Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.06.2010 22.06.2010

Carpinejar e a mulher perdigueira

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Fabrício Carpinejar ao SaraivaConteúdo 

Com personalidade e escrita irreverentes, o poeta Fabrício Carpinejar a cada dia conquista mais leitores. Uma característica relevante de seu trabalho é a honestidade de sua escrita, muitas vezes frases incômodas que fogem do lugar comum. 

Autor de 18 livros, entre os diversos prêmios conquistados, o Prêmio Jabuti 2009, com o livro de contos Canalha!, Carpinejar prossegue dissecando o universo feminino – em que o ciúme numa relação afetiva pode ser visto sob uma ótica positiva. 

Conectado ao seu tempo, utilizando a web em todas suas possibilidades, ele também é autor de Www.Twitter.Com/carpinejar – uma obra formada por aforismos publicados no Twitter, onde ele agrega mais de 33 mil seguidores interessados em literatura. São frases de até 140 caracteres que captam as trivialidades do cotidiano com sensibilidade. 

O encontro com Fabrício Carpinejar ocorreu durante o Festival da Serra da Mantiqueira, em São Francisco Xavier, após uma oficina literária. O bate-papo sobre a paixão pela escrita foi realizado na Biblioteca Solidária da charmosa cidade. 
 

 

Depois do livro Canalha! você publica Mulher Perdigueira. Fale sobre esse novo livro.

Carpinejar – Depois do Canalha! veio o livro O amor esquece de começar, onde tentei abordar o ponto de vista feminino do relacionamento. E tem muito mais aquela levada lírica. ECanalha! tenta centrar na crise do masculino, como o homem mudou e quem seria o sedutor hoje. Tento revigorar esse canalha, atualizá-lo. O canalha não é como antes, aquele caricato, que coça o saco, palita os dentes… Não. Hoje ele está muito mais sensível, muito mais autocrítico, muito mais irreverente. Antes o canalha defendia uma reputação, hoje ele defende o respeito. São duas esfera diferentes. E agora trago a Mulher perdigueira, meu terceiro livro de crônicas. A mulher que telefona toda hora pra contar notícias, ela mais parece uma agência de notícias. Se uma mulher se aproxima, ela faz um escândalo. É maravilhosa essa mulher! A gente só pensa no lado negativo, não é? Mas esquece o quanto que ela é terna, o quanto que ela é cúmplice, o quanto que ela é confidente, o quanto que ela se importa realmente contigo, o quanto que ela é leal, o quanto que ela é fiel. Sabe aquela pessoa, você pode estar pobre ou rico, que ela realmente te quer? As pessoas estão castradas para mostrar o temperamento. Não pode ter temperamento. Se tu tem temperamento é loucura. É louco! É desajustado. Quer chamar atenção, é marqueteiro. Meu Deus! Deixa a pessoa confessar que é ciumenta, deixa a pessoa exercitar seu ciúme! A gente precisa dar liberdade ao ciúme! Se a mulher quer mexer no meu e-mail, mexe, vou deixar aberto. Se a mulher quer mexer no meu celular, mexe, vou deixar aberto. 

Você é ciumento?

Carpinejar – Totalmente. Eu sou uma "mulher perdigueira". [risos] Confessa! Não me venha com esse papo de morar em casas separadas. Eu venho de uma família que tinha que fazer puxadinho atrás, nunca morar longe. Duas casas pra mim já é viagem. Não quero. Acho que é importante a dependência. A gente defendeu tanto a liberdade, para quê? Que liberdade que a gente quer? É a liberdade também de ser independente! É a liberdade de ser ciumento! É a liberdade de ser passional! Como é bom uma mulher que explode no momento certo. Tem que explodir na hora porque senão vai ficar guardando rancor. A pior coisa é guardar rancor. Aí depois vai despejar tudo numa briga? Pra quê? A briga começa porque tu nunca perguntas o que é necessário perguntar. Tu estás desconfiado da pessoa, mas pensa "não vou desagradar fazendo essa pergunta". E cria toda uma história de pânico, de briga, para fazer a pergunta absurda. Então faça a pergunta absurda direto, a vida é muito mais simples. 

Qual a importância da leitura em sua vida?

Carpinejar – Acho importante a falta de solenidade com o livro. Ou seja, que o livro possa servir de bandeja de café da manhã, que os livros estejam disponíveis na sala… Porque se temos muito respeito com o livro, a gente acaba se distanciando dele. Ele se torna um altar. E livro não é para substituir a religião. É tão importante… Porque na minha casa a obra sempre esteve por ali, solta, aberta. O marcador de páginas foi a nossa mão, o marcador de página foi o farelo de pão, o marcador de página foi uma foto, uma folha, uma nota de supermercado… Ou seja, os livros ficavam pouco distantes, sempre estavam amontoados. Aquilo que significava uma desorganização na verdade é vida, né? Eu passei a ler porque meus pais liam, eu passei a ler porque eles não me obrigavam a ler. Eu ficava intrigado, curioso, cismado com aquele universo que sugava eles para outra solidão. Porque sempre que se abre um livro você entra numa outra porta, nunca sabe aonde pode terminar. Alice no país das maravilhas é todo dia. 

Você, diferente da maioria dos autores, tem um comportamento mais irreverente, o modo de se vestir…

Carpinejar – Não, isso é errado! [risos] Isso não é verdade. O feio é naturalmente irreverente! O feio já nasceu irreverente. O feio quer chamar a atenção. Que tu quer? Eu só tento distrair um pouco a atenção do meu rosto. Você vai ficar olhando o sapato… Vai ficar olhando os óculos… Você vai se distrair; é só isso. Mas o feio é irreverente. Se ele tentar ficar encabulado, tímido, não vai conseguir. 

Diz essa pergunta por que o meio acadêmico é mais tradicional, conservador… E você quebra com esse comportamento…

Carpinejar – Eu não vou participar de gincana da dor. E nem gincana da angústia. As pessoas só se sentem importantes pelo sofrimento. Eu não quero participar disso. Não quero participar! As pessoas têm que ser sérias para serem levadas ao pé da letra, para serem respeitadas. Que isso? A gente ainda está na moral da gravata, moral do tricô. Se eu vou dar uma aula sério, sou profissional e competente? Se eu começo a rir, eu sou bagunceiro? Olha quantos alunos banguceiros são castrados pelo senso de humor. Porque se eles fazem uma piada pertinente ao assunto que está sendo debatido, isso é inteligência, isso é ironia. Ironia afronta o professor. Ironia é um desrespeito ao professor. Se o ambiente escolar fosse muito mais alegre, muito mais descontraído, com certeza a gente ia cuidar mais da nossa vida, cuidando das nossas leituras. 

Você sente preconceito por conta do seu comportamento?

Carpinejar – Tem preconceito todo dia, toda hora. Tu me olhas com algum preconceito. A gente tem preconceito. A gente tem que aceitar o preconceito, confessar o preconceito. A grande dificuldade das pessoas é que elas não assumem seus preconceitos. A grande dificuldade do escritor é que ele pensa realmente que é genial. Ele pensa realmente que é o centro do mundo! Ele pensa realmente que todo mundo tem que parar para ouvi-lo. Ele não entendeu que não foi unânime nem na própria família. Que sua esposa, sua mulher, de repente, vai discordar dele! De repente, não vai gostar de um texto. Não há como ser um excelente escritor, mas há como ser um escritor honesto. Ou seja, aceitar as nossas próprias limitações, aceitar os nossos fracassos. Elegância é aceitar a gafe. 

Você é professor de literatura e escritor, autor de prosa, poesia, ensaios… Como é o processo de escrita de seus livros?

Carpinejar – Eu não tento me condicionar a um ritual. O ritual é só para não escrever. "Eu só escrevo com café quente, sabe? O telefone não pode tocar. A campainha, o interfone não pode tocar… Meus filhos não podem incomodar". Você nunca vai escrever. Esqueça! Escrever é a todo momento. Tu vives o texto, tu articulas o texto… Tu vai lá despojado. Se tu tiver tempo de completar o texto, melhor. Senão, você vai esperar. Eu não fico frustrado por aquilo que não escrevi, fico frustrado por aquilo que não vivi. 

Por que você escreve?

Carpinejar – Para dar ao leitor a chance de viver aquilo que não vivi. [silêncio] 

Que autores foram importantes para sua escrita? 

Carpinejar – Autor importante para mim. Influência, né? Não foi o que abriu a janela, que é um lugar comum. Foi o que me fez não sair de casa, o que fechou todas as janelas. É aquele autor que me deixou emparedado com minha própria memória, aceitando a pobreza da minha memória, repetindo a minha memória, reconhecendo isso. Nicolau Barras, sempre falo, um poeta chileno. Dante foi importantíssimo para mim.  A alegria do Manuel Bandeira. O quanto que tu podes ser eufórico pelo som.  Quando a gente está triste passam a existir palavras, mesmo que sejam palavras tristes, mas com o som bonito. A gente já melhora. Sou extremamente favorável a cantar no chuveiro. A gente se lava muito mais com a música do que com o sabonete. 

[Risos]

Você é muito conectado com a web, tem blog, site, Twitter… E lançou um livro com as frases de até 140 caracteres publicadas no Twitter, Www.Twitter.Com/carpinejar. Qual a importância dessas ferramentas digitais para o escritor contemporâneo?

Carpinejar – O Twitter é justamente essa barulheira: tem um celular, tem uma campainha, tem essa vida tocando perto, e tu não perde a concentração. Porque Twitter é distração, mas uma distração refinada. Tem gente que pensa que 140 caracteres é uma limitação. Não é. É um desafio. Eu me sinto desafiado. Tenho um 'twitter' que eu digo que "a melhor forma de convidar uma mulher é desafiando ela". Você nunca vai sair comigo. Tu não tens coragem de sair comigo! Tu não vai ter essa cara de pau de sair comigo. Desafia uma mulher, ela com certeza vai aceitar o convite. [risos] Ma se tu ficas naquela posição indigente: "Ah sai comigo! Nãnãnã…" Não adianta. Acho que o Twitter reúne, de novo, no mesmo bairro, o humor e a poesia, novamente estão conjugados. Porque olha quanto a poesia tem estigma de depressiva, tuberculosa, doente… O cara tem que sofrer, doer! E humor não, o humor consegue desfazer convenções. O Twitter é um exercício da síntese. Exercício do bom humor, da provocação. Uma maneira das novas gerações descobrirem o aforismo, a frase de efeito, a frase sacana, a frase que te tira do lugar, a frase que tira a tua opinião de lugar. 

O que você responde quando seus alunos perguntam: como faço para me tornar um escritor?

Carpinejar – Primeiro eu acho que a literatura não é para ter reconhecimento. A literatura é autoconhecimento. Não deixe o trabalho para o seu terapeuta, tem que ajudar o terapeuta. E digo mais, eu tenho muito mais dificuldades de me curar de uma alegria do que me curar de uma dor.
 

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