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Bienal abre mais espaço para quadrinhos e mangás

Por Marcelo Rafael
“Quadrinho é uma coisa legal para todas as idades. Você não precisa nem saber ler, (pois) tem quadrinho sem escrita. Ou você pode ler para a criança mostrando as imagens”, comentou Cassius Medauar, gerente de conteúdo da JBC na 23ª Bienal do Livro de São Paulo.
Medauar e o jornalista especializado em Quadrinhos e organizador de eventos do gênero, Heitor Pitombo, participaram de um bate-papo com o público na sexta-feira, 29/08, na mesa “Fala Sério! #SQN: HQs e Mangás”.
A Bienal de SP abriu ainda mais espaço para esse gênero literário com uma série de mesas, lançamentos, sessões de autógrafos e interação com o público. Até autores que não são do ramo, como Paula Pimenta, lançaram títulos em HQ. “Tem quadrinho para tudo quanto é lado nesta Bienal”, disse Pitombo.
Tanto para ele quanto para Medauar, nunca houve tanta HQ publicada no Brasil como no momento atual. Entretanto, para eles, o mercado em si continua estável. O que houve foi uma mudança no perfil dos leitores e das editoras ao longo das décadas.
“Antes, você tinha poucos títulos, publicados, a maioria, pela Abril, com grandes tiragens. Hoje, você tem muito mais títulos com tiragens menores”, avaliou Pitombo.
“Nos anos 1970/80, não tínhamos videogame, TV a cabo, internet. Você ia à banca todo dia. E você conseguia ler tudo que saía”, completou Medauar em relação à escassez de títulos em décadas anteriores. Hoje, ele avalia que o mercado amadureceu muito e tem muito mais variedade, inclusive de títulos nacionais e para diferentes faixas etárias.
Entretanto, mesmo com o crescimento da economia e a ascensão social das classes D e E para a C nas duas últimas décadas – o que ajudou o público a ter mais poder de compra –, o mercado continuou estável.
É que a competitividade aumentou, segundo Medauar. “O maior poder de compra ajuda a comprar mais quadrinhos. Mas também ajuda a comprar mais celular, videogame etc. Isso divide o poder aquisitivo”, disse em relação às décadas em que havia menos parafernálias tecnológicas.
Hoje em dia, as HQs também subiram de preço, segundo ambos, mas também subiram em qualidade. “O poder aquisitivo subiu para uma parcela da população que pode comprar um encadernado. Há 20 anos, seria inviável lançar um Watchmen, por exemplo, em edição de luxo, capa dura, como hoje”, declarou Pitombo.
 
                                                                                                       Divulgação Bienal
Cassius Medauar e Heitor Pitombo comentaram sobre o público e o mercado atual de HQs na Bienal
 
A migração de parte dos quadrinhos da banca para as livrarias, segundo ele, também contribuiu para essa mudança no perfil das edições e do mercado.
Já o público aumentou por dois fatores. Para os mangás, de acordo com Medauar, a explosão de animes na TV aberta durante os anos 1990 ajudou a alavancar o interesse e, consequentemente, as vendas desse gênero no Brasil.
“O mangá poderia se manter popular se aquele boom tivesse continuado, especialmente na TV aberta”, disse Medauar. “Hoje em dia nem mais desenho passa na TV aberta. Perdeu espaço”, completou Pitombo.
Pitombo é autor de 300 Mangás. Segundo ele, ao fazer as pesquisas para o livro, descobriu que, no Brasil, haviam sido publicados, até 2012, pouco mais de 300 títulos. “No Japão, isso é o publicado por mês, mais ou menos”, ressaltou.
Segundo Medauar, a JBC contribuiu para um crescimento dos títulos, tendo publicado mais de 100 mangás desde que começou suas atividades, há cerca de 15 anos.
Ele próprio colecionador de gibis e mangás (afirmando ter mais de 20.000 itens em sua coleção), comentou outro fator que levou a um aumento do público. Esse segundo fator seriam aqueles leitores das décadas de 80/90 que cresceram e começaram a trabalhar no mercado, seja desenhando, escrevendo e lançando seus títulos, seja trabalhando com o tema, como jornalistas especializados.
“Eu sou uma prova disso”, confirmou Pitombo, que começou a trabalhar profissionalmente com quadrinhos no caderno cultural do extinto jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, em 1990, e hoje é colaborador da revista Mundo dos Super-Heróis.
“Os formadores de opinião – jornais (impressos), portais na internet – já se tocaram que o Quadrinho não é só para crianças”, completou.
 
                                                                                                                                       Divulgação Bienal
No espaço imaginário, autores demonstravam sua arte diretamente para o público
Mas um terceiro ponto não teria contribuído para a alteração no perfil do público leitor: a Educação. Ambos concordaram que, se a Educação fosse melhor no país, o público de literatura, como um todo, cresceria muito.
Para Medauar, isso representaria o surgimento de novos autores nacionais em uma quantidade maior. A JBC, por exemplo, realizou um concurso em parceria com a embaixada do Japão para a publicação de mangás nacionais. Cinco foram escolhidos e serão publicados na 1ª edição do Henshin Mangá, na Gibicon de Curitiba.
Para ele, quem quer ser desenhista precisa ler, assim como quem quer ser escritor. Precisa ter bagagem cultural. “A pessoa começa a desenhar e acha que vai fazer a melhor coisa do mundo. Por isso repito sempre que é preciso ter leitura”, contou ele, que participou do processo de seleção do concurso.
Perguntado, pela plateia se havia condições de um mangá nacional ser serializado, ele foi categórico: sim. “O Starmind (de Henshin Mangá) é uma história que poderia ser publicada por qualquer um”. Mas completou: “Fizemos menções honrosas (no concurso), mas a gente recebeu muita coisa ruim. Páginas copiadas de outros mangás, de Dragon Ball”.
Por fim, ambos acrescentaram que eventos do gênero só popularizam e expandem o mercado. “Temos eventos em BH, como o FIQ, em Curitiba, Porto Alegre, mas faltava um grande evento (exclusivo) em São Paulo”, comentou Pitombo sobre a Brasil Comic Con e Comic Con Experience, ambas ainda por ocorrer.
“Nenhum dos eventos nacionais é ligado à San Diego Comic Con, mas eu vejo com bons olhos. Quanto mais eventos de Quadrinhos tiver, melhor”, argumentou Medauar, apontando também que a presença em eventos que não são exclusivos de HQs, como a Bienal, também é importante.
Por fim, Medauar finalizou com um jeito simples de divulgação: “Deem quadrinhos de presente. Se quem gosta de quadrinhos der quadrinhos de presente, vai expandir o nosso mercado”.
 
 
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