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Bicentenário de Charles Dickens: um garoto pobre que se tornou o maior escritor do seu tempo

Por Carolina Cunha
Charles Dickens sofria de insônia. O maior autor do século 19 era um verdadeiro ponto de ebulição de ideias e escrevia várias histórias ao mesmo tempo. Disciplinado, costumava trabalhar todas as noites e gostava de fazer longas caminhadas noturnas.
 
Às vésperas de sua morte, em 1870, Dickens estava trabalhando em seu último romance, o inacabado O Mistério de Edwin Drood. Para seus amigos, havia confessado que sua escrita não estava evoluindo com a facilidade de sempre. Se a criatividade acaba, esse parece ser o fim da linha até para os escritores mais saudáveis.
 
Mas não é a sua morte que o mundo está lembrando hoje. No dia 7 de fevereiro de 1812, nascia Charles Dickens, autor de clássicos como As Aventuras do Sr. Pickwick, Oliver Twist, Grandes Esperanças, Um Conto de Natal e David Copperfield.
 
Depois de Shakespeare, Dickens é considerado o maior escritor inglês e um dos autores mais traduzidos no mundo. Autor prolífico, ele escreveu 14 romances, além de peças, contos e inúmeros artigos jornalísticos.
 
Suas histórias influenciaram várias gerações de leitores. Ele é pai de mais de 900 personagens, alguns inesquecíveis como Mr. Pickwick, o avarento Ebenezer Scrooge, a Srta. Havisham e os heróis infantis Oliver Twist e David Copperfield, que lutaram para vencer a pobreza.
 
Um dos aspectos mais marcantes de sua literatura é a crítica social. Em seus romances, Dickens denunciava o drama dos asilos, prisões e orfanatos, o abuso infantil, a violência doméstica e a condição dos trabalhadores nas fábricas. Mas o escritor também era um mestre do humor e criou personagens burlescos e adoráveis.
 
Dickens tornou-se uma estrela literária muito cedo. Morreu com apenas 58 anos e, no fim da sua vida, já era um autor de sucesso que dividia seu tempo em inúmeras atividades: editor de revistas, dramaturgo, filantropo e ativista dedicado a promover reformas sociais. 
Viajou pelos Estados Unidos e Itália, conheceu políticos e a realeza britânica. Mas quem mais o amava era o povo. Ainda vivo, viu toda a sua obra ser encenada nos teatros populares britânicos, e suas leituras públicas eram um acontecimento popular.
 
O jovem escritor
 
Charles Dickens nasceu em Portsmouth, sudoeste de Londres. Seu pai era um funcionário da Marinha que, apesar do emprego de prestígio, gastava mais do que podia e não conseguia sustentar a família. Na infância, Dickens tinha problemas de saúde e passava boa parte do tempo lendo livros.
 
Aos 12 anos, seu pai foi preso por não pagar as dívidas e sua família perdeu tudo. O garoto franzino foi obrigado a abandonar os estudos e enfrentar uma rotina de dez horas de trabalho diário em uma fábrica de graxa para sapatos. A experiência marcou o futuro escritor, que fez das injustiças sociais o coração pulsante de sua obra.
 
Aos 15 anos, já morando em Londres, Dickens começou a trabalhar como taquígrafo judicial e depois como repórter, cobrindo o poder judiciário.  Em 1832, ingressou no maior jornal inglês da época, o Morning Chronicle, onde escrevia crônicas humorísticas sob o pseudônimo de “Boz”. 
 
Sagaz observador da sociedade vitoriana, a inspiração do jovem repórter era o dia a dia de Londres e todo o seu cenário de grande cidade industrial. Ruas estreitas, a fumaça das fábricas, os malandros dos cortiços, as carruagens e bailes. Tudo poderia render boas anedotas e uma rica galeria de personagens, das classes operárias aos clubes de cavalheiros da aristocracia.
 
Em 1836, então com 24 anos, Dickens casou-se com Catherine Thompson Hogarth – o casal teve nada menos do que 10 filhos, mas se separaram – e começou a escrever seu primeiro romance. Sua rotina era assim dividida: de dia, ele exercia seu ofício de jornalista; de noite, trabalhava na sua criação literária.
 
Ilustração do Oliver Twist
No mesmo ano, o jornal onde trabalhava publicou As Aventuras do Sr. Pickwick, obra impressa em fascículos mensais. A história foi um sucesso e tornou-se o assunto do momento. A narrativa cômica que satirizava o “injusto” sistema judiciário inglês agradou em cheio aos leitores. No final da trama, o jornal aumentou as vendas de 400 para 40 mil fascículos. O bom resultado abriu caminho para o livro seguinte, Oliver Twist, que trazia a vida de Oliver, um garoto órfão que tem de lutar para sobreviver e manter a sua inocência.
 
O próximo romance, Vida e Aventura de Nicholas Nickleby, publicado em 1938, também revelou as feridas de crianças órfãs. A história foi inspirada nas Escolas de Yorkshire, internatos que abrigavam crianças indesejadas. Denunciando os maus-tratos dessas instituições, Dickens causou uma reação indignada do público. Na vida real, pouco tempo depois, essas escolas foram fechadas.
 
Também publicada em fascículos, Loja de Antiguidades veio em 1840. Nessa época, o público acompanhava o enredo dramático da obra como se fosse uma novela. Prevendo a morte da personagem Pequena Nell, seus leitores escreveram cartas para Dickens, pedindo que não a matasse. Ao escrever a tão polêmica morte, nem Dickens pôde conter suas lágrimas.
 
Os últimos anos
“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos…”. O primeiro parágrafo de Um Conto de Duas Cidades (1859), romance escritor por Dickens sobre a revolução francesa, é considerado um dos começos de livros mais famosos da literatura.
 
O talento literário de Dickens aumentava à medida que ele chegava à maturidade. Em 1843, o escritor publicou Um conto de Natal, uma das histórias natalinas mais conhecidas do mundo e que moldou no imaginário popular, literalmente, o verdadeiro sentido do espírito de Natal.
 
E em 1849 veio David Copperfield, considerada por muitos a sua obra-prima. Seguiram-se Casa Desolada, de 1852, sobre a corrupção nos tribunais e a exploração das crianças trabalhadoras; Tempos Difíceis, de 1854, obra na qual manifesta hostilidade aos sindicatos operários, mostrando que o suposto defensor do povo era antitrabalhista; e A Pequena Dorrit (1857), uma denúncia sobre o sistema de prisão por dívidas.
 
Um de seus grandes sucessos, Grandes Esperanças, foi escrito em 1861 e trazia Pip, um garoto órfão que teve sua vida mudada por uma inesperada fortuna e que sonha em se tornar um cavalheiro. Assim como Dickens, o menino não queria nunca mais voltar a sentir a pobreza na pele. Seu último livro completo foi Nosso Amigo Comum, de 1864.
As crianças eram referência frequente na obra do autor. Não à toa, uma das histórias que cercam a morte de Dickens é que, em 1870, quando faleceu, o escritor recebeu um funeral pomposo na Abadia de Westminster, a Rainha Vitória mandou suas condolências e o comércio de Londres fechou as portas. Enquanto isso, uma garotinha que vendia frutas na rua perguntava: “Dickens morreu? Então quer dizer que o Papai Noel também vai morrer?”.
 
Sua preocupação era que, com a morte de Dickens, tudo o que foi contado em Um Conto de Natal morresse também. No entanto, 200 anos depois, sua obra se mantém viva. Assim como o Papai Noel.
 
Um Conto de Natal também foi adaptado para quadrinhos nesta série Clássicos da Literatura em Quadrinhos, da editora L&PM
 
 
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