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Caixa com álbuns de Chico flagra o artista em total sintonia com o Brasil

Por Mauro Ferreira, do Blog Notas Musicais
 
Produzida e posta nas lojas pela Universal Music neste ano de 2012, a caixa De Todas as Maneiras embala os mesmos 21 álbuns de Chico Buarque que já haviam sido encaixados em Construção em 2001.
 
Nos onze anos que separam as edições das duas caixas, a gravadora relançou em 2006 – de forma avulsa – 17 destes 21 títulos da fase mais popular e profícua da discografia do cantor e compositor. Ou seja, o teor de novidade da caixa De Todas as Maneiras é pequeno para quem já possui as reedições anteriores – até porque os discos foram encaixotados com a mesma eficiente remasterização e o mesmo apuro gráfico da coleção de 2006.
 
Mesmo redundante, a caixa de 2012 é mais do que recomendada para consumidores e admiradores de última hora. Estão nela álbuns que apresentaram e sedimentaram uma das obras mais emblemáticas da música brasileira.
 
Lançados entre 1966 e 1986 pelas extintas gravadoras RGE, Philips e Ariola, estes álbuns flagram o artista em tempo dominado pela MPB nascida na era dos festivais. E, nessa era, Chico Buarque foi rei, entronizado pelo povo tão logo entrou em cena.
 
Lançados pela RGE, os três álbuns iniciais do compositor transformado com o tempo em bom cantor – Chico Buarque de Hollanda (1966), Chico Buarque de Hollanda Volume 2 (1967) e Chico Buarque de Hollanda Volume 3 (1968) – enfileiraram sambas de inspiração noelesca e exalaram certo lirismo melancólico.
 
À medida em que a barra foi pesando, Chico endureceu e perdeu a ternura inconcebível nos anos de chumbo. Chico Buarque de Holanda nº 4 (1970) foi o álbum da transição, que preparou o clima e o terreno para o erguimento de Construção (1971), obra-prima definidora do cancioneiro de Chico na combativa década de 70.
 
Concebido no auge da repressão ao compositor, Calabar (1973) esteve no alvo da censura pelo conteúdo corrosivo do repertório. A vigilância sobre o compositor era tanta que o jeito foi dar voz somente ao cantor, mote de Sinal Fechado (1974).
 
Sem entregar os pontos,Meus Caros Amigos (1976) sedimentou a parceria com Francis Hime, conexão que duraria até Chico Buarque, álbum de 1984 que botou o bloco na rua com o esfuziante samba-enredo 'Vai Passar', um dos últimos grandes sucessos populares do compositor.
 
Três anos antes, Almanaque(1981) descortinara a parceria teatral com Edu Lobo, compositor que dali em diante se faria presente nos bastidores da criação musical, seguindo com Chico um das trilhas mais inspiradas da MPB.
 
Bônus da caixa, o libreto contextualiza álbuns como Chico Buarque (1978) e Vida(1980) em textos sobre cada disco, escritos pelo jornalista e crítico musical Leonardo Lichote. Isca para fisgar consumidores das reedições anteriores, a coletânea tripla Umas e Outrasmapeia as andanças paralelas de Chico pelo mercado fonográfico através de 37 fonogramas avulsos da discografia do cantor e compositor.
 
O chamariz da seleção feita pelo jornalista Cleodon Coelho – boa seleção, diga-se, embora omita umas e outras como a gravação original do samba 'Apesar de Você' em compacto de 1970 – é o até então inédito registro de estúdio de 'Jorge Maravilha' (Chico Buarque, 1973), samba assinado por Julinho da Adelaide, pseudônimo criado pelo compositor carioca para driblar a censura do Governo militar.
 
Neste take até então perdido nos arquivos da gravadora Universal Music, Chico canta o tema em tom mais lento, mas com o suingue da era do samba-rock e com vigoroso registro vocal que destilava ironia no controvertido refrão “Você não gosta de mim / Mas sua filha gosta”.
 
Sim, todo mundo gostava de Chico.
 
Na época dos álbuns encaixotados em De Todas as Maneiras, o Brasil e Chico Buarque estiveram em total sintonia. E, se tal sintonia se desfez progressivamente a partir dos anos 90, quem perdeu foi o Brasil…
 
Resenha de caixa de CDs
Título: De Todas as Maneiras
Artista: Chico Buarque
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * * 1/2
 
 
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