Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 30.08.2013 30.08.2013

Bob Fingerman: “Os nerds agora têm que lutar pela sua identidade”

Por Andréia Martins
Quando o nova-iorquino Bob Fingerman lançou a graphic novel Perdido e Mal Pago – Nerds em Apuros, em 2003, foi um dos primeiros a pintar os “nerds” com outra cara. Longe da imagem de garotos tímidos com óculos de garrafa, seus personagens eram pessoas sociáveis, que vestiam camisas divertidas e gostavam de rock, filmes intergalácticos e quadrinhos.
“O mais curioso é que eu não criei propositalmente personagens nerds, ou geeks, como dizemos hoje, apenas retratei os tipos de pessoas com as quais eu convivia, fãs de cultura pop”, disse ele em entrevista ao SaraivaConteúdo, por conta do lançamento da HQ no Brasil.
Dez anos depois, é cada vez mais fácil encontrar exemplares desses meninos e meninas nas esquinas das cidades. Para Bob, o mundo nunca foi tão geek. “Toda essa cultura se tornou mainstream. Essa cultura de que só eles gostavam agora é dominante, como ficção científica, histórias de super-heróis. As pessoas se dizem nerds, ou geeks, porque gostam de Star Wars. Mas penso: ‘isso é o mais mainstream de tudo’ (risos). Acho que os nerds agora têm que lutar pela sua identidade, pois há muitos por aí se autodefinindo como nerds”.
A história mistura elementos autobiográficos e ficção e tem como protagonistas o casal Rob e Sylvia; ele, um ilustrador que desenha histórias de pornografia, mas que quer fazer suas próprias histórias, e ela, uma cabeleireira que agora foi “promovida” a atendente.
Ao lado dos amigos Jack, um celibatário fissurado em HQs e literatura; Max, típico azarado com as mulheres; Elvis, o editor; Matt, viciado em Godzilla, e sua namorada stripper, Azure; e Maddie, amiga lésbica de Sylvia; os dois passam por situações como as neuroses e dificuldades de morar em cidade grande com orçamento reduzido, a dúvida em assumir um relacionamento sério e abandonar a turma, uma gravidez inesperada, entre outras.
“Era uma história sobre meu casamento, que eu digo que foi meu treino para o casamento, pois éramos muito novos, nos anos 1980. Eu achei que poderia mudá-la e certamente ela também achou que poderia me mudar. E uma das críticas que minha ex tinha do meu trabalho era que tudo era superficial. Isso ficou na minha cabeça por quase dez anos e eu pensei: vou mostrar a ela o que posso fazer. Mas já estava na minha cabeça escrever algo mais pessoal”, diz o autor.
Capa da HQ

Escrita durante os anos 1990 e lançada em 2003, a história foi revisitada e ampliada para uma nova edição lançada no início do ano nos Estados Unidos, a pedido de um amigo de Bob, Robert Kirkman, criador da série em quadrinhos The Walking Dead. É essa edição que chega ao Brasil.

“Eu sempre quis revisitar essa história”, conta Bob. “Acho que não é tão interessante fazer algo sobre você tão jovem, pois você ainda não viveu tanto e, mais tarde, você pode editar melhor as coisas, escolher sobre o que quer falar, pois já viveu mais. E é uma obra com elementos autobiográficos, mas é uma obra de ficção, pois eu queria essa liberdade de criação que só a ficção daria”.
UM AMOR POR ZUMBIS, VAMPIROS E O APOCALIPSE
O personagem Rob é fissurado em citações de séries de TV que foram sucesso nos anos 1990. “Eu provavelmente assisto mais TV do que deveria”. Séries e filmes recheiam o contexto da história, que não deixa de lado um capítulo dedicado à Comic-Con, a mais importante convenção de cultura pop da atualidade. Nesse capítulo, os personagens passam por situações curiosas, como julgar quem está vestido “como um ser humano”, as figuras excêntricas que fazem sucesso e a disputa entre os autores. Segundo Bob, tais convenções “são uma cama feita para situações como essas”.
O que não aparece na HQ, e que se tornaria um tema de interesse na obra de Bob, é o gosto do autor por zumbis, vampiros e o fim do mundo. Antes e depois de Perdido e Mal Pago, o autor lançou livros com esses temas, e disse que não está tão convencido de que já escreveu bastante sobre o assunto.
Ao SaraivaConteúdo, ele sugeriu algumas de suas referências preferidas quando o assunto é horror, zumbis e fim do mundo:
Eu Sou a Lenda (1954), de Richard Matheson – “É muito moderno, muito íntimo. Durante o dia, ele vai sair e matar o maior número de vampiros que pode, é um livro muito interno. O personagem passa muito tempo pensando, introspectivo”. O livro foi adaptado três vezes para o cinema: Mortos que Matam (1964), A Última Esperança da Terra (1971), com Charlton Heston e, em 2007, com Will Smith como protagonista, no filme homônimo ao livro. Na opinião de Bob, todas as adaptações para a história do autor americano, criador da série Além da Imaginação, foram “decepcionantes”.
Livros de Sangue (1984-1985), de Clive Barker – “Foi um horror do tipo que eu nunca tinha lido antes. Por um lado, ele tinha muito mais a sexualidade no seu trabalho do que eu já havia encontrado”. A história do autor inglês é composta de seis volumes com contos aleatórios de horror.
Overnight, Ramsey Campbell – “Ele é um dos meus favoritos. Há uma qualidade inexorável no tipo de horror que ele faz. É uma espécie de escritor que constrói lentamente”. Campbell é conhecido pelas construções de universos e personagens realmente aterrorizantes. Nessa história, há uma chuva de sapos e, como Bob diz, “nada pode terminar bem se há uma chuva de sapos”.
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