalho podiam entrar em contato com ele e através dos quais ele se informava sobre todos os assuntos que o interessavam – desde coisas que diziam respeito a temas sociais e culturais até meras fofocas. Ele era um leitor ávido e assistia a centenas e centenas de filmes a cada ano. Tinha uma coleção de vídeos e DVDs e mantinha o hábito de ver todos os filmes suecos que eram produzidos. Ele também tinha o costume de rever alguns dos grandes clássicos do cinema várias vezes. Um filme como A Carroça Fantasma [1921], de Victor Sjöström, ele via ao menos uma vez por ano em seu cinema particular em Fårö; provavelmente, até com mais frequência que isso…
O senhor acredita que a imagem que as pessoas têm de Ingmar Bergman vai mudar depois que virem seu documentário Mas o Cinema É Minha Amante?
Stig Björkman. Acredito que sim.
 
Em que sentido?
Stig Björkman. As pessoas que assistem ao filme, principalmente as de fora da Suécia, ficam surpresas com o bom humor e a afabilidade de Bergman. Surpreendem-se ao ver que, enquanto trabalhava, ele era uma figura extremamente alegre. Mas como o próprio Bergman já disse, o fato de você fazer filmes que lidam com um tema sério não quer dizer que você fique o tempo todo perambulando pelo set de filmagem ou pelos estúdios com a cara amarrada, sentindo-se angustiado.
 
Vários filmes de Bergman ficaram muito famosos. A retrospectiva permitirá ao público conhecer obras importantes, mas não muito conhecidas. Há algum desses filmes que o senhor considera imperdível?
Stig Björkman. Um filme menos conhecido do grande público, mas que vale a pena ser visto – e que é um dos meus favoritos – é Da Vida das Marionetes [1980], que foi realizado na Alemanha, com atores daquele país.
 
Por quê?
Stig Björkman. É um filme bastante experimental, em estilo e visualmente. É um estudo sobre os motivos por trás do assassinato de uma jovem prostituta. É ao mesmo tempo um relato muito frio e racional sobre um crime quase inexplicável e também uma história bastante apaixonada e muito absorvente. Foi filmado em um brilhante preto e branco, o mais solene já usado pelo fantástico Sven Nykvist, diretor de fotografia de muitos filmes de Bergman.
 
Há muitos diretores influentes e reconhecidos, mas Bergman conseguiu um nível de reconhecimento dificílimo de alcançar – assim como Fellini, Kurosawa e Buñuel. Que qualidades do cinema bergmaniano o senhor destacaria que o tornaram tão importante?
 
Stig Björkman. A diferença em Bergman é que ele – assim como esses outros grandes realizadores que você citou – tentou (e conseguiu) ampliar os limites da linguagem do cinema. Além de mudar e refinar o nosso modo de experimentar a arte cinematográfica.
Ingmar Bergman
Onde: CCBB – Rio de Janeiro (Rua Primeiro de Março, 66, Centro – RJ)
Quando: de 8/5 a 10/6
Quanto: R$ 6 (cinepasse válido até o fim da mostra, que dá direito a ver todos os filmes; é preciso retirar senhas 1 hora antes de cada sessão)
 
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