Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 14.03.2014 14.03.2014

Autora de ‘Samurai X’ e ‘Super Campeões’ fala do Brasil, futebol e samurais

Por Marcelo Rafael
O Samurai da espada de corte invertido e a equipe de futebol mais popular dos animes fizeram sucesso entre a garotada no final dos anos 1990. Em fevereiro, Samurai X e os jogadores de Super Campeões estiveram “mais pertinho” do Brasil quando Kaworu Kurosaki, a roteirista dos mangás que deram origem a esses animes, esteve em Manaus, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
A Fundação Japão, em parceria com outras entidades, trouxe a artista para palestrar e mostrar um pouco do processo de produção dos mangás no Japão. Ela agradou ao público ao soltar palavras e expressões em bom português, como “Obrigada”, “De nada” e “Pronto”.
Esposa de Nobuhiro Watsuki, mangaká (produtor de mangás) de Samurai X (atualmente republicado pela JBC com o título original em japonês, Rurouni Kenshin), Kaworu é responsável pela pesquisa histórica e roteirização da obra do samurai conhecido como “O retalhador”.
É dela também a história de Tsubasa, o craque japonês que chegou a jogar contra times brasileiros no mangá Super Campeões. E isso tem a ver com a história de Kaworu no Brasil. Saiba como neste bate-papo da autora com o SaraivaConteúdo.
Como foi a sua experiência no Brasil?
Kaworu Kurosaki. Minha vivência no Brasil se refletiu muito nas minhas obras. Eu cresci no Brasil. A minha infância eu passei aqui, e o que mais me marcou foi a variedade de etnias que nós tínhamos aqui. Minha estada foi curta, dividida em duas partes: da 1ª à 3ª série e depois, na segunda vez, na 5ª série. Foi uma passagem tão curta que eu não tive tempo de aprender o português, mas, de qualquer forma, foi uma experiência muito boa. Ao morar fora do Japão, eu consegui formar minha identidade como japonesa. Estando fora do país é que pude perceber o que é “ser japonês”. Na época em que eu estive aqui, vigorava a Ditadura brasileira e não tínhamos muito acesso a livros japoneses; eram muito poucos e, por serem poucos, eu tive a oportunidade de ler todas as obras japonesas disponíveis. Eu acho que isso me levou à minha profissão de hoje. Acho que isso foi muito positivo nesse sentido.
E o que a trouxe ao Brasil?
Kaworu Kurosaki. O motivo de eu ter vindo ao Brasil é que meu pai havia sido transferido para o país e, como expatriado, a família o acompanhou, e nós viemos. Ele trabalhava no setor de petróleo.
Enquanto esteve no país, que tipo de contato a senhora mantinha com o Japão?
Kaworu Kurosaki. “Riberudade” (em português “ajaponesado”, Liberdade)! Na Liberdade, na época em que estive aqui, há cerca de 35 anos, havia um lugar que alugava mangás. Essa era minha salvação. Então eu pedia para minha mãe, toda vez, para que me levasse lá para eu alugar um livro. É claro, era pago. Mas, toda vez que aluga, você precisa devolver, certo? Então, quando você devolve, é a sua chance de já pegar o próximo livro. Então, ao devolver, eu já pedia para minha mãe: “Posso pedir um outro livrinho?”. Foi com essa repetição que eu consegui ler muitos livros. Há 35 anos, os mangás que havia [disponíveis aqui no Brasil] eram os mangás ainda mais antigos. Não eram os mangás da época. Então, eu tive o privilégio de ter contato com mangás que crianças da minha faixa etária [lá no Japão] não tinham. Essa experiência foi algo bastante enriquecedor.
Como foi a pesquisa histórica para escrever Rurouni Kenshin?
Kaworu Kurosaki. Bom, a pesquisa histórica foi realmente muita trabalhosa e difícil. Para isso, eu realmente tive que ler muito. Mas ler, para mim, é algo prazeroso, principalmente pela experiência que eu tive no Brasil de me habituar a ler.
Por que a senhora acha que mangás com temas tão específicos, como História do Japão, fazem tanto sucesso fora de seu país de origem?
Kaworu Kurosaki. Em primeiro lugar, eu acho que histórias de samurais são interessantes principalmente por serem culturalmente diferentes das que o público leitor tem em seus países. Acho que, no caso específico de Rurouni Kenshin, o tema é abordado de uma forma de fácil compreensão. Por ser assim, acho que a impressão que os leitores têm é de que eles estão, de alguma forma, tendo contato com a cultura, com a História japonesa. Isso faz com que ampliem seus conhecimentos e tenham essa sensação de estar mais a par da História do Japão. Não só para os estrangeiros que têm essa atração pela cultura japonesa – mesmo os japoneses têm interesse em aprender História por meio do mangá. Isso faz com que seja mais divertido aprender História.
Kaworu conta que o kimono de Kenshin foi pensado originalmente escuro, como nos samurais de verdade, mas, depois, alteraram para vermelho para combinar com o cabelo
Suas obras são bem recebidas fora do Japão. A senhora pensa nos leitores estrangeiros quando escreve seus mangás?
Kaworu Kurosaki. Para dizer a verdade, eu realmente não levo isso em conta. Num primeiro momento, eu não levo em conta nenhum leitor. Na verdade, quando escrevo uma obra, eu tento entrar em mim o mais profundo possível, no âmago de meu ser, e aquela luzinha que eu encontro, lá dentro, é que eu tento pegar e trazer à tona como inspiração para a minha obra. Eu esqueço o mundo exterior na hora de buscar essa ideia. Mas como as obras que temos que fazer são voltadas a um público, no momento seguinte, sim, eu penso nos leitores para, então, dar prosseguimento. Mas os leitores em que penso são aqueles que estão à minha volta, muito próximos, que eu sei que leem. Eu posso dizer que o fato de isso estar sendo bem aceito por leitores fora do Japão é um aspecto de muita sorte.
Como a senhora avalia o impacto exercido pelo mangá fora do Japão? Mesmo no Brasil, o maior representante dos quadrinhos (Mauricio de Sousa) se rendeu um pouco ao gênero ao transformar sua turma, tão cristalizada na cabeça dos brasileiros (a Turma da Mônica), em algo novo e mais próximo do que é produzido no Oriente.
Kaworu Kurosaki. Realmente é maravilhoso, né? Para nós, que estamos envolvidos neste meio de mangá, é uma informação que nos traz muita alegria. Saber que nosso trabalho, de alguma forma, tem contribuído assim, deixa-nos muito felizes. O que chamamos de “cultura pop” normalmente é algo novo, e as pessoas ficam um pouco arredias em aceitar isso. Mesmo no Japão, quando falam “Eu sou mangaká”, as pessoas retrucam: “Mas você consegue viver disso?”. Então, mesmo lá, existe isso. Mas, ao sabermos que, fora do Japão, esse nosso trabalho tem proporcionado esse resultado e essa contribuição, isso me faz sentir muito maravilhosa, muito feliz.
Qual a sua relação com o futebol e, entre Brasil e Japão, quem a senhora acha que se dará melhor na Copa?
Kaworu Kurosaki. O impacto da segunda parte foi tão forte que eu esqueci a primeira pergunta (risos).
Na verdade, adoro futebol e, quando eu tinha 17 anos, nós tivemos um campeonato da província [equivalente a um campeonato “estadual”] e ficamos em 3º lugar. Eu era atacante. Quando eles estavam buscando alguém para escrever o roteiro de Super Campeões [Captain Tsubasa, no original], havia alguns pré-requisitos, que eram: conhecer as regras do futebol e ter conhecimento sobre o Brasil. Lá estava eu! Então, por esse trabalho em Super Campeões ter vindo para mim, eu agradeço ao Brasil por ter-me fornecido essa oportunidade!
Mas arrisca algum palpite para a Copa?
Kaworu Kurosaki. Eu sou um pouco suspeita para dar palpite, mas, quando o Brasil joga, eu falo “Nossa! O meu país ganhou!”. Quando o time do Japão ganha: “O meu país ganhou!”. Então, eu torço para que os dois países tenham um bom desempenho.
Flamengo e São Paulo estão entre os times que aparecem no mangá e no anime protagonizado por Oliver Tsubasa
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