Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.06.2012 28.06.2012

Brasileiro Paulo Henriques Britto leva sua poesia à Olimpíada Cultural em Londres

Por Andréia Silva
Nem só de esporte é feita uma Olimpíada. Desde o início do ano, Londres, sede dos jogos olímpicos de 2012, está sediando as chamadas Olimpíadas Culturais, que antecedem o evento esportivo e dão espaço para a música, dança, teatro e literatura.
 
Até o dia 1º de julho, quem passar pela capital britânica poderá se deliciar com um festival de poesias digno de uma Copa do Mundo. Trata-se do Poetry Parnassus, organizado pelo artista Simon Armitage e considerado o maior evento de poesia do mundo. O Brasil marca presença com o poeta, contista, tradutor e professor Paulo Henriques Britto.
O nome do festival, segundo Armitage, é uma homenagem à mitologia grega. O Monte Parnaso, onde morava o deus Apolo e suas musas, também foi o cenário do poeta mais talentoso que já existiu, Orfeu. Conta-se que, ao som de sua lira, os pássaros paravam de voar e os animais selvagens perdiam o medo.
 
O Poetry Parnassus foi aberto na última terça-feira (26) com o lançamento da antologia O Recorde Mundial, publicada pela organização com a contribuição especial dos participantes, e uma chuva de papéis picados com versos escritos foi lançada sobre a sede do evento, o Southbank Center.
 
Ao todo, 150 poetas foram escalados para participar pessoalmente ou via internet do festival, número um pouco abaixo dos 204 países inscritos para os jogos olímpicos. Artistas europeus e africanos dominam o line-up. Britto se disse ansioso, já que será a primeira vez que ele participará de um evento com tantos escritores reunidos.
Simon Armitage, artista e organizador do festival Poetry Parnassus
Cada poeta participará de rodas de leitura, onde vão apresentar ao público seus próprios poemas. O roteiro do festival inclui ainda oficinas e debates, que devem acontecer em pelo menos 50 idiomas.
 
As indicações dos autores aconteceram de acordo com a votação do público e escolhas da própria organização. “Meu nome foi sugerido aos organizadores pela minha tradutora norte-americana, Idra Novey”, conta Britto ao SaraivaConteúdo.
Britto é hoje um dos principais tradutores da literatura inglesa e americana no Brasil. Já traduziu cerca de cem livros, entre eles volumes de poesia de Byron, Elizabeth Bishop e Wallace Stevens, além de romances de William Faulkner (O Som e a Fúria). Também é dele a premiada tradução de A Mecânica das Águas (Companhia das Letras), de E. L. Doctorow.
 
Divulgação/Southbank Centre
Chuva de papéis com poesias, que abriu o festival Poetry Parnassus, em Londres
Como poeta, estreou em 1982, com Liturgia da Matéria. Depois, vieram os volumes de poesia Mínima Lírica (1989), os premiados Trovar Claro (1997) e Macau (2004) e Tarde (2007), além das coletâneas de contos Paraísos Artificiais (2004) e Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (2009), sobre a música de Sérgio Sampaio. Seu mais recente trabalho é o livro de poesias Formas do Nada, lançado este ano pela Companhia das Letras.
O autor revela que está se preparando para surpresas durante o festival, já que ainda não sabe de tudo o que vai acontecer. “Vou participar de leituras de poemas meus e poemas que traduzi, e talvez eu dê também uma oficina de criação poética”, disse ele, antes de embarcar para Londres
 
Um dos pontos altos do evento é reunir poetas de países em situações políticas diferentes, desde representantes das nações que passam pela Primavera Árabe até autores de regiões que vivem uma complexa situação política e social. É o caso dos poetas Jang Jin-sung, da Coreia do Norte; Qassim Haddad, do Bahrein; Khaled Mattawa, da Líbia, entre outros. A participação de Rasha Omran, poeta sírio, foi cancelada devido à atual crise no país. Por outro lado, uma das figuras mais aguardadas é Seamus Heane, o Nobel de Literatura de 1995, que representará a Irlanda.
 
Além de reunir poetas de diferentes gerações e realidades, o festival, para Britto, cumpre um importante papel de trazer novamente a poesia para o centro.
“A verdade é que as pessoas não ligam muito para a poesia nos dias de hoje. Quarenta anos atrás, eram os músicos pop que faziam a diferença; não à toa, o regime militar no Brasil perseguiu e proibiu músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil”, disse Britto ao site oficial do evento.
O poeta irlandês Seamus Heane
 
"Agora, ao que parece, os artistas do hip-hop são a voz do nosso tempo. Mas mesmo que a poesia não possa fazer muito pela paz mundial, ela é de extrema importância para a língua. (…) Shelley ou Pound [poetas, inglês e americano, respectivamente] fizeram pelas suas línguas o que ninguém mais poderia fazer: eles fizeram parecer acidental o que era essencial; eles respiraram a vida em palavras. Por isso, temos que ser todos gratos, mesmo aqueles que não escrevem ou leem poesia", completa.
 
 
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