Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.06.2012 20.06.2012

Bertolt Brecht: uma arte para o nosso tempo

Por Daniel Louzada
 
Talvez ninguém na história, exceto Shakespeare, tenha sido mais encenado que Bertolt Brecht (1898-1956). Esse fato já confere ao dramaturgo e poeta alemão sua real estatura, a de um dos maiores artistas do século XX. Ainda que asfixiada pelo clima da época, a obra brechtiana insiste em ressurgir com todo vigor.
A Livraria Saraiva e a Editora Paz e Terra relançam agora o teatro completo de Brecht. Esta edição reafirma o compromisso da Saraiva que, em parceria com editoras brasileiras, recoloca obras relevantes no mercado a preços mais baixos do que os das edições anteriores, realizando de fato a democratização do acesso ao livro e promovendo a livre circulação de ideias.
Artista radical
 
Bertolt Brecht foi um artista revolucionário em todos os sentidos. Sua influência, sobretudo no teatro moderno, como autor e diretor, encenador e teórico, é fundamental. Da mesma forma, sua ideia de que o artista deve compreender a própria dimensão histórica, intervir na esfera pública – afinal, toda arte é política – permanece.
 
Dos melhores produtos da cultura de esquerda, sem se apegar a dogmas ou ao populismo que submeteu tantos intelectuais no mesmo período, Brecht baseou sua criação no estudo e na experiência radical.
Mais do que constatar, o autor procurou desvelar as razões do mundo mercantilizado, da natureza das relações sociais. Essa característica talvez explique a baixa circulação de sua obra nas últimas décadas no país e ainda hoje os preconceitos de que é vítima.
Um dos símbolos da arte brechtiana é o teatro épico, também ora denominado crítico ou dialético. Essa formulação realizada por Brecht na segunda metade da década de 1920 refere-se, em linhas gerais, a um teatro narrativo, anti-ilusionista, que estimula a ação do espectador e trata de questões mais amplas em detrimento das privadas, tem foco na existência do indivíduo na sociedade. A célebre Ópera dos três vinténs (1928), que representa a exploração de classe, é o primeiro experimento do teatro épico brechtiano.
No cenário de um mundo convulsionado por guerras e contradições, o fundo claramente político da obra de Brecht se acentua, sem abdicar da inventividade, em peças memoráveis como A Santa Joana dos Matadouros (1931), Vida de Galileu (1939) e Mãe Coragem e seus Filhos (1939).
 
A vida por inteiro
 
Filho de família de classe média, Brecht serviu como enfermeiro na Primeira Guerra Mundial, foi ativista na tentativa de revolução alemã e, em 1924, acabou transferindo-se de Munique para Berlim, onde iniciou sua grande aventura artística.
Na cena berlinense, logo alcançou sucesso de público sem, contudo, fazer concessões ao gosto médio. Envolveu-se também com o cinema – meio que ele via com simpatia –, admirava Sergei Eisenstein e Charles Chaplin.
As tensões sociais na Alemanha possibilitaram a ascensão do nazismo – para Brecht, já no final dos anos de 1920, as condições para isso estavam dadas. Assim, ele, alvo preferencial dos fascistas, inicia um longo período de fuga, primeiro pela Europa, a partir de 1933, e depois para os Estados Unidos, em 1941.
Tudo o que encontra nos EUA – a sociedade capitalista por excelência – lhe é estranho e incômodo. Como precisa sobreviver, e com a ajuda da comunidade alemã exilada, arranja trabalhos como roteirista.
Brecht foi investigado pelo FBI em 1947 por “atividades antiamericanas”, mas, embora evidentemente comunista, não mantinha contatos partidários diretos e não pôde ser incriminado. No dia seguinte ao seu interrogatório, partiu dos EUA, primeiro para a Suíça, depois para a Alemanha. Era a viagem de volta.
Fixou-se na extinta RDA, ou Alemanha Oriental, produto da partilha de influência entre Estados Unidos e União Soviética. Brecht, muitas vezes identificado como artista oficial, teve, na verdade, uma relação tensa com a liderança do país. De qualquer forma, foi lá que deu início, com Helene Weigel, a sua lendária companhia de teatro Berliner Ensemble.
Uma edição notável
 
As duas caixas desta edição contemplam os 12 volumes da obra teatral completa de Brecht. Todas as 43 peças são traduzidas do original alemão e estão em rigorosa ordem cronológica – apenas os fragmentos estão fora de ordenação e incluídos no último volume.
 
A edição dos textos que integram os volumes é fruto de uma revisão crítica das traduções existentes. Ela aproveita os valiosos trabalhos já realizados e os completa com novas traduções. No time de tradutores há nomes como os de Fernando Peixoto, Geir Campos, Roberto Schwarz e Christine Röehrig. Trata-se, sem dúvida, da materialização de um trabalho coletivo, cujo principal objetivo é oferecer aos leitores um texto de qualidade em língua portuguesa.
 
As duas caixas contemplam os 12 volumes da obra teatral completa de Brecht
 
Brechtianas
 

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.”

“Temam menos a morte e mais a vida insuficiente.”
“De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida.”
“Tenho muito o que fazer. Preparo meu próximo erro.”
 
 
 
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