Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.07.2012 27.07.2012

Carreira estabelecida entre a ficção e a realidade

Por Cristina Judar e Maira Reis
 
O jornalista e escritor José Castello é um notável profissional da escrita. O crítico literário, cronista, biógrafo, jornalista e romancista – que também trabalha com a formação de jovens escritores– já ganhou dois Prêmios Jabuti com os livros Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão e Ribamar.
 
O autor da coluna semanal Prosa & Verso, do jornal O Globo, é um ótimo contador de histórias. Com muito bom humor e uma forma de narrar cativante, ele conversou com o SaraivaConteúdo sobre os diferentes tipos de escrita de cada profissão e sua memorável entrevista com Clarice Lispector, entre outros assuntos.
 
Quais foram os impactos da função jornalística na sua escrita ficcional?
José Castello. Por um lado, a função me atrapalhou muito por ser uma espécie de ‘militância jornalística’. Para você ter uma ideia, eu saí da redação com quase 40 anos para escrever o meu primeiro livro. Além disso, a escrita do jornalismo clássico tem ênfase na clareza e na objetividade, o que para o ficcionista é péssimo. Ao mesmo tempo, o jornalismo é o reino do imprevisível, em que, a cada dia, você lida com uma pauta diferente, o que o obriga a sempre se renovar, ativar a sensibilidade, a agilidade mental, algo que é muito importante para o escritor. E, como sempre trabalhei com jornalismo literário e voltado para a cultura, isso foi ótimo. O jornalismo literário está impregnado da própria literatura. Inclusive, sobre a minha coluna no O Globo, que sai aos sábados, muitos dizem que ela trata de crítica literária. Porém, não acho que assim deva ser denominada, já que nela eu falo um pouco de mim, dos meus sonhos e de alguns escritos.
A sua experiência com a formação de escritores serve de material para aquilo que você escreve?
 
José Castello. Eu ministro vários tipos de oficina. As “oficinas da Imaginação”, por exemplo, não têm com objetivo ensinar a escrever bem, mas sim o de fazer os participantes encontrarem sua própria maneira de errar. Não trabalho com técnica ou estilo, mas com discussão de textos no sentido de fazer as pessoas se conhecerem, descobrirem sua voz interior. Nesse processo todo, também me enriqueço com isso, pois, na medida em que me deparo com os impactos, sustos, surpresas e as soluções que os participantes encontram, aprendo muito.
E em relação aos jovens jornalistas, que tipo de conselho você dá?
 
José Castello. A chave do jornalismo é saber trabalhar com a estranheza, com o inusitado, o imprevisível. A grande maioria dos profissionais, quando vai fazer uma entrevista, já chega com uma lista fechada de perguntas. Mas, passado o tempo, você vê o quanto é importante, antes de qualquer coisa, ficar quieto, observar o ambiente, o entrevistado e o seu universo, para que aí então possa extrair dele as melhores informações.
Entre as personalidades que você entrevistou, existe uma história mítica sobre Clarice Lispector. Você poderia descrevê-la?
José Castello. Fui entrevistá-la e coloquei um gravador sobre a mesa. Quando ela viu o objeto, surtou, começou a gritar e saiu da sala, em pânico. Alguns instantes depois, sua amiga, Olga Borelli, voltou com ela e abraçou-a, acalmando-a. Clarice, então, pegou o gravador com a ponta dos dedos, como se fosse um rato morto, e levou-o para fora do meu alcance visual. Minutos depois, ela voltou balançando uma chave e dizendo “aquela coisa está bem guardada, devolverei no final da entrevista”. Para mim, o mais interessante dessa experiência foi a demonstração da relação sensível de Clarice com os objetos e a palavra, algo que diz tudo sobre a sua literatura, já que ela possuía uma relação corporal com a palavra.
 
 
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