Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.08.2012 17.08.2012

Biografia refaz os passos do Rage Against the Machine

Por Andréia Silva
 
Em 1992, o Rage Against the Machine lançou seu disco de estreia, com o nome da banda, apresentando ao mundo sua mistura de peso de rap, rock e política. Com uma capa que reproduzia uma foto icônica do século 20 – do momento em que o monge Thich Quang Duc ateia fogo a si mesmo em protesto contra o tratamento dado aos budistas pelo governo do Vietnã do Sul, em 1963 – e músicas cheias de frases de efeito e políticas – “entrem na luta, quebrem as normas”, de “Township Rebellion”, era só uma delas –, a banda mudou o cenário musical da época.
“Você não veria uma capa como essa em um disco do AC/DC”, diz Paul Stenning, o responsável por contar a história de um dos mais importantes grupos do rock em uma biografia recém-lançada no Brasil, Rage Against the Machine – Guerreiros do Palco.
Acostumado a narrar a trajetória de grandes bandas, como o próprio AC/DC, Guns’n’Roses, Metallica, Iron Maiden, entre outros, Stenning levou três meses para biografar o caminho trilhado pelo RATM, bem como o antes e depois de seus integrantes: Tim Commerford (baixo), Zack de la Rocha (vocais), Brad Wilk (bateria) e Tom Morello (guitarra).
Uma das curiosidades da obra é revelar como, muito antes de um cruzar o caminho do outro, Zack e Morello já estavam trilhando a mesma estrada. Embora tivessem nascido em comunidades diferentes, ambos eram de etnias misturadas e tinham nos pais uma verdadeira inspiração artística e política, especialmente no que diz respeito a lutar pelo direito de seus povos. De um lado, Morello e suas raízes quenianas e irlandesas; de outro, a origem mexicana e indígena de Zack.
 
Capa do livro Guerreiros do Palco, de Paul Stenning
 
Combinados com Wilk e Commerford, mentes também em frequente estado de ebulição política, o resultado não poderia ser outro. Quando se juntaram, no início dos anos 90, em Los Angeles, na Califórnia (EUA), rapidamente a banda reuniu várias músicas, entre elas, “Bullet In The Head”. A faixa seria um dos carros-chefe do futuro álbum de estreia, Rage Against The Machine (1992), e trazia todos os elementos que caracterizavam o grupo: a pegada forte da bateria dobrada de Wilk, os riffs metralhados de Morello e os vocais incansáveis de Zack, repetindo o nome da música – uma crítica às grandes corporações de mídia – até não poder mais. Sem contar “Killing in the Name”, uma espécie de hino da banda, ainda mais forte nas interpretações ao vivo.
“Com o primeiro disco, nós escrevemos a maioria das músicas durante o primeiro mês após nos conhecermos”, conta Morello no livro, em um trecho tirado de uma entrevista do guitarrista à revista Kerrang!. Com dez faixas, o trabalho de estreia caiu como uma bomba no cenário musical, dada a intensidade do material.
"A resposta óbvia sobre o que é interessante nessa banda é o seu caráter político, o que os diferencia de parte das bandas ou de bandas com temática histórica ou mitológica. O RATM, com as letras de Zach, levou a muitos jovens questões que antes eram incomuns na música", diz Stenning. "Quer você concorde com suas letras ou não, quer você pense que são hipócritas ou genuínos, você não pode negar que são interessantes. Adicione a isso a energia e a música frenética deles e você tem uma banda verdadeiramente interessante", completa ele.
Os protestos promovidos pela banda também recheiam o livro de boas histórias. Desde colocar a bandeira dos Estados Unidos do avesso durante uma participação no programa norte-americano Saturday Night Live (que, na última hora, foi desfeito pela produção) até ficarem nus em um festival em 1993, por se recusarem a ligar os instrumentos.
No entanto, ao vasculhar o percurso da banda, o autor diz que o que mais lhe chamou atenção não estava relacionado à música, e sim a uma coincidência que aproximava o quarteto ainda mais da política.
"O que mais me surpreendeu foi o fato de Stephen Ngethe Njoroge, o pai de Tom Morello, ter sido o primeiro embaixador do Quênia nos Estados Unidos. O tio de Stephen, Jomo Kenyatta, ter sido o primeiro-ministro e presidente do Quênia, tendo cumprido um mandato de 18 meses. Há muitas coincidências assim no mundo do rock [com a política], o que é bizarro", diz Stenning.
O livro, apoiado majoritariamente nos depoimentos dos próprios integrantes, conta os bastidores do que antecedeu a gravação do disco de estreia, a demora em gravar o segundo disco – Evil Vampire, que seria lançado apenas em 1996 (eles gravariam ainda mais dois álbuns de estúdio) –, o anúncio do fim da banda por Zach, em 2000, a relação com o produtor Rick Rubin, a formação do Audioslave, com Chris Cornell nos vocais, e a apresentação histórica da banda em Cuba, em 2005.
 
O vocalista do Rage, Zach de la Rocha, em foto de 2008
Sem Zach, que alegou diferenças criativas e políticas – queria continuar seu discurso de uma forma que já não se encaixava na banda, segundo ele mesmo conta –, o resto do grupo decidiu continuar e entrou num dilema: trazer um novo vocalista e usar o mesmo nome ou trocá-lo? O desfecho já é conhecido.
Em quatro anos de vida, o Audioslave lançou três trabalhos, emplacando hits como "Like a Stone" e "Be Yourself", que chegaram ao número um das paradas de rock nos EUA, entre outros como "Show Me How to Live", "I Am the Highway", "Out of Exile". A banda acabou pendurando as chuteiras poucos anos depois, e a formação original do RATM voltou com algumas apresentações especiais – entre elas, uma no Brasil, em 2010, no festival SWU. O show, histórico, foi considerado o melhor do evento.
Escrevendo tantas biografias sobre bandas e há pelo menos 15 anos sobre rock, Stenning diz ter aprendido a reconhecer uma característica em comum quando se fala desses grupos que gravaram seus nomes na história: a união de talentos. Na hora de escrever, ele busca descobrir sobre cada um desses talentos como pessoa, para entender como essa soma resulta em grandes formações.
"Não se pode negar que são grandes bandas, glorificadas pelo tempo e pela mídia, e que ao longo do tempo criaram uma aura mitológica ao redor do mundo. Parte do meu trabalho é olhar para esses músicos como pessoas comuns e descobrir o caminho que eles trilham para se tornarem grandes. Um talento só pode levar à fama, mas é preciso múltiplos talentos para que eles cheguem a um nível ainda maior".
 
 
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