Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.12.2014 15.12.2014

Autor investiga a importância de David Bowie para a década de 70

Por Lucas Rodrigues
Se os anos 70 foram um período de desilusão, muito se deve a David Bowie. Não que o camaleão do rock seja o responsável direto pelos problemas e tabus da década. Ele apenas foi a voz que alertou para as mudanças e representou a superação da eufórica e otimista década de 60.
Pelo menos é o que defende Peter Doggett, autor do livro O Homem que Vendeu o Mundo – David Bowie e os anos 70 (Nossa Cultura), um estudo minucioso que mescla uma análise da obra do artista ao contexto sociocultural da época.
Doggett tem experiência nesse tipo de investigação. Antigo editor da revista de rock e pop Record Collector, o jornalista inglês já publicou vários títulos em que estabelece alguma relação entre música e sociedade. Entre eles, You Never Give Me Your Money – A Batalha pela Alma dos Beatles (Nossa Cultura), em português), publicação dedicada às disputas jurídicas que se seguiram após o fim da banda em 1970.
Ao contrário de outros livros sobre David Bowie, O Homem que Vendeu o Mundo não foca na biografia de excessos e excentricidades do cantor. Na obra, o protagonista é o legado artístico de Bowie, que em sintonia com temas pertinentes aos anos 70, como a liberdade sexual, fez do popstar um símbolo para a década. “Ele foi o homem certo na hora certa”, afirma o autor.
Os anos 70 influenciaram a visão artística de David Bowie? Ele chegou a moldar a década de alguma forma?
Peter Doggett. O que faz de David Bowie o arquétipo de artista da década de 70 é o fato de que ele foi incrivelmente intuitivo sobre a forma como a sociedade estava mudando. Os anos 70 foram uma década muito fragmentada – e a arte de Bowie é, da mesma forma, uma arte de fragmentos. Ele foi o homem certo na hora certa.
Mais do que isso, ele encorajou milhares (milhões?) de jovens que estavam incertos acerca de sua sexualidade a se sentirem confiantes em relação a si mesmos. E, claro, Bowie foi uma grande influência musical ao movimento punk, e a quase toda a música britânica produzida posteriormente. Não teríamos tido Boy George ou Duran Duran, Annie Lennox ou Morrissey, talvez nem mesmo Madonna ou Lady Gaga sem David Bowie.
O livro é baseado na obra de Ian MacDonald, que realizou um estudo parecido das músicas dos Beatles em “Revolution in the Head: The Beatles’ Records and the Sixties”. O que as duas publicações têm em comum?
Peter Doggett. Eu quis ser fiel a ideia original de Ian para o livro, que era a de examinar cada música de Bowie da década de 70 – assim como ele fez com os Beatles nos anos 60. Mas fiz o livro do meu jeito. Expandi a fórmula original de Ian, adicionando vários pequenos ensaios sobre temas importantes da década de 70, de homossexualidade a drogas, de fascismo ao punk.
Como foi a produção do livro?
Peter Doggett. Em primeiro lugar, li tudo o que pude sobre Bowie nos anos 70. Como alguém que viveu aquela década, pude trazer muito da minha própria experiência para o livro. A partir de várias fontes, tentei construir um quadro bem amplo sobre a década; depois sobre o que estava acontecendo na vida e na cabeça de Bowie enquanto ele estava criando aquelas músicas; e finalmente, examinei as canções em seus mínimos detalhes.
Analisei suas letras para descobrir exatamente como as canções funcionavam. E fiz o mesmo com a estrutura musical de cada composição, tocando eu mesmo cada uma delas na guitarra ou no piano.
Você provavelmente estudou a biografia de Bowie. Essa pesquisa também foi independente? Quais biógrafos você consultou?
Peter Doggett. Existem diversas biografias de David Bowie, e o livro de Paul Trynka foi publicado enquanto eu escrevia o meu. Eu os li todos (o do Paul é um ótimo começo). No passado, também entrevistei várias pessoas que conheceram Bowie ou trabalharam com ele no início de sua carreira. Mas eu não queria escrever outra publicação que enxergava Bowie em termos de drogas e sexo. Queria focar no trabalho, e só escrevi sobre sua vida quando isso tinha uma influência direta naquele aspecto.
Em O Homem que Vendeu o Mundo, Peter Doggett faz paralelo entre a obra do cantor e os temas polêmicos da década
A diversidade de ritmos e as muitas referências na discografia de David Bowie chegou a dificultar o trabalho? Qual foi a parte mais complexa do estudo?
Peter Doggett. A parte mais complexa foi escutar as músicas que eu já conhecia, e ainda assim ser capaz de ouvi-las de um jeito diferente – ou, colocando de outra forma, desmontar as composições sem destruí-las. O fato de o catálogo de Bowie ser tão variado nos anos 70 é um dos motivos de ser tão fascinante, e meu próprio gosto musical é muito amplo, então não foi um desafio muito grande.
O livro tem muito conteúdo sobre teoria musical. Você se preocupou em escrever para o público especializado? Os leigos também conseguem acompanhar o livro?
Peter Doggett. Ao contrário de Ian MacDonald, eu não tenho treinamento em música clássica, então há muito menos teoria musical pesada no meu livro do que no dele. Mas acho importante ter uma noção de como a canção é construída, porque então é possível compreender exatamente o que Bowie estava fazendo quando a compôs.
Um exemplo: não sou um pianista muito habilidoso, mas quando sentei e toquei músicas como ‘Life On Mars’ e ‘Changes’ pude enxergar o que Bowie estava fazendo.  Isso me ajudou bastante a descobrir os truques de piano da mesma forma que ele havia feito.
Com o que os fãs que já sabem de tudo sobre Bowie podem se surpreender no livro?
Peter Doggett. Espero que eles possam se surpreender ao descobrir todas as diferentes influências de cada composição –as inspirações ocultas de Station To Sation, por exemplo, ou o fato de que ‘Queen Bitch’ não era uma música sobre Lou Reed, como todos pensam, mas na verdade sobre o antigo amigo e rival de David, Marc Bolan. Acredito que terá informação nova como essas no livro inteiro.
Analisando a obra de Bowie, o que mais te impressionou? Alguma música ou disco te marcou de alguma forma?
Peter Doggett. Todas elas! Mais do que uma gravação específica, acho que o que mais me impressionou sobre David Bowie nos anos 70 foi a sua coragem – o fato de que ele sempre quis explorar novos terrenos, e sempre quis pressionar seus limites criativos o mais longe que podia. Acho que seu exemplo deveria inspirar a todos nós: viva cada momento da forma mais produtiva e criativa que puder!
Pensando nos dias atuais, você consegue apontar algum artista que tenha tanta importância para o nosso tempo quanto Bowie teve para a década de 70?
Peter Doggett. Não! Acho que Steve Jobs é mais importante para a música popular no século XXI do que qualquer artista individual. A tecnologia é mais importante e revolucionária que a música.
David Bowie em performance de “Rebel Rebel”, no palco do programa Top of the Pops, em 1974
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