Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.05.2014 20.05.2014

Balzac é pop

Por Andréia Martins
 
ATUALIZADO EM 21/05/2014
 
O escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850) é considerado o pai do romance moderno. Se estivesse vivo, o autor de A Comédia Humana, com mais de 130 personagens, completaria 215 anos de vida no dia 20 de maio.
Otimista incorrigível, Balzac é considerado o pai do realismo e tem entre suas obras mais famosas Ilusões Perdidas, A Mulher de Trinta Anos, Os Jornalistas, classe que frequentemente era alvo das críticas do autor, entre outros.
Abaixo, veja as influências do autor francês no comportamento e na cultura.
COMPORTAMENTO
Quem já não ouviu a expressão “balzaquiana”? Não se trata apenas de uma referência às obras de Balzac, e sim a um tipo de mulher, retratada pelo autor francês no livro A Mulher de Trinta Anos. Nessa idade, a mulher balzaquiana ainda está à procura do par ideal.
No livro, a protagonista, Júlia d’Àiglemont, é o grande retrato da mulher mal casada, que após anos de infelicidade, ao chegar aos 30 consegue encontrar o amor nos braços de Carlos Vandenesse.
 
CINEMA
Algumas das obras de Balzac têm sido adaptadas para o cinema, como em A Vingança de Bette, de 1998, inspirado no livro Cousin Bette e estrelando Jessica Lange. Ele também aparece no filme Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut. O protagonista, Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud, é uma criança que se refugia em livros para se sentir mais humana e mais viva, como se fizesse parte do grupo de literatos que admira, como Balzac. O garoto se inspira no escritor para um trabalho da escola e acaba punido por plágio.
Numa cena famosa, o garoto cria um santuário para o autor na estante, onde acende uma vela. Durante o jantar, a família sente o cheiro de fumaça e descobre que o local está pegando fogo, o que coloca Antoine em maus lençóis. Como roteirista, Truffaut tinha Balzac e Marcel Proust como os maiores escritores de toda a França.
 
Referências a Balzac em Os Incompreendidos
ARTES PLÁSTICAS
Pablo Picasso (1881-1973) não gostava muito de fazer ilustrações para livros. No entanto, quando se tratavam de escritores que ele admirava, algumas exceções foram feitas. É o caso de Balzac. Em 1931, Picasso ilustrou o conto A Obra-Prima Ignorada, de 1831, um de seus livros de cabeceira.
 
Na história, o jovem pintor Nicolas Poussin é levado à autodestruição devido à sua busca pela perfeição. O mesmo conto também inspirou umas das criações de Richard Hamilton (1922-2011), o pai da pop art inglês, autor da famosa capa do White Album, dos Beatles, no quadro "The Balzac".
 
Retratos de Balzac por Pablo Picasso
HISTÓRIA
Napoleão Bonaparte é um dos mais importantes personagens históricos da França. A sociedade francesa na era pós- Napoleão, especialmente a burguesia, é retratada no clássico de Balzac, A Comédia da Vida Humana. Mas Napoleão cruzou o caminho do pequeno escritor muito antes. Em 1828, Balzac, então com 29 anos, parou em frente à estátua de Napoleão na Place Vendôme, em Paris, contemplou a figura e disse: "Algum dia, em breve, eu também vou conquistar o mundo". Vinte anos depois, a promessa já estava cumprida.
O CRIMINOSO NOBRE E AS SEQUÊNCIAS
O criminoso notável, visto como um ser fora do comum, a quem pouco faltou para ser um grande homem, era uma especialidade de Balzac. Críticos literários arriscam que foi ele quem criou este tipo, inspirando personagens como Moriarty, Fu Manchu e Hannibal Lecter. Ele também foi um dos primeiros autores a usar o recurso da “sequência” de histórias, hoje tão comum.
PUPILOS NA LITERATURA
Debruçando-se em detalhes e no comportamento humano, o estilo literário de Balzac influenciou muitos escritores. O formato de A Comédia Humana inspirou autores portugueses como Eça de Queiróz e Camilo Castelo Branco. Em Cenas da Vida Portuguesa, Eça escreveu uma série de romances (entre eles Os Maias) que retratavam a sociedade portuguesa após o estabelecimento do liberalismo em Lisboa, enquanto Castelo Branco escreveu oito textos intitulados Novelas do Minho (1875-1877), sobre personagens de povoados afastados.
O francês Gustav Flaubert é tido com discípulo de Balzac, especialmente nas descrições ácidas do cotidiano da burguesia. Mas o norte-americano Henry James é considerado o autor mais influenciado por Balzac. James dedicou quatro ensaios ao francês. Em seus textos buscava, como Balzac, manter as motivações psicológicas de seus personagens. "Eu falo dele como um homem de seu próprio ofício, que aprendeu com ele mais do mistério envolvente da ficção do que com qualquer outro", escreveu o norte-americano.
BALZAC EXCÊNTRICO
É raro entre os escritores clássicos não encontrarmos nenhuma excentricidade, afinal, é também isso o que os torna figuras interessantes na cultura. Balzac tinha algumas, como gosto por móveis, uma rotina metódica de trabalho e o gosto excessivo por café.
Sobre o gosto pela bebida ele fala no texto The Pleasures and Pains of Coffee (em tradução livre, o Os prazeres e as dores do café), onde ele começa dizendo que o café tem um grande poder em sua vida. "Eu venho observando seus efeitos em escala épica". Sem perder a ironia, dizia que embora as pessoas busquem inspiração, o café só deixava os chatos mais chatos.
 
Bule com as iniciais H.B., onde o escritor tomava café, exposto na Maison de Balzac, em Paris

Diz-se que Balzac costumava tomar 50 xícaras de café por dia, o que ajuda a explicar a sua rotina: ele acordava de madrugada e começava a escrever exatamente à uma hora da manhã. Ia até às oito horas, descansava e voltava para o trabalho, que encerrava às quatro da tarde.

Se a bebida não o estimulava, Balzac comia pó de café com o estômago vazio, um "método horrível, bastante brutal" que ele recomendou "apenas para homens de vigor excessivo” e “homens com mãos grandes e pernas quadradas em forma de pinos de boliche".
 
 
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