Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.09.2011 14.09.2011

Caeto e Thaís dos Anjos: traços movidos pela coragem e pelo desafio

Por Andréia Silva
Na foto ao lado a ilustradora Thaís dos Anjos
 
Ele resolveu abrir o jogo e contar parte de sua vida na HQ de estreia, Memória de Elefante, em um relato autobiográfico, um gênero pouco explorado pelos quadrinistas brasileiros. Ela se destacou no meio ao publicar sua primeira – e desafiadora – HQ baseada na obra de Nietzsche, Assim Falava Zaratustra. Coragem, certamente, é uma característica que une os quadrinistas paulistanos Caeto e Thaís dos Anjos.
 
Além disso, ambos foram alguns dos indicados na categoria “novos talentos” do prêmio HQ Mix. Considerado o Oscar dos quadrinhos brasileiros, o prêmio será entregue na próxima sexta-feira (16), em São Paulo (o vencedor da categoria, divulgado pela organização no início da semana, foi o desenhista Felipe Massafera). No entanto, de novatos no ramo os dois não têm nada.
 
Formada em desenho industrial, Thaís é designer da revista "Playboy" desde 2006. Considera esse trabalho um bom lugar para se reinventar, pois pode misturar universos diferentes. Na hora de escolher o tema de sua primeira HQ, para um trabalho de conclusão de curso, sabia que o tema precisava ter, pelo menos, uma característica: ser desafiador.
“Apesar de ter crescido lendo ficções científicas e super-heróis como Spirit e Tintin, assuntos ligados a fatos históricos, verídicos ou relatos pessoais sempre me chamaram atenção, principalmente quando eu a desenho ou faço o projeto. Nunca tive veia cômica, ou personagens fofinhos. No caso desta adaptação, a escolha foi mais pelo desafio do que predileção”, diz ela sobre Assim Falava Zaratustra – dos céus aos quadrinhos (Editora Devir).
 
Para quem não se lembra da história, Zaratustra é um profeta que desce das montanhas após 30 anos de isolamento e, na sua volta, prega ideias como a morte de Deus e também o "eterno retorno" das coisas, entre outras. Na adaptação, o protagonista do texto cria forma e, com suas características psicológicas originais, vai espalhar esses novos conceitos.
 
O livro de Nietzsche deveria servir, a princípio, apenas como fonte de inspiração, mas Thaís se rendeu ao texto e à “narrativa mais livre e até divertira, mesmo tratando de questões existenciais”. “Já havia feito outras HQs, mas nenhuma com o mesmo fôlego ou com intenção de publicar”, diz ela.
 
Página da adaptação Assim Falava Zaratrusta, de Thais dos Anjos

Única mulher a disputar a categoria, Thaís diz que a ideia de que o mundo dos comics é muito masculino não passa de impressão. “Em algum período ficou estabelecido que a HQ é um universo masculino, de ultranerds. Aí algumas meninas se sentem deslocadas e acabam trabalhando mais sozinhas”, diz ela, que indica o Lady Comics, projeto que traz o divertido o slogan “HQ não é só para o seu namorado”. “A HQ é um universo sim, mas de admiradores de quadrinhos e não masculino ou feminino”, diz Thaís.
 
Relato autobiográfico
 
Há pelo menos dez anos na estrada, Caeto já trabalhou como ilustrador para as editoras BrinqueBoook (Balada de Heloisa Prietro), Angra (100 coisas de Fernando Bonassi), Salamandra (Diário de Rua de Esmeralda Ortiz), FTD (Coleção Acasos, Entre Vida e Morte de Fernando Bonassi e capa de Paranóia a Síndrome do Medo) e Conrad (Histórias Extraordinárias de Fernando Bonassi).
 

Em sua HQ de estreia – depois de suar as mãos ilustrando muitos fanzines com a turma da Sociedade Radioativa – optou por algo não muito comum no Brasil: passou a limpo a história de sua vida. O resultado foi uma das HQs mais elogiadas de 2010, Memórias de Elefante (Cia das Letras).

 
O quadrinista Caeto
 
“Acho que é um desabafo seguir esse caminho nos quadrinhos. Quando comecei a escrever Memória de Elefante estava com raiva do mundo todo, acho que essa raiva me moveu e talvez tenha sido uma forma de tentar fazer as pazes comigo mesmo”, diz o quadrinista.
 
Na hora de colocar a história no papel, Caeto precisou lidar com o fato de que iria reviver boa parte de memórias que ele gostaria de esquecer e pensar no que os demais personagens de sua trajetória iriam pensar.
 
“Tem muita coisa envolvida nesse processo. Reviver tudo o que você passou, desgasta. Tive que decidir o que entraria na história e o que ficaria de fora pra não chatear alguém ou você mesmo. Eu também tinha consciência de que tinha e tenho ainda muita coisa para aprender da linguagem das HQs”, conta Caeto.
 
Em Memória de Elefante, Caeto fala de frustrações, relações familiares e mostra seu lado punk
 
Mais projetos baseados em fatos reais
 
O próximo trabalho de Thaís será em parceria, algo até então inédito para ela. Mas a designer deu apenas pistas do que vem por aí. “Uma história com muita emoção, aviões, guerra, um enredo forte é uma narração muito particular e sensível. Amei ser convidada, principalmente por tratar-se de um relato verídico”, disse ela.
 

Já Caeto toca dois projetos: um sobre escravos negros no Brasil e outro com situações que aconteceram com ele e amigos.
Mais do trabalho de Thaís e Caeto você confere em  http://thaisdanjos.tumblr.com/ e caetoilustra.blogspot.com

 
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