Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.07.2010 29.07.2010

Beatriz Bracher, entre livros e filmes

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel
 

Numa silenciosa casa em São Paulo, a escritora Beatriz Bracher se recolhe para escrever suas histórias. Desde sua estreia com Azul e dura (2002), Bracher tem cultivado a disciplina necessária para trabalhar sua linguagem, o que rendeu livros como Não falei (2004) e Antonio (2007), todos bem recebidos pela crítica.

Nascida em 1961 em São Paulo, Beatriz Bracher começou seu trajeto literário na revista 34 Letras e como co-fundadora da editora 34, onde trabalhou de 1992 a 2000. Além da dedicação à literatura a escritora paulista mantém parcerias no cinema com Sérgio Bianchi e Karim Aïnouz, entendendo bem a diferença entre o ofício de escritor e roteirista.

Convidada para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Beatriz Bracher acaba de lançar mais um livro, Meu amor. A edição reúne contos que foram publicados em jornais (Correio Braziliense) e revistas literárias (Ficções e Bravo) com outros inéditos. A narrativa, embora de temática parecida com os romances, é apresentada de forma mais enxuta.

Em conversa exclusiva ao SaraivaConteúdo, Beatriz Bracher fala sobre cada um de seus projetos, sem deixar de se encantar com a descoberta das histórias.

 

Qual foi seu primeiro encontro com a literatura?

Beatriz Bracher – Sempre adorei ouvir histórias, minha mãe contava muitas histórias da vida dela. Havia um anedotário familiar de quando ela era criança. Minha avó contava histórias clássicas brasileiras. Desde então, passei a gostar de contar histórias para meus primos, aos 9, 10 anos. Eu sempre fui muito sensível para os sotaques diferentes, em São Paulo há pessoas do Brasil inteiro. Na minha casa, meu pai e minha mãe sempre chamaram muita atenção para o modo certo de falar, da maneira correta de usar os pronomes… Aos 10 anos eu não era uma pessoa que lia muito, não. Eu lia muito história em quadrinhos… Aos 11 anos fiz uma viagem para Alemanha, fiquei dois meses por lá. Aprendi muito rápido o idioma, hoje em dia esqueci tudo. Mas senti saudades enormes dos meus, pais, irmãos… Alguém me arranjou um livro chamado Boi Aruá, de Luiz Jardim. Li várias vezes o livro, fiquei tão feliz. O que mais gostava era estar lendo em português, estar em contato com a língua. Outro livro que adorava ler era O pequeno Nicolau, uma série para crianças. Logo depois passei a ler livros mais adultos.

Foi nesse período que você sentiu vontade de escrever suas histórias?

Beatriz Bracher – Eu escrevia histórias, contos, mas não para publicar. Quando participei do grupo que fez a revista 34 Letras, a ideia era fazer um espaço para publicar. Mas nunca publiquei as minhas coisas. E com a editora 34 eu fui sendo editora, no sentido de conversar com autores, ler manuscritos e avaliar, e ler muitos livros que eu não iria ler: ensaios de música, filosofia… Não sei qual a relação, quando fui editora parei de escrever. Eu parei com a editora para tirar um ano sabático e me propus a escrever um livro. Comecei a escrever, mas não acabei em um ano. Não tive dúvida que eu queria ser escritora. Esse livro era o Azul e dura, meu primeiro romance.

São três romances: Azul e dura (2002), Não falei (2004) e Antonio(2007)…

Beatriz BracherAzul e duraé a história de uma mulher de 42 anos, o livro começa com ela indo para Suíça, com os dois filhos, esquiar. Na mala, ela leva papéis com anotações feitas ao longo da vida e romances que gostou de ler. Ela tem três semanas para reavaliar a vida, não sabe o que vai acontecer depois… É a história dessa mulher de classe média alta que faz cinema na faculdade, tem uma relação mais alternativa, mas se casa e fica alheia ao mundo. Até que ela se envolve num acidente, em que atropela e mata uma menina com deficiência mental. O segundo livro, Não falei, é sobre um professor universitário, aos 60 anos, que passou a vida inteira na mesma casa, que será vendida para dividir o dinheiro com os irmãos. Ele resolve que vai se aposentar da faculdade e se mudar para São Carlos para continuar com as pesquisas… Ele pensa muito sobre educação, foi preso em 1970 pelos militares, apesar de não fazer parte da luta armada. Logo que sai da prisão, onde fica por um mês ou dois, é morto o cunhado, que participava da luta armada. Fica a dúvida se ele havia denunciado o cunhado ou não. Isso acaba desestruturando a família dele. É um livro sobre uma pessoa de hoje revendo a trajetória, tanto ligada à política quanto à educação. Ele tinha uma ligação muito forte com os livros. As leituras que vocês fez são experiências de vida, como fazer um amigo, uma viagem, ou ter um emprego. O terceiro, Antonio, é sobre um rapaz, Benjamin, que resolve saber sobre a vida do pai dele, Téo. Então, ele vai conversar com Isabel, mãe de seu pai; com Haroldo, amigo do avô Xavier; e Raul, amigo do pai. Nunca se ouve a voz do Benjamin, os três que falam sobre o Téo. Na verdade, se sabe muito sobre quem está falando, sobre quem se fala fica um pouco embaralhado. O Téo é o rapaz que nasceu em 1960 e aos 18 anos, ao invés de cursar uma faculdade, resolve seguir os caminhos de Guimarães Rosa. Dessa viagem, resolve que quer ficar e se emprega como vaqueiro. O livro começa com a revelação que nessa viagem ele conhece uma mulher mais velha que ficou grávida de um filho dele. Eles se casam, mas ela morre no parto do filho, o Benjamin. Essa mulher foi casada com o avô, com quem também teve um filho chamado Benjamin. O cara resolver ser um vaqueiro é diferente…

Como surgem suas histórias? Há disciplina em seu processo de escrita?

Beatriz Bracher – Tenho uma disciplina de trabalho, escrevo quatro horas por dia. Depois trabalho em outras coisas. Quando começo um romance não sei onde ele vai acabar. Conforme vou escrevendo, ele vai escolhendo suas saídas. Trabalho muito na limpeza do livro, limpando a história. Neste trabalho de edição, de limpar, de cortar, tem um trabalho criativo muito grande. Talvez seja diferente de quando escrevo, mas é de qualidade mais sofisticada. Sou mais dona do que estou fazendo quando revejo do que quando escrevo. Porque quando escrevo é quase uma matéria bruta.

E o livro de contos Meu Amor? Há diferença na escrita de uma narrativa curta?

Beatriz Bracher
– Metade do livro são contos que escrevi antes de fazer a editora. Há contos que publiquei em revistas e jornais. A outra metade são contos inéditos. Comecei lendo contos: Cortázar, Borges, Kafka… Pra mim, o conto sempre foi uma forma mais elevada do que o romance, mais pensada e burilada. Eu tinha mais medo de escrever conto do que romance. Ao contrário do romance que te diz o caminho, o conto nunca te diz, você tem descobrir. O romance é bom que seja um pouco sujo, o conto não, precisa ser mais enxuto para ter mais força. Mesmo que mais enxuto seja uma verborragia muito grande, tem alguns contos que são assim.

Você também trabalha com cinema. Escreveu a ideia original do filme Cronicamente inviável e o roteiro de Os inquilinos, ambos de Sérgio Bianchi. Como é escrever roteiros? Há alguma relação com a literatura?

Beatriz Bracher – O problema é que a gente acha que tem alguma coisa a ver [com literatura], quando não tem nada a ver. O roteiro está a serviço de uma coisa que não é escrita, que é o filme. Ninguém vai ler o que você está escrevendo. O filme não vai existir se não existir roteiro, mas depois que o filme estiver pronto, o roteiro desaparece, não existe mais o texto. E é um trabalho com muitas pessoas envolvidas. Primeiro é o roteirista e o diretor, que é o autor do filme. É quase insuportável para o escritor de literatura porque não posso escrever “ela estava triste”. Tenho de escrever “ela baixou os olhos e olhou para o lado”. Como assim, está triste? Não existe. O que tem de igual é a capacidade de fabulação, de criar histórias, de unir um personagem com outro. Além disso, no roteiro você está discutindo o tempo inteiro: “Qual a função dessa cena?” Quando escrevo literatura: “Qual a função desse capítulo?” Não sei. Talvez alguém vai descobrir e me contar. Só sei que funciona… E depois, quando está pronto, o roteiro é enviado para um monte de gente, que faz críticas. Reescreve. E ainda, vai vir o produtor, o fotógrafo, diretor de arte… Fica essa discussão sobre filme de autor. Todo filme é de autor, só que o autor é o diretor. Se há alguém que é quase autor do filme é o editor, que faz a edição final. Escrever um roteiro existe um “baixar a bola” muito grande para um escritor de literatura. [risos] Você é um, o comecinho de uma etapa que vai se distanciar muito de você. Mas trate de apontar muito bem onde as pessoas devem chegar.

Atualmente você está trabalhando no roteiro de um filme do Karim Aïnouz…

Beatriz Bracher – Ainda não sabemos o nome. É a história de uma moça, dentista, casada com um dublador, que acabou de se mudar para um apartamento com o marido e o filho de 14 anos. No intervalo do consultório, o marido liga para o celular dizendo que se separou, não sabe para onde vai… Estou trabalhando desde março, muito pouco tempo, porque o filme vai começar a rodar no dia 12 de agosto. O roteiro você tem que deixar descansar, como o livro, como qualquer coisa. Depois é muito fácil ver o que é ruim, salta aos olhos. Mas se não se tem esse tempo, dependemos do que o outro tem a dizer, com olhos frescos.

Como autora e editora, o que você diria a um jovem que deseja ser escritor?

Beatriz Bracher – Escrever, escrever, escrever… Obviamente, um escritor precisa escrever muito. Uma vez que já escreveu, ouvir o que outros têm a dizer é muito importante. É muito chato ler o que um amigo, escreveu para avaliar. Tem de escolher bem o amigo, vai ser muito legal quem fizer a leitura, no aspecto de ele ser honesto. Vale à pena trabalhar bastante e insistir.

 

> Assista à entrevista exclusiva de Beatriz Bracher ao SaraivaConteúdo


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