Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 20.10.2009 20.10.2009

Caderno de caligrafia gigante

Por Bruno Dorigatti
Foto de divulgação

 

O grafite – ou graffiti, comousam alguns, no original em italiano – vem conquistando já há algum tempo noBrasil o seu devido espaço, como intervenção artístico-urbana, ocupando áreasnobres, apoio e verba oficiais. Assim como tudo aquilo que pode se tornar umproduto, tem invadido – melhor seria dizer entrado com pompa e circunstânciadepois de serem convidados – galerias de arte, grifes de street wear (mais um conceito em voga de uns anos para cá) e outras,consideradas chiques e mais restritas, sem falar na estética que invadiuprogramas de televisão e a publicidade. 

A pixação (aqui, grafada damaneira como seus realizadores a utilizam) passa há quilômetros de distânciadessa possibilidade. Pixador é vândalo, marginal, analfabeto. Está longe defazer arte, ou algo que passe perto de ser considerada outra coisa que nãosujeira, poluição visual, lixo. Porém, colonizados que (ainda) somos, é só algofeito, desenvolvido, criado por aqui ganhar alguma consideração, interesse,curiosidade e respeito lá fora para que então possamos enxergar e tratar comoutros olhos, focar em outros ângulos. Com o pixo não foi diferente. Mas aqui aquestão é mais polêmica. Na Bienal de São Paulo do ano passado, aliás,perfeitamente chamada de Bienal do Vazio, uma pixadora foi presa, depois quedezenas deles invadiram o segundo andar do Ibirapuera, onde o evento estavasendo realizado e deixado sem obra alguma, para registrar suas tags etipografias pelo espaço. 

Lá fora, impressiona aadmiração que o mundo tem pela nossa pixação. Enquanto alemães, japoneses efinlandeses vêm a São Paulo para estudar os grafismos urbanos já há algunsanos, por aqui só recentemente a pixação ganhou uma análise mais detalhada e sem sercarregada na ideologia, nos lugares comuns e nas frases feitas. O interessesurge pelas rebuscadas e detalhadas tipografias que os pixadores criam no abominável mar de concreto que vêm se tornando nossos centros urbanos, com especial destaque para São Paulo. Um dosinvestigadores que tem levado a sério este trabalho por aqui é o fotógrafopaulistano João Wainer, de 33 anos.Repórter fotográfico da Folha de S. Paulo desde 1996, além ter feito a direção de fotografia da série de documentários sobre Chico Buarque, entre outros trabalhos, é dele as fotos do primeiro livro aregistrar esta caligrafia urbana, a partir de uma agenda de Boleta,organizador desse volume e integrante da primeira geração do VÍCIO – uma dasgangues mais ativas e antigas de São Paulo. 

Como escreve Pinky Wainer – mãe de João e uma das sócias naEditora do Bispo, que editou Ttsss… Agrande arte da pixação em São Paulo, Brasil­ – na apresentação, “essapixografia dá umsentido de caos e beleza ao se espraiar por todos os lugares e alturas dacidade. A Editora do Bispo vê na pixação uma linguagem contemporânea do século21. Da agenda, decodificamos alfabetos, logotipias e traços que, vistos fora deseu contexto habitual, revelam uma criação gráfica original e sofisticada. Ttsss… não pretende ser umaenciclopédia completa ou tratado geral da pixação, mas representa um importanteapanhado de uma geração de jovens artistas, a maioria pertencente ao país dosexcluídos, que fez e faz dos seus signos um dos fenômenos urbanos maisexpressivos dos últimos tempos”. À venda na Saraiva, o livro pode ser baixado de graça no site da editora, para não se tornar um produto incongruente em relação àquilo que procura registrar.

Agora João, em parceria com o diretor Roberto T. Oliveira,de videoclipes e DVDs musicais para artistas como Racionais e Chico Buarque e do documentário A ponte, lançam um dos primeiros filmes a abordar o que, para uns, évandalismo e, para outros, um criação gráfica original e sofisticada, sobretudoexpressiva deste atordoado início de século. 

Pixo,segundo a sinopse, procura retratar o impacto da pixação como fenômeno culturalna cidade de São Paulo e sua influência internacional como uma das principaiscorrentes da street art. O documentário acompanha algumas ações, como escaladasem prédios de difícil acesso, a invasão de uma exposição na Faculdade de BelasArtes, onde uma aluna/artista chora e um funcionário vocifera contra os“analfabetos, marginais”, os conflitos com a polícia e procura enquadrar umoutro olhar sobre algumas intervenções já muito exploradas pela mídia. Semrespostas, Pixo procura dar base paraa questão: é arte ou é crime? 

Para Wainer, em texto publicado no seu site, é ambas ascoisas: “A pixação é uma agressão, um crime, mas étambém uma forma de expressão das mais sofisticadas. São Paulo é feia,agressiva e oprime quem esta embaixo e é de lá que vem a maioria dos pixadores. 

Uma pixação na parede refletetudo de ruim que a cidade tem pra oferecer. O egoísmo, a perversidade e aopressão da metrópole  estão representadas no muro pixado. A arquiteturadesordenada, as esquinas, as linhas retas verticais. A cidade serve comosuporte, mídia e tela. As linhas retas verticais dos prédios são as linhasguias do caderno de caligrafia gigante em que a cidade se tranformou para ospixadores. 

A pixação é um meio termo.Apesar de ser uma agressão, não deixa de ser pacífica. O cara que pixa um muro,não bate e nem ameaça fisicamente ninguém. Ele está se expressando ilegalmenteatravés de tinta e letras. Normalmente a sociedade responde aos pixadores deforma muito mais violenta que eles. Pixadores são agredidos, pintados eassassinados com alguma freqüência. Se não me engano, agressão e homicídio sãocrimes um pouco mais graves do que dano ao patrimônio. Quem é mais bandido,quem pixa ou quem agride e mata?” 

Em julho de 2009, a respeitadaFundação Cartier, de Paris, inaugurou a mostra sobre arte de rua chamada “NéDans la Rue” (Nascidos na rua, em tradução literal). Tinha lá uma granderetrospectiva do grafite, surgido em Nova York nos anos 1970, hoje jáinstitucionalizado, tinha lá os artistas contemporâneos com obras especialmentecriadas para a mostra. E tinha lá o pixo, entre eles Cripta Djan, pixador desde1996 e criador dos DVDs 100 ComédiaEscrita Urbana, que são as principaisformas de registro em vídeo do movimento. 

Mas peraí, o pixo na FundiçãoCartier? Não seria um contra-senso? Quem fala é Wainer: “Para quem passou avida como um vândalo desviando de moradores revoltados, policiais agressivos eouvindo todo tipo de xingamento pelas ruas, foi uma grande mudança ser tratadocomo estrela em Paris. Ao pixar a Fundação Cartier em Paris, Cripta seguiu arisca um dos princípios básicos do movimento. Ele fez com que o nome de suagang fosse visto pelo maior numero de pessoas possível. Ele deixou claro que oque ele fazia ali não era pixação, e sim uma representação da rua em umagaleria. Por seu histórico, imaginei que os muros de Paris não sairiam incólumede sua passagem. Me enganei. No final da viagem, ao ser questionado se deixariaum pixo na cidade luz, Djan foi taxativo: ‘Não faz sentido pixar Paris. É umacidade muito bonita, tudo aqui parece ter mais de 300 anos. A pixação só existeem São Paulo porque lá ela tem um motivo, um sentido de existir. Aqui não seriaa pixação, como não era a pixação na parede do museu. Aqui é apenas umarepresentação de um movimento que tem que ser mostrado. Não tenho que provarnada para ninguém, tudo que eu tinha provar já provei escalando prédio em SãoPaulo’.” 

Em apenas uma sala de cinema emParis, o filme alcançou 70 mil espectadores. Poraqui, a estréia é na 33ª.Mostra Internacional de São Paulo, com a primeira exibição no próximodomingo, 25 de outubro, e cujo cartaz, veja você, foi feito pelos Gêmeos,conhecida dupla de grafiteiros, também paulistana, uma das melhores do país,que já pintaram castelos na Escócia, o lado de fora do museu londrino Tate eparticiparam recentemente do programa “Estrelas”, de Angélica, na TV Globo. Como se vê, opixo pode estar quebrando algumas barreiras e diminuindo alguns preconceitos. Alguns.

 

 > Assista à um trecho do documentário PIXO, de João Wainer e Roberto T. Oliveira 


 

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