Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.08.2011 11.08.2011

Best-seller do italiano Fábio Geda traz relato verídico

Por Julia Laks
O livro Existem Crocodilos no Mar pode até parecer ficção, mas é o relato verídico de Enaiatollah, transposto pelo jornalista e escritor italiano Fábio Geda.
 
O afegão Enaiatollah Akbari tinha apenas 10 anos quando foi abandonado pela mãe num país estranho. Acordou, estendeu o braço à direita para sentir-se seguro ao alcance da progenitora e nada, não havia ninguém ao seu lado. Em volta, apenas o barulho da cidade de Quetta, no Paquistão, e um local que nunca imaginara existir: o samavat, um  ‘hotel’ da região, mas que ele mesmo define como “um lugar para fazer contato com os traficantes de homens”. O menino se desesperou, se recompôs e seguiu em frente, como havia de fazer muitas vezes, ainda que naquele momento não tivesse a menor ideia de como seriam os próximos anos.
 
O menino de olhos amendoados, da etnia Hazara, precisava sair de seu país para sobreviver à perseguição dos Talibãs, e aprendeu a deixar de lado as brincadeiras infantis para embarcar numa arriscada jornada entre dois continentes. Viajou a pé, de navio, de ônibus, de bote inflável e até no fundo falso de um caminhão. Clandestinamente, passou pelo Irã, pela Turquia e pela Grécia antes de chegar à Itália, onde encontrou um pouso permanente. No entanto, não deixou de sonhar e tampouco perdeu o senso de humor.
 
É com leveza que mais de uma década após o início de sua trajetória, Enaiatollah a descreve para Geda. E o leitor parece entrar nesta conversa através da narrativa ágil e das perguntas do autor que interrompem o relato do menino para lembrar que a história contada é verdadeira. Outro ponto curioso, destacado por Geda na publicação, são as referências de Enaiatollah, que ora diz ser do tamanho de uma cabra, ora compara o rosto de um rapaz a um hambúrguer do McDonald’s, reforçando inadvertidamente – ou não – que agora pertence ao oriente e ao ocidente, ao mundo da infância e ao da vida adulta.
 
Atualmente, já um rapaz de vinte e poucos anos (não se sabe exatamente quando nasceu por falta de registro), Enaiatollah vive em Turim e conheceu Geda no lançamento do primeiro romance do autor: Per Il Resto Del Viaggio Ho Sparato AgliI Indiani. Os dois se tornaram amigos e costumam visitar escolas para conversar sobre o livro que conceberam juntos. Existem Crocodilos no Mar passou um ano na lista dos mais vendidos na Itália, será traduzido para 31 países e adaptado para o cinema.
 

Autor de romances premiados em seu país, Geda é também professor, dedica-se ao desenvolvimento cultural de jovens, escreve sobre educação no jornal La Stampa e na revista Linus e lança, com entusiasmo, sua primeira obra no Brasil pela Editora Objetiva. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Geda fala sobre como uma história aparentemente absurda é comum a milhares de meninos ao redor do mundo, da magia que vê na vida de seu amigo afegão, a força da palavra e a experiência de se responsabilizar por uma memória. A delicadeza de seu trabalho começa no título. Quem sabe um dia ninguém mais tema se deparar com um crocodilo no mar, assim como as crianças, com o tempo, deixam de ver monstros no escuro do quarto. 

Como conheceu o Enaiatollah Akbari e que relação vocês têm hoje?
Fábio Geda. Conheci Enaiat há quatro anos, na apresentação do meu primeiro romance: a história de um menino romeno que viaja pela Europa à procura de seu avô, que trabalha como ator na rua. A associação que me convidou para o evento também chamou Enaiat, que realmente havia viajado sozinho por muito tempo. De certa forma, seu relato verídico funcionava como contraponto para a ficção que eu tinha escrito. Naquela tarde, quando o ouvi expor sua história, uma trajetória tão dramática, tão sofrida, descobri que ele era capaz de contá-la com uma leveza incrível, com uma ironia surpreendente. Pensei, então, que seria interessante colocar a mesma leveza, a mesma ironia nas páginas de um livro. E agora somos bons amigos! Moramos na mesma cidade e nos vemos frequentemente.
Antes de Existem Crocodilos no Mar, você lançou o romance Per Il Resto Del Viaggio Ho Sparato Agli Indiani sobre este menino romeno que atravessa a Europa em busca do avô. Agora, assina o relato verídico de Enaiatollah Akbari. O que muda nessas duas experiências? Qual a responsabilidade e a força de se contar uma história real?
Fábio Geda. É totalmente diferente. No meu primeiro livro, eu era responsável por mim e por meus personagens. Neste caso, sou responsável por uma vida, uma memória. Acho que é muito difícil entendermos o desespero que conduz esta jornada e a força que se origina dele. Estar em contato com isso foi muito importante para mim. Trabalhar com o Enaiat foi uma ótima experiência. Meu primeiro objetivo era ajudá-lo a se lembrar do maior número de detalhes possível sobre a viagem.  
 
O que é mais encantador em Enaiatollah e como foi o processo de trabalho de vocês?
Fábio Geda. A história do Enaiat é inacreditável para um cidadão ocidental e, ao mesmo tempo, bastante comum para milhares de meninos ao redor do mundo. O que é mais mágico na vida do Enaiat é que ele se manteve intacto ética e moralmente, além de repleto de esperança; uma esperança que muitos de nós, no ocidente, estamos perdendo. Trabalhamos juntos por nove meses: passamos um bom tempo navegando na Internet, procurando fotos, vídeos e mapas de parte do mundo. Depois desta pesquisa, após Enaiat me contar várias anedotas e acontecimentos, pedi para que ele recomeçasse o relato e passei a escrever. O Enaiat, então, se envolveu com a leitura contínua das minhas palavras. Ele leu e eu alterei as frases e os diálogos. Enaiat foi meu primeiro leitor, o destinatário do meu livro.
 
O relato de Enaiatollah é interrompido com trechos de alguns diálogos entre vocês. Por quê?
Fábio Geda. Não queria que os leitores esquecessem que estavam diante de uma história verdadeira. E, se esta história pôde ser revelada, foi porque alguém, neste caso eu, estava lá na frente do Enaiat pedindo: “por favor, me conte sobre sua vida. Estou aqui ouvindo”. É isso que devemos fazer com todas as pessoas a nossa volta, antes de julgar, de cuspir sentenças, de nos deixar cegar por nossos preconceitos. Somente sentar e ouvir. 
 
Capa do livro Existem Crocodilos no Mar
Qual o significado do título Existem Crocodilos no Mar?
Fábio Geda. Escolhi para falar sobre medo e infância.
 
Enaiatollah prometeu a mãe não roubar, não consumir drogas, ou usar armas, ainda que nem imaginasse como seria sua vida daquele momento em diante. Acredita que sua educação, que esses princípios, o ajudaram em sua trajetória?
Fábio Geda. Sim, acho, mas não apenas isso. Milhares de crianças são obrigadas a viajar sozinhas pelo mundo para se salvar de guerras, da fome, e por outras razões terríveis. Muitas morrem ou ainda vivem em condições difíceis. Enaiat teve sorte e força para encontrar as pessoas corretas, que o ajudaram a ter esperança em um futuro melhor. Além disso, o que mais me impressiona em sua jornada é a ausência (ou presença) dos adultos em sua vida. Há um provérbio africano que diz: “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Eu me pergunto: onde está a nossa aldeia?
 
Algumas pessoas queridas como Sufi, Soltan, Liaqat, Hussein Ali, Payam, Danila e Marco são chamadas por seus nomes no livro. Outras vocês optaram por não nomear como a família de Einaiatollah. De quem partiu essa ideia e o que representa?
Fábio Geda. Esta foi uma decisão do Enaiat. Ele vem de um país onde cada palavra é perigosa e teve medo de colocar sua família em risco.
 
O livro será adaptado para o cinema?
Fábio Geda. Sim. Uma ótima diretora italiana, Francesca Archibugi, está trabalhando no filme. Ele será rodado no segundo semestre e neste inverno na Índia (ao invés do Paquistão), na Turquia (ao invés do Afeganistão e do Irã), e na Itália.
 
 
Mapa com a jornada do protagonista Enaiatollah Akbari
 
 
 
Esperava que esta publicação conquistasse tamanha repercussão, configurando-se na lista dos livros mais vendidos na Itália? A que atribui o sucesso da obra e para quantos países ela será traduzida?
Fábio Geda. O livro será traduzido para 31 países. Mas as razões do seu sucesso, eu não sei. Acho que por sua leveza e esperança… Tudo que precisamos: leveza e esperança.
 
O relato de Enaiaitollah transformou de alguma forma sua visão do mundo, ou de parte dele? Como?
Fábio Geda. Sempre fui convicto de que deveríamos ouvir, conhecer as pessoas. Agora sou mais.
 
 
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