Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 11.02.2010 11.02.2010

“Calvin e Haroldo, a Oitava Maravilha do Mundo”

Por Bruno Dorigatti
Arte de Bill Watterson

“E se Deus for uma galinha?”

Já se passaram 15 anos desde o dia em que aquele maldito garotinho hiperativo de 6 anos e seu tigre de pelúcia deixaram de aparecer diariamente em 2.400 jornais do mundo. Ao menos não com novas histórias e aventuras. Calvin e Haroldo, criação da mente fértil de Bill Watterson, tornou-se rapidamente tirinha das mais importantes do final do século XX. Vendeu mais de 30 milhões de livros. Deu a Watterson duas vezes o prêmio mais prestigiado do gênero, o Reuben Award, a primeira vez já em 1986, um ano depois de ter criado a série, e com apenas 28 anos, tornando-se o mais jovem ganhador – o segundo troféu veio em 1988. Além disso, arrebatou outros 15 prêmios importantes no gênero, como o Eisner Award e o Angoulême International Comics Festival. 

A magia de Watterson, ou melhor de Calvin e Haroldo, que no nome original em inglês homenageia o filósofo Thomas Hobbes, está no sarcasmo, nas tiradas filosóficas – ele é apenas um moleque espevitado, mas indaga as grandes questões do mundo e da existência com propriedade –, mas também na dificuldade que as crianças têm de compreender este mundo um tanto irreal e, claro, no desejo de não ir à escola, fazer as lições de matemática, comer aquela gosma, tomar banho, dormir cedo, sem falar no receio com as meninas… 

Calvin e Haroldo é fortemente inspirado no trabalho de Charles Schulz, o pai de Peanuts, primeira série de quadrinhos a tratar o mundo pelo ponto de vista das crianças através de um olhar filosófico. Mas, diferentemente de Charlie Brown e companhia, surgido nos anos 1950, Calvin – cujas tiras duraram exatos dez anos, entre 1985-1995 –, por ser mais contemporâneo, é igualmente mais ácido, cruel e irônico, além de carregar toda a melancolia e o sublime já presentes em Peanuts

Alguns exemplos?

“O fato mais evidente de que existe vida fora da Terra é o de que até agora, ninguém tentou falar conosco." 

“A vida fica bem mais fácil se você mantiver as expectativas de todo mundo baixas.” 

“Não sou burro, sou um depósito de informações inúteis.” 

“Não há nenhum problema tão terrível ao qual você não pode adicionar um pouco de culpa e fazer ele ficar pior.” 

“É difícil ser religioso quando certas pessoas nunca são incineradas por relâmpagos.” 

“Faça o que tem que fazer e deixe os outros discutirem se é certo ou não.” 

“E se Deus for uma galinha?” 

“Calvin, vai fazer alguma coisa que você odeia!, ser miserável constrói o caráter.” 

“"A vida é cheia de surpresas, mas nunca quando você precisa de uma.” 

“O problema das pessoas é que elas são apenas humanas.” 

“Vivendo e não aprendendo… esses somos nós.” 

“Nada como tornar o dia das pessoas surreal.” 

“Eu sou um líder natural! Sou do tipo que comanda! O problema é que ninguém quer ir pra onde eu quero levar…” 

“Eu já não sei mais do que eu quero! Eu gostava mais das coisas quando eu não as entendia!” 

“Nada como a pressão do último minuto.” 

“Ou alguém vomitou no forno ou mamãe andou cozinhando!” 

“A matemática não é uma ciência, mas uma religião, pois os números se transformam como num milagre, e você simplesmente tem que aceitar.” 

“Eu não posso responder essa pergunta, pois ela vai contra meus princípios religiosos.”
– Calvin, ao responder uma questão de matemática que perguntava o resultado de 2 + 7. 

"Feito a imagem e semelhança de Deus, Sim Senhor…"
– Calvin só de cuecas se olhando no espelho.

Como se vê, matemática e religião mexiam com a cuca do pequeno garoto. Além disso, os diálogos e monólogos impagáveis entre Calvin e Haroldo – o tigre ganha vida quando o pequeno não está na frente dos adultos ou de Susie, a menina do colégio que ele vive sacaneando – por vezes, em três ou quatro quadros, sintetizam sarcasmo e ironia. E uma tira em que Calvin liga para a biblioteca atrás de um livro:   

– Biblioteca Municipal? Olá, vocês têm algum livro sobre bombas caseiras?

– É isso mesmo que eu disse. Preciso de um livro que liste os materiais e dê instruções passo pa passo para construir, preparar e detonar.

– Bom, e nas outras unidades? Alguma tem um livro assim?

– Droga, e as pessoas se perguntam por que as crianças não lêem.
 

Pouco afeito ao barulho criado em torno da sua tira, Watterson sempre foi recluso, ainda mais depois de encerrar a série, em 31 de dezembro de 1995, após 3.160 tirinhas – chamaram-no de Salinger dos quadrinhos, o que soa um tanto exagerado. Ao que consta, não isolou-se no campo nem batia em fotógrafos. Mantinha-se reservado, é verdade, mas vez por outra aparecia em entrevistas ou declarações. A mais recente saiu no último dia 1. de fevereiro, feito realizado por John Campanelli, e publicado no site Cleveland.com. [Leia uma tradução da entrevista aqui

Na conversa, Watterson tenta explicar suas intenções: “Eu apenas tentei escrever honestamente, e eu apenas tentei tornar esse mundinho divertido para eles verem, então as pessoas poderiam arranjar um tempo para lê-lo. A minha preocupação era essa. Você mistura um monte de ingredientes, e de vez em quando a química acontece. Eu não sei explicar porque a tira deu tão certo, e não acredito que conseguiria fazer de novo. Um monte de coisas tem que dar certo ao mesmo tempo”. 

Todos querem saber o por quê do fim. “Ao final de 10 anos, eu disse praticamente tudo o que eu tinha para dizer. […] Sempre é melhor deixar a festa mais cedo. Se eu tivesse ido junto com a popularidade das tiras e me repetisse por mais cinco, 10 ou 20 anos, o povo que agora está de ‘luto’ para Calvin e Haroldo estaria me desejando a morte e amaldiçoando os jornais que exibiriam tirinhas antigas como a minha ao invés de mostrar novos e melhores talentos. E eu teria que concordar com eles.” Segundo ele, a tirinha só tem o público e o prestígio hoje por conta disso: “Acho que um das razões de Calvin e Haroldo ainda ter audiência é por não ter seguido com eles até se esgotarem. […] Eu nunca lamentei ter parado quando parei”. 

E tampouco se arrepende. “Em tempos de cultura pop os anos 1990 foi há séculos. Há ocasionais momentos de estranheza, mas na maior parte do tempo eu apenas sigo minha vida calma e tento fazer o melhor para ignorar o resto. Tenho orgulho da tira, sou imensamente grato pelo sucesso, e me sinto verdadeiramente lisonjeado pelas pessoas ainda a lerem, mas eu escrevi Calvin e Haroldoquando tinha meus 30 e hoje estou a milhas deles. […]Um trabalho artístico pode ficar congelado no tempo, mas eu tropecei pelos anos como qualquer um.” Vida que se segue para Watterson, que eternizou seu nome entre aqueles que curtem histórias em quadrinhos. O título desse texto, aliás, é a resposta perspicaz do autor, à pergunta de como gostaria de ser lembrado pela famosa criação.

No Brasil, quem vem lançando todos os álbuns da dupla é a Conrad Editora. Até agora, já saíram sete álbuns [Confira trechos das tirinhas]; o mais recente é Deu “tilt” no progresso científico, cujo título se refere a uma máquina duplicadora criada por Calvin, nada mais que uma caixa de papelão aberta de lado no chão, onde ele escreveu “Duplicador” e “Botão”. Ao entrar nela, Calvin começa a se duplicar, triplicar, até ter cinco clones, que ele gostaria que fizessem o trabalho sujo no lugar dele, como ir à escola, fazer a lição de casa. Mas, como são cópias fiéis elas naturalmente se recusam e agem igualzinha a matriz, gerando mais problemas que solução para o pequeno. 

Diferentemente da série que o inspirou, Watterson não permitiu e não permite a exploração de Calvin e Haroldo com o merchandising. Inclusive, proibiu expressamente a prática, o que lhe rendeu uma briga pública com os sindicatos que distribuem quadrinhos nos Estados Unidos. “Na verdade, no começo da série, eu não era contra o merchandising, mas cada produto que pensei em criar parecia violar o espírito da tirinha, contradizendo a sua mensagem, e me afastando do trabalho que eu amava”, afirmou certa vez. Isso não impediu, claro, os produtos piratas, como camisetas, adesivos, calendários.  Prova do amor que os fãs nutrem pelos dois. 

Outra demonstração de carinho dos leitores é o documentário que está sendo produzido por dois norte-americanos. A idéia deles é mostrar a gigantesca influência que Calvin e Haroldo têm nos fãs ao redor do mundo. Todo fã da tirinha de Watterson tem a chance de participar do filme, Dear Mr. Watterson, que pretende captar o que os dois representam no imaginário daqueles devotos da tirinha. Bela homenagem ao discreto, mas profundo cartunista.

> Confira o site em inglês, emportuguês e um blog dedicado a Calvin e Haroldo

> Veja a homenagem de outros artistas a Calvin e Haroldo

> Calvin e Haroldo na Saraiva.com

> Calvin and Hobbes at Saraiva.com
 

> Assista à uma animação da dupla feito por um fã italiano 

 

> Assista ao trailer de Dear Mr. Watterson 

 

 

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