Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.08.2014 25.08.2014

Cassandra Clare: leitores brasileiros surpreendem pelo entusiasmo

Por Andréia Martins e Carolina Cunha
A escritora norte-americana Cassandra Clare veio ao Brasil pela primeira vez para participar da 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e de diversos encontros com fãs, todos ansiosos para ver de perto a autora das séries Instrumentos Mortais (Galera Record) e Peças Infernais (Record).
Antes de começar a maratona de encontros e autógrafos, a escritora recebeu o SaraivaConteúdo para uma rápida conversa. Simpática e ansiosa para conhecer os fãs brasileiros, Cassandra falou sobre a relação com seus leitores, o que a levou a escrever histórias de fantasia e ainda revelou que personagem de outra série, segundo ela, daria um ótimo caçador de sombras. Leia a entrevista abaixo.
Fale um pouco da sua relação com os fãs brasileiros. No que eles diferem do restante?
Cassandra Clare. Os leitores brasileiros talvez sejam os mais entusiastas entre os meus fãs. Eles leem os livros e não apenas isso. Eu recebo muitas cartas dos brasileiros, e elas são muito específicas. Eles dizem: “Esta personagem tem olhos castanhos, mas a mãe tem olhos verdes e o pai, azuis, então ela deveria ter olhos azuis ou verdes; ou talvez este não seja realmente o pai dela. Mas nós fizemos uma lista de seus possíveis pais. Então, quem é?”. E penso: “Como assim?” (risos). Eles se envolvem no que leem.
Você encerrou Instrumentos Mortais recentemente. Como foi encerrar a saga e como saber a hora de colocar um ponto final na história?
Cassandra. Há sempre a tentação de manter os personagens que você ama seguindo, mas você se preocupa se vai se tornar algo que as pessoas vão dizer “Ah, estava indo bem, mas ficou longo demais”. Você quer encerrar uma história quando os personagens ainda são amados e as pessoas ainda se importam com o que acontece com eles.
Os personagens já estão deixando saudade?
Cassandra. Eu sinto falta de todos. Sinto falta de Clary, Jace, Simon e Alec… Não consigo escolher um (risos). Mas o que eu mais sinto falta é de conhecer os personagens tão bem. Quando você conhece bem os personagens, eles são como amigos. Você sabe como eles vão agir em uma situação, tudo que os motiva e que é importante para eles. Estou escrevendo uma nova série agora; de certa forma, uma continuação de Instrumentos Mortais, mas com diferentes personagens. O processo de começar a conhecer os novos personagens e não saber tudo sobre eles me faz sentir falta dos antigos personagens.
                                                                                                    Divulgação Bienal
Cassandra Clare encontra os fãs na Bienal
A mitologia é muito presente em seus livros. O assunto sempre te interessou? E de que forma te inspira em suas histórias?
Cassandra. Sempre fui fascinada por mitologia e interessada na mitologia de diferentes religiões e culturas, e uma das coisas que mais me fascinam são as versões que você pode encontrar da mesma história. Como a de um herói que acha uma fonte mágica para desafiar um monstro… Isso está presente em diferentes culturas, na mitologia japonesa, chinesa, irlandesa. Então, quando comecei a escrever Cidade dos Ossos (1º volume da série Instrumentos Mortais), eu queria que os personagens acreditassem que todas as histórias podem ser verdadeiras, como acontece na mitologia.
Você tem algum ritual ou superstição para escrever?
Cassandra. Eu não aguento ficar olhando para uma página em branco. Então, quando vou escrever, coloco um trecho de algo que já escrevi só para não olhar para a página em branco.
Que personagem de outra história você acha que daria um bom caçador de sombras?
Cassandra. Katniss, [protagonista] de Jogos Vorazes. Ela pode matar qualquer um com aqueles olhos cinzentos (risos).
Na internet, em alguns fóruns, os fãs reclamam que você os fez sofrer muito nos livros de Instrumentos Mortais, mesmo matando menos personagens do que George R.R. Martin. Você concorda?
Cassandra. (risos) Isso é interessante e não deixa de ser verdade, de certa forma, embora eu mate menos do que George R.R. Martin, com certeza. Mas acho que há uma ideia nos meus livros de que ninguém está a salvo. Não há garantias de que tudo vai terminar bem, e eu sempre faço os personagens passarem por algo amargo. Então, eles sempre sentem algo como: “Talvez tenha algo para nós, mas o que será que vão nos tirar para isso?”. E eu acho que é importante confrontá-los com a realidade. As pessoas morrem. Na série Peças Infernais, muitos leitores reclamam por eu ter matado o Will. Eu respondo: “Mas ele tinha 84 anos! As pessoas morrem”. E eles continuam tristes, porque acontece na página e eles precisam ler aquilo.
O episodio em que suas obras foram banidas de bibliotecas de escolas tradicionais dos EUA por trazerem um personagem gay te surpreendeu?
Cassandra. Foi uma surpresa para mim que as pessoas banissem um livro por ter um personagem que é gay. Mas acho importante que, quando isso acontece, as pessoas protestam. Na literatura, é importante que todo tipo de pessoa se veja nos livros. Acho que banir os livros com esses personagens dos adolescentes, trancá-los em um armário e não deixar que eles leiam traz um enorme dano a esses jovens. E não à toa, nós temos um índice alto de suicídio de jovens gays.

Você escreve livros de fantasia, mas, fora esse gênero, o que gosta de ler?

Cassandra. Eu devo ler de tudo. Mas adoro mistérios, thrillers, Harlan Coben, e adoro realismo mágico, como Borges, Gabriel García Marques e alguns autores franceses. A mistura do mágico com a vida cotidiana me atrai muito.
O que fez você escrever livros de fantasia?
Cassandra. Bem, às vezes você procura um livro e não acha, então decide escrevê-lo. Li Harry Potter e Rick Riordan, entre outros, e todos eram sobre um garoto. Então me perguntava: por que não consigo achar uma história dessas sobre uma garota? Eu adoraria uma ficção de fantasia contemporânea com muita ação, sobre uma garota que estava descobrindo quem ela era. Foi o desejo de criar uma história sobre uma heroína forte.
Que tipo de história você criaria no Brasil? Nós estamos mais para zumbis, vampiros ou dragões?
Cassandra. Precisaria passar mais um tempo, mas há um lugar em São Paulo, a Catedral da Sé… Acho que se eu passasse mais tempo aqui, gostaria de conhecer melhor… Bem, acho que deveria escrever algo sobre um caçador de sombras brasileiro, já que tenho tantos fãs. Seria divertido.
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