Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.05.2013 02.05.2013

Casa onde viveu Hilda Hilst vira refúgio para escritores em busca de inspiração

Por Carolina Cunha
 
No começo só havia capim e uma figueira. E foi ao lado dessa poderosa árvore que, em 1965, a escritora Hilda Hilst construiu sua residência, em um lugar afastado no interior de São Paulo. Batizada de Casa do Sol, a chácara próxima de Campinas foi moradia da autora durante quase 40 anos e o local onde produziu a maior parte da sua obra.
 
A casa logo se tornou um ponto de encontro de amigos de Hilda, muitos deles escritores que por ali viveram alguns dias e também escreveram, como Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles, o poeta Bruno Tolentino e o espanhol José Mora Fuentes.
 
Depois que Hilda morreu, em 2004, a chácara foi tombada e tornou-se a sede do Instituto Hilda Hilst (IHH), criado para preservar sua memória. A decoração do local traz móveis e objetos originais, como fotos, quadros e esculturas. Um dos xodós dos visitantes é a biblioteca, com obras que fizeram parte do acervo da escritora.
 
Desde 2012, a organização recebe hóspedes para residências artísticas. Em busca de tranquilidade e inspiração, pessoas de todo o país pagam para morar em algum dos quartos a fim de realizar um projeto artístico. A estadia pode variar de uma semana a um mês.
 
“Fizemos uma retomada do que Hilda já fazia quando morava na Casa do Sol: receber amigos e artistas. Só que dessa vez resolvemos institucionalizar as residências, como dizia Hilda, fazendo com que o ‘espírito da coisa’ continuasse”, diz o artista plástico Jurandy Valença, diretor de projetos do IHH.
 
Hilda Hilst, em seu escritório na Casa do Sol
Mais de 30 pessoas já passaram pela experiência. O perfil é diverso, formado por escritores, fotógrafos, artistas visuais, pesquisadores e atores. Jurandy reconhece que a vocação da casa é ser um espaço de criação, e os únicos critérios para a pessoa ser aceita são “conhecer a obra de Hilda e gostar de cachorros”. A escritora era apaixonada por cães e, hoje, onze vira-latas circulam pelos cômodos e área externa. Um deles, Nenê, é do tempo em que a escritora estava viva.
 
O primeiro a se hospedar foi um rapaz que queria escrever poesias; depois, a escritora paulista Roberta Ferraz, que seria a segunda residente do projeto. Desde 2010 ela tentava tirar do papel um texto inspirado na dona da casa, de quem é fã. A residência foi o pontapé que faltava. “Hilda é, para mim, de longe, a força mais intensa na literatura”, diz.
 
Roberta passou 15 dias na casa e conta que teve dificuldades para “soltar a mão”. Estar dentro da residência da escritora a deixou numa espécie de paralisia. “No primeiro dia, quase não consegui me mexer, quem dirá escrever ou mesmo falar. Fiquei pasmada, ali, rodopiando, olhando as dimensões daquele lugar que eu já tinha desenhado mil vezes na cabeça”.
 
Para tentar destravar, ela começou a escrever sobre suas sensações em um blog. Depois, encontrou refúgio dentro da biblioteca que fora de Hilda. Passava os dias lendo, fazendo anotações e rascunhando palavras. Quando voltou a São Paulo, Roberta conseguiu escrever 30 paginas do livro, que tem o nome provisório de “Agonia Febre-Fulgor”.
 
A paulista acredita que cada detalhe da casa impele a reflexão e a criação. “A casa extravasa a biografia de Hilda para que a escrita possa acontecer. É um monastério da escrita. É um espaço ritualizado, que foi pensado para ser assim e foi vivido dessa maneira, com tudo que a entrega à escrita pede: comunhão, liberdade, silêncio, fragilidade, magia, ritual, trabalho, tempo, dedicação”, conta.
 
Antes de fazer a sua residência, a escritora Mariela Mei, que vive em Campinas, também passou por um bloqueio criativo. Precisava de silêncio para escrever um livro de contos e, em 2012, ficou uma semana na Casa do Sol. Em abril deste ano, retornou para mais cinco dias. “Consegui escrever, e muito. O período que passei na casa foi essencial para que eu conseguisse centrar as ideias”, conta ela.
 
O dramaturgo mineiro Juarez Dias está preparando um livro sobre a Casa do Sol, que se chamará "A Casa da Senhora H”. E para buscar informações, em janeiro deste ano ele viajou de Belo Horizonte para Campinas e encarou uma residência de 15 dias.
 
Juarez ficou hospedado numa antiga dispensa que foi transformada em quarto. “Pude inventariar tudo, acessar todo o acervo de livros, experimentar o cotidiano da casa, conviver com seus moradores e ouvir deles histórias que ali se passaram. Minha intenção era ouvir o que a Casa teria a me dizer”, diz ele, que já planeja voltar ao local em julho deste ano para uma nova estadia. Desta vez, quer descobrir o que os objetos ainda não lhe contaram.
 
“A Casa é um templo, um lugar que exige que você o descubra em cada detalhe. Muitas coisas aconteceram ali, mas, principalmente, a vida de uma escritora que decidiu se dedicar à literatura e construiu esse lugar para isso. Há um misto de sagrado e profano, de uma vida em comunidade quase utópica, o encontro dos seres humanos com a natureza e os animais. Cada objeto ali tem um significado e quer nos dizer algo, resta-nos ouvi-los”.
 
Juarez Dias, consulta biblioteca
Jurandy Valença, artista plástico e diretor do IHH
 
 
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