Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 31.10.2012 31.10.2012

Caio Fernando Abreu em prosa e verso

Por Maria Fernanda Moraes
 
É bem pouco provável que alguém nunca tenha ouvido falar de Caio Fernando Abreu. Ainda mais se for um usuário das redes sociais. Nesse caso, não é necessário conhecimento profundo sobre a biografia ou o seu estilo literário, basta apenas lembrar-se de suas célebres frases consagradas no meio virtual. O que pouca gente sabe, entretanto, é que um dos escritores brasileiros mais citados na internet atualmente também dedicou-se à poesia entre os anos 60 e 90, além das crônicas.
 
Dois lançamentos chegam às livrarias e resgatam crônicas e poemas inéditos do escritor gaúcho. A Vida Gritando nos Cantos (Editora Nova Fronteira) reúne crônicas inéditas publicadas em jornal nas décadas de 80 e 90, organizadas pelas pesquisadoras Liana Farias e Lara Santana.
 
O projeto nasceu em 2010, quando Liana Farias escolheu Caio Fernando Abreu como tema de sua monografia de conclusão do curso de jornalismo. Liana passou a pesquisar as publicações do escritor no jornal Estado de S. Paulo entre 1986 e 1996. Nesse período, Caio abordava abertamente temas como AIDS, amor, morte, política, sexualidade e solidão.
 
A pesquisa foi feita nos exemplares disponíveis no acervo da Biblioteca do Senado Federal e, surpreendentemente, Liana se deparou com crônicas que nunca tinha lido. O passo seguinte foi a digitalização de todos os textos e a organização em um único arquivo. Depois de entrar em contato com os responsáveis pelos direitos autorais de Caio, em 2011, conheceu a também pesquisadora Lara Souto Santana, que desenvolvia um trabalho semelhante ao seu envolvendo as crônicas inéditas do escritor.
 
Italo Moriconi, organizador de Cartas, também de Caio, faz a apresentação do livro e diz que “suas crônicas delimitam um território de sensibilidade que a cada geração reaparece em nova roupagem, sempre buscando recolher os cacos de alguma experiência radical vivida no passado. Tirando algumas mudanças nos repertórios de referência, no interlocutor do Caio cronista de 25, de 20 anos atrás, encontramos as mesmas ética e estética híbridas de hoje, frutos da assimilação visceral de um misto de cultura literária e entretenimento pop. Daí nasce a permanente comunicabilidade de sua literatura. Caio F., o contemporâneo. Da relação extremamente pessoal que estabelece com o leitor, em qualquer dos gêneros que pratica”.
 
Além da organização das crônicas, Liana também se dedica à presidência da Associação Amigos do Caio Fernando Abreu, que visa preservar, organizar e divulgar a obra e biografia do escritor gaúcho. “Muitos dos que multiplicam as frases dele na internet não sabem quem ele é. É impressionante a quantidade de gente que pensa que ele está vivo e que é o responsável pelas atualizações dos perfis nas redes sociais”. A associação criou um site oficial para agregar todas as informações.
 
POESIA E PROSA SE MISTURAM
 
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é o endereço físico do trabalho de Caio Fernando Abreu. Doada à universidade em 2005 por Luciano Alabarse, amigo do escritor, a obra poética de Caio foi organizada pela professora Marcia Ivana de Lima e Silva e será publicada em novembro pela Editora Record. “Ao receber o material das mãos de Luciano Alabarse, eu e minha equipe começamos a organizar o arquivo. Foi quando encontrei uma pasta com muitos poemas. Depois disso, minha orientanda de doutorado, Letícia Chaplin, trabalhou com os poemas em sua tese, e descobrimos mais alguns nos diários. Desde o início, me apaixonei pelos poemas e pela possibilidade de trazê-los a público”, contou Marcia ao SaraivaConteúdo.
 
Capa do livro A Vida Gritando nos Cantos
 
Segundo a professora, o processo de organização durou três anos. As maiores dificuldades foram fixar alguns poemas com diversas versões e decifrar algumas palavras escritas à mão. “Algumas ainda se mantêm em silêncio no livro publicado”, explicou.
 
O resultado final são 116 poemas, o que não impressionou a pesquisadora, pois segundo ela, a prosa de Caio é muito poética. “Ele próprio se dizia muito influenciado por Drummond. Os leitores podem esperar dos poemas a mesma excelência de escritura que encontram nas narrativas e nos dramas. Há alguns poemas narrativos belíssimos, confirmando o borramento total das fronteiras entre os gêneros literários. Além disso, alguns temas também se repetem”.
 
A ideia inicial da pesquisadora era publicar um volume fac-similar, mas o projeto ficará para uma próxima edição. Essa primeira traz orelha do poeta Ramon Mello, e a organização teve a ajuda de Letícia da Costa Chaplin, orientanda de Marcia.
 
A organizadora também disse estar familiarizada com a repercussão do escritor nas redes sociais. Mas o fato não a incomoda, já que os verdadeiros leitores vão aos livros, e lá está o verdadeiro Caio, segundo ela. “Às vezes, leio alguns fragmentos, algumas frases nas redes sociais, e me dou conta de que não são do Caio. Não sei de cor sua obra completa, mas não me parecem ser de sua autoria. O que acho interessante é que as pessoas assumem um jeito do Caio de se expressar e fazem com que seus sentimentos soem como frases dele. Acho que ele se divertiria muito com essa história toda”, brincou.
 
A razão do sucesso no meio virtual? “Caio é um autor de vanguarda”, diz Marcia. “Tão de vanguarda que sua escrita já tinha este formato próprio da internet. O tom confessional e coloquial de sua prosa é muito cativante também. Além disso, ele diz coisas muito interessantes mesmo, o que dá vontade de repetir e, em alguns casos, de imitar”.
 
Acostumada à prosa de Caio, o contato com a parte poética da obra do escritor não foi motivo de surpresa. “Na verdade, se confirmou para mim a capacidade de Caio de se reinventar sempre, o que talvez explique também o uso de sua obra nas redes sociais”, explicou Marcia.
 
Para os internautas de plantão e fãs do escritor, o SaraivaConteúdo adianta alguns poemas inéditos (e com a autoria verificada) de Caio:
 
Breve memória
(outubro de 1969)
 
De ausências e distâncias te construo
amigo
amado.
E além da forma
nem mão
nem fogo:
meu ser ausente do que sou
e do que tenho, alheio.
 
Na dimensão exata de teu corpo
cabe meu ser
cabe meu voo mais remoto
cabem limites, transcendências.
Na dimensão do corpo que tu tens
e que eu não toco
cabe o verso torturado
e um espesso labirinto de vontades.
 
Realista
(julho de 1978)
 
De manhã
quando abri o quarto dele meiodormindo
encontrei um negro nu sobre a cama.
Falei muitoprazer e sorri
Depois esquentei o café, comi uma maçã verde
(a mais ácida que encontrei).
Enfiei os óculos escuros e saí para o sol.
Na rua
ninguém percebe o segredo ácido que carrego
insustentável
atrás do negro dos óculos.
 
 
 
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