Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros 30.10.2020 30.10.2020

Carlos Drummond de Andrade foi o maior poeta brasileiro do século XX

Carlos Drummond de Andrade, nascido em Itabira, Minas Gerais, em 31 de Outubro de 1902, e falecido em 17 de agosto de 1987 no Rio de Janeiro, é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Mas não é exagero dizer que Carlos Drummond de Andrade foi o maior poeta brasileiro do Século XX.

Uma afirmação como essa pode criar polêmica? Sem dúvida!

Afinal, no mesmo páreo estão nomes como Cecília Meirelles, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Cora Coralina, Vinicius de Moraes, Mário Quintana, Paulo Leminski e outros grandes da poesia brasileira, que se algum crítico quiser colocar como o maior poeta brasileiro do século XX, certamente encontrará argumentos sólidos, que sustentem a afirmação.

Mas Carlos Drummond de Andrade não é o maior somente porque sua poesia é de alta qualidade, e sua genialidade permitia que ele brincasse com as palavras, e sua repetição, sem ficar preso às métricas, o que irritou alguns puristas.

Ele também não é o maior porque também é um poeta pop, com sua obra fazendo parte do imaginário e do vocabulário do dia a dia de milhões de brasileiros, que exclamam E agora, José? Quando se deparam com um momento de indecisão. Ou que dizem que no meio do caminho tinha uma pedra, quando querem falar algo como “temos um problema”.  Isso sem falar nas inúmeras paródias e referências aos poemas de Drummond.

Carlos Drummond de Andrade é o maior poeta brasileiro do Século XX porque tinha algo a dizer. Algo que no primeiro momento, não foi compreendido, e causou polêmica e até escândalo literário. Mas ele nunca buscou isso, ou usou como estratégia para chamar a atenção. Não “lacrou”, como dizemos hoje.

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

A repetição e o jogo de palavras de ‘No Meio do Caminho’, lançado no manifesto modernista Revista de Antropofagia, e depois em Alguma Poesia, de 1930 ,e  que pode ter um significado profundo, como uma reflexão sobre lidar com os obstáculos da vida, representados na metáfora da pedra no caminho,  simplesmente  não foram entendidos por muita gente. Inclusive, gente inteligente.

Intelectuais como o escritor e crítico Medeiros e Albuquerque, membro da Academia Brasileira de Letras, disse o seguinte em sua crítica sobre o livro: O título diz: alguma poesia; mas é inteiramente inexato: não há no volume nenhuma poesia…

A própria carreira de Drummond como funcionário público chegou a ser ameaçada: Nomeado chefe de gabinete do então Ministro da Educação, Gustavo Capanema, Carlos Drummond de Andrade era um profissional dedicado, que providenciava o andamento dos processos sem maiores problemas.

O próprio poeta, em entrevista concedida pouco antes de falecer, conta que mais de uma vez, ouviu no ministério frases como: ‘ Engraçado, eu pensava que o senhor fosse débil mental… vejo que me enganei. Desculpe: foi por causa da pedra no caminho’.

Qualquer artista pode ser incompreendido . É um risco da profissão, uma das pedras que encontrará no meio do caminho. Mas o poeta precisou ter muita paciência…

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