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Batman e 75 anos de muita loucura

Por Marcelo Rafael
 
Copa do Mundo que nada. Para os fãs de gibi de super-heróis (especialmente os “decenautas”), julho é o mês especial. E dia 23, a data. Esse é o dia escolhido pela DC Comics, detentora dos direitos do Homem-Morcego, para comemorar os 75 anos do herói mais louco da editora.
Desde que Bob Kane lançou o personagem na revista Detective Comics, no nº 27, em 1939, muita água já rolou pelos rios de Gotham City.
Nas ruas de uma cidade violenta – que agora ganhará seriado próprio – o medo se propagou nos cidadãos e provocou a loucura pura e simples de alguns de seus moradores.
Entre esses habitantes loucos, estão os meros delinquentes e o que degringolam para o crime (não muito) organizado.
A CIDADE DOS LOUCOS
Para o leitor e fã de Batman, Rodger Kenzo Matsuda, havia somente um desses tipos antes do Manto do Morcego surgir sobre Gotham.
Segundo ele, a loucura de Joe Chill, o ladrão que assassinou os pais do Bruce Wayne, lá em 1939 (trauma que provocou o surgimento de Batman), é coisa da criminalidade normal, de estatísticas que vivemos no dia a dia.
“É uma criminalidade como a nossa e ele [o Batman] responde a isso com uma psicopatia, que é usar os recursos financeiros que ele tem e se vestir de morcego para ter apelo psicológico e enfrentar esses loucos. Os loucos ‘normais’, que fizeram ele surgir”, analisa Kenzo.
Waldomiro Vergueiro, professor titular e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, concorda. “A própria constituição da cidade já não permite a defesa pelos mecanismos normais da Lei e da Ordem, que seria a Polícia. É uma sociedade essencialmente corrupta”, acrescenta.
Por outro lado, após o surgimento de Batman, segundo Kenzo, o ‘Mal’ tentou responder à altura. E aí, surgiram os loucos de pedra, um outro nível de loucura.
“A maioria dos vilões que Batman enfrenta tem algum tipo de desvio intelectual”, diz Vergueiro. Para ele, os mais próximos da normalidade talvez sejam o Pinguim e Ras al Ghul. “Que não é louco, é megalomaníaco”, diz.
O louco mais óbvio é o Coringa. Kenzo, como muitos outros, concorda: “Não posso dizer que ele é o mais perigoso, mas, com certeza é a ‘cara-metade’ dele, aquele que corresponde [à loucura]”.
 
Coringa
Vergueiro cita ainda o Sr. Frio, com a obsessão pela esposa, e Kenzo lembra de Bane, que quebrou a coluna vertebral de Batman. E ambos lembram Duas-Caras.
Em O Cavaleiro das Trevas, de 1986, Frank Miller volta a loucura para a mídia, que trata de forma desenfreada a banalização da violência em Gotham.
Ao escrever o Vol. 2, ocorreu o 11 de Setembro e o World Trade Center veio abaixo. Novamente, Miller voltou sua loucura para a imprensa.
Curiosamente, os atentados de 11 de setembro de 2001 foram provocados por um louco gerado dentro da própria sociedade norte-americana (Osama bin Laden cresceu e estudou nos EUA), assim como os arruaceiros e loucos que aterrorizam Gotham City.
A CASA DOS LOUCOS
A insanidade dos vilões acaba por evitar que eles parem na cadeia, indo para a instituição mais icônica de Gotham: o Asilo Arkham, estabelecimento psiquiátrico fundado por Amadeus Arkham.
“Tanto nos EUA quanto no Brasil, a pessoa com desvio mental não é penalmente imputável […] não é responsável pelos seus atos. Se [os vilões] fossem pessoas normais, já teriam sido condenadas à cadeira elétrica umas quatro vezes”, afirma Vergueiro.
Para Kenzo, o Arkham falha em seu dever de recuperar da insanidade. “Em geral, o Arkham é isso: jogar os loucos pra debaixo do tapete. Esconder da sociedade com ‘Ah, está tudo bem’”, analisa.
E esses doidos “varridos” aterrorizam Gotham e ganham destaque em álbuns clássicos como Asilo Arkham, O Cavaleiro das Trevas e até na saga A Queda do Morcego, além de jogos como Arkham City e Arkham Origins.
O LOUCO E A LEI
Mas, como Kenzo afirmou, a loucura precisou elevar seu nível para responder à tentativa de Justiça levada a cabo por Batman. O Homem-Morcego acaba sendo um catalisador da loucura, tanto para o professor quanto para o fã.
Para Vergueiro, a loucura está intrinsecamente ligada ao universo do herói. “Esse elemento da loucura é a possibilidade de se manter sempre o vilão”, analisa, acrescentando: “O fato de ele não ser uma pessoa normal, de ter uma obsessão, já funciona como um catalisador”.
 
As loucuras dos vilões, e do próprio Batman, já foram retratadas no cinema diversas vezes
Então, o próprio Batman é louco?
“Uma pessoa normal trataria de um trauma de infância procurando uma ajuda especializada: um psicólogo, um psiquiatra. E como ele tinha recursos…”, avalia Kenzo.
Vergueiro concorda: “O sujeito tem um trauma de infância, veste uma fantasia e sai batendo nas pessoas. Então, tem algum tipo de anormalidade”.
Em Batman Eternamente (1995), de Joel Schumacher, a Dra. Chase Meridian tenta desvendar a psique de Bruce Wayne e de Batman.
Ao ver um quadro na parede do consultório da psiquiatra da Polícia de Gotham, Wayne enxerga um morcego e a doutora explica que é apenas um rorschach. “As pessoas veem o que querem”, esclarece ela sobre a “pintura”.
Em Batman (1989), de Tim Burton, Kenzo lembra um diálogo entre Batman e Vicky Vale em que a repórter “fuzila” o herói. Batman pede que ela não flerte com o inimigo, pois o Coringa é um psicopata. Ao que ela responde: “Algumas pessoas dizem o mesmo de você”.
“Ele tem uma linha rígida que está sempre seguindo. Ele não se preocupa com o sentimento dos outros, ele sabe o que deve ser feito, ele é o dono da verdade. Não tem escrúpulos de armazenar dados sobre seus amigos, inclusive”, lembra Vergueiro.
Mesmo assim, o herói não se sente acima da lei. Após cometer todas as sandices como algoz dos vilões, ele os entrega para as autoridades, não faz justiça com as próprias mãos, na maioria das vezes.
“Vamos dizer que ele tem uma lógica própria. Dentro da lógica dele, isso tem um certo sentido. Ele está à margem da lei, mas não acima dela”, diz Vergueiro, citando o fato de que ele sequestra e bate nas pessoas. “Ele realiza um monte de atos que são totalmente ilegais”.
Dentro ou fora das paredes do Arkham, a loucura vai continuar em Gotham. Talvez por mais 75 anos.
 
Gotham está povoada de gente doida e somente outro louco pode dar conta
 
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